Passageiros voltam para casa após passarem por pânico em avião - Cidades - O Sol Diário
 

Susto no ar18/09/2012 | 20h40

Passageiros voltam para casa após passarem por pânico em avião

Aeronave que saiu de Navegantes arremeteu duas vezes, nos aeroportos de Porto Alegre e Florianópolis, antes de voltar ao Ministro Victor Konder por não conseguir pousar

Passageiros voltam para casa após passarem por pânico em avião Rafaela Martins/Agencia RBS
Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS
A poucos minutos de entrar na aeronave que a levaria de volta a Porto Alegre, nesta terça-feira à tarde, Vanja Rocha, 58 anos, segurava nas mãos a imagem de Nossa Senhora que carrega na bolsa. Um dia antes, foi à mesma santa que ela se apegou enquanto passava por momentos de desespero a bordo do voo 6788, da empresa Webjet.

A aeronave, que partiu de Navegantes com destino ao Rio Grande do Sul, arremeteu por duas vezes, em dois aeroportos diferentes, sem conseguir pousar. Em pânico e com poucas informações sobre o que teria causado as manobras repentinas, os passageiros se viram de volta ao Aeroporto de Navegantes – muitos deles, sem coragem para retomar a viagem. O avião partiria novamente duas horas depois, deixando em terra passageiros apavorados.

– Não tínhamos condições emocionais de embarcar – diz Leandro Komeroski, 37.

Ontem, no saguão do aeroporto, onde os passageiros que preferiram ficar em Navegantes se reencontraram para voltar a Porto Alegre, o clima era de apreensão. Por telefone, confirmavam com parentes e amigos que a situação meteorológica era similar à que havia resultado nas turbulências e no mau tempo que marcaram o trajeto, um dia antes.

Noeli Prates, 38, tinha os olhos cheios de lágrimas. Foi a primeira vez que ela viajou de avião, em companhia do filho, de nove anos. O menino ficou enjoado com o chacoalhar da aeronave e o nervosismo acarretou em uma crise de bronquite. 

– Rezei muito pelo meu filho. Se estivesse sozinha, ficaria mais tranquila. Mas com ele, me desesperei – relata.

A turbulência começou antes mesmo da primeira tentativa de pouso, em Porto Alegre. Já assustados, os passageiros viram a aeronave se aproximar do Aeroporto Salgado Filho, que operava por aparelhos, em meio a uma tempestade. O avião desceu e, sem condições de tocar a pista, voltou a subir.

A aeronave seguiu para o Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, onde, segundo os passageiros, o susto foi ainda maior. O avião já havia baixado o trem de pouso quando subiu de repente. O vento forte fez com que chacoalhasse de um lado para o outro e pendesse para a esquerda. Foi quando o pânico se instalou.

– Em Porto Alegre vimos que não havia condições, que a cidade estava sem luz. Mas em Florianópolis, o tempo estava bom. Cheguei a pensar que o avião estava com problemas e que não conseguia pousar por isso – diz Valéria de Araújo Rocha, 51.

Falta de informação

Crianças choravam, pessoas rezavam e outras passavam mal. Mas, segundo os passageiros, não havia informações claras sobre o que estava ocorrendo. Ao chegar em Navegantes, dois bombeiros entraram na aeronave para socorrer casos como o de Fabiana Falcão, 36, que teve uma queda brusca de pressão.

O piloto não teria saído da cabine para conversar com os passageiros, que exigiam respostas.

– A tripulação estava despreparada. Não acho que eles tivessem condições de retomar o voo – diz Leonardo Leiria da Rocha, um dos passageiros do avião.

Passado o susto, os últimos passageiros do voo 6788 chegaram ontem no fim da tarde ao Aeroporto Salgado Filho. Embora tenham enfrentado mais turbulências, chegaram em segurança.

Passageiros de outros voos tiveram medo de embarcar

O caos se instalou na pista do aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, quando a aeronave da Webjet arremeteu na segunda-feira. Passageiros que se encaminhavam para embarcar em outros voos acompanharam a tensão dos técnicos, que largaram o que estavam fazendo para observar a manobra.

O supervisor de suprimentos Vagner Martins, 29 anos, estava no ônibus que leva os passageiros até a pista, pronto para embarcar no voo 5019, também da Webjet, quando viu a manobra da aeronave que não conseguiu aterrissar.

_ Vi uma correria na pista e veio a aeronave. Como o vento estava muito forte, jogou a traseira do avião para o lado e o piloto teve que arremeter _conta.

Quando as pessoas desembarcaram do veículo, perceberam a tensão dos funcionários que estavam na pista e ficaram mais preocupadas. A partir daí os técnicos ficaram acompanhando atentamente todas as decolagens, enquanto conversavam pelos rádios.

O vento continuou forte e, apesar de não ter havido a necessidade de manobras mais bruscas, os passageiros do voo de Martins também sofreram com turbulências. Foram pelo menos cinco durante os 50 minutos de viagem à capital gaúcha.

– Ficou todo mundo com medo de embarcar depois de ter visto aquilo, mas o piloto conversou o tempo todo com os passageiros e a cada nova turbulência ele avisava – detalhou Martins.

A sensação de morte iminente, em um local de onde não se pode escapar, é o que desencadeia o medo e a ansiedade em situações como as vividas pelos passageiros do voo 6788, e por quem presenciou a manobra no ar. Doutora em Psicologia e professora da Univali, Giovana Delvan Stuhler diz que pessoas que passaram por um trauma como este podem, eventualmente, desenvolver fobias que as impedirão de voar novamente.

Neste caso, é necessário tratamento psicológico.

Anac pede informações sobre manobras

A situação vivida no voo da Webjet foi relatada por passageiros à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O órgão informou, por e-mail, que arremetidas por motivos de segurança operacional não resultam em penalidades para a companhia aérea, mas são solicitadas informações às empresas para saber os procedimentos adotados.

Respostas preliminares sobre o ocorrido já foram enviadas pela companhia e relatam que as arremetidas ocorreram por falta de condições meteorológicas. O procedimento é usado pelos pilotos quando percebem, durante a aproximação, que não há condições seguras de pouso – e, segundo o major da Aeronáutica e especialista em controle de tráfego aéreo, João Carlos Matioda, é bastante comum.

As regras que definem a forma como isto deve ocorrer, e a que altura o avião pode estar do solo antes de voltar a subir, são determinados em gabaritos produzidos por especialistas e dependem da planta do aeroporto e das condições climáticas.

– O que o piloto não pode é forçar o pouso se não há condições, ou ir além dos limites previstos – afirma Matioda.

Segundo o superintendente da Infraero em Navegantes, Marco Aurélio Zenni, não houve registro de problemas técnicos com a aeronave da Webjet, e o pouso de volta em Navegantes, às 18h02min de segunda-feira, ocorreu normalmente.

A Aeronáutica, responsável pelo controle do tráfego aéreo no país, explicou, por meio da assessoria de imprensa, que a instabilidade meteorológica no Sul do Brasil dificultou o pouso não só do avião da Webjet, como os de outras companhias.

Sem precisar a quantidade, a assessoria afirmou que houve outras arremetidas no fim de tarde e início de noite no aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, em função da baixa visibilidade e de um forte vento de través (que não está alinhado com o eixo da pista).

Outros dois voos, das empresas Gol e Tam, também voltaram a Navegantes na segunda-feira.

Contraponto

O que diz a Webjet:

A companhia aérea esclareceu, através da assessoria de imprensa, que o voo 6788 teve de seguir para Florianópolis por conta das condições meteorológicas adversas. Ao se aproximar da cidade, a tripulação também encontrou problemas climáticos e foi orientada a pousar em Navegantes. Os clientes chegaram a Porto Alegre assim que o Aeroporto Internacional Salgado Filho voltou a operar com segurança. A companhia ressaltou que todos os passageiros foram assistidos conforme as exigências da Anac.

O SOL DIÁRIO

O Sol Diário
Busca