Mães que denunciaram professor por abuso sexual sofrem hostilidade em Monte Castelo - Cidades - O Sol Diário
 
 

Coragem depois do drama08/12/2012 | 11h22

Mães que denunciaram professor por abuso sexual sofrem hostilidade em Monte Castelo

Mulheres se uniram para pedir justiça ante as denúncias confirmadas pelas 16 filhas

Mães que denunciaram professor por abuso sexual sofrem hostilidade em Monte Castelo Maiara Bersch/Agencia RBS
A luta de mães para proteger as filhas Foto: Maiara Bersch / Agencia RBS

No posto de combustíveis, no restaurante, na igreja e na vila. Em todos os lugares que a reportagem de "AN" percorreu na pequena Monte Castelo, de pouco mais de 8 mil habitantes, a reação foi a mesma.

 — O Adãozinho? Jamais teria coragem de fazer isso, não acredito — afirmaram muitos moradores.

A ideia de que um homem considerado benquisto pela comunidade e atuante na Igreja Católica tenha abusado sexualmente de meninas de seis e nove anos é o grande assunto das conversas no município no Vale de Canoinhas.

A mesma incredulidade hoje machuca, pela segunda vez, as mães que se uniram para pedir justiça ante as denúncias confirmadas pelas 16 crianças diante do juiz Reny Baptista Neto.

Em 8 de novembro, o professor de música e filosofia Adão Adelino Lemos, 43 anos, foi condenado a 26 anos e oito meses de prisão em regime fechado por estupro de vulnerável – seis meses depois de as 16 famílias registrarem boletim de ocorrência na delegacia. Hoje, ele ocupa uma cela no Presídio Regional de Mafra e recorre da sentença ao Tribunal de Justiça de SC.

O caso veio à tona em maio, depois que uma das meninas, de nove anos, decidiu contar o que ocorria a um colega de classe. Ele, por sua vez, não guardou o segredo e comunicou os avós. No dia seguinte, a diretora da escola estadual ouviu as crianças que teriam sofrido a agressão. A partir de então, a história da instituição receberia uma marca.

— Fiquei acabada, me senti impotente. Depois que passa, a gente pensa: como não percebi antes? — desabafou a diretora.

No dia, ela chamou as meninas, uma por vez, e as questionou sobre a agressão. Todas confirmaram, muitas em prantos. "Mãozear" foi a palavra encontrada pelas garotas para descrever os abusos. Abalada, a diretora levou a denúncia à Gerência Regional de Ensino e, dois dias depois, chamou o professor para conversar.

— Ele não disse nada. Apenas pediu a conta e foi embora dizendo: ‘que Deus abençoe vocês’ — relatou a diretora.

A mesma angústia de não ter percebido que algo errado estava ocorrendo atormenta as mães das meninas. As três mães ouvidas por "AN" reconhecem ter percebido mudança no comportamento das filhas: uma passou a usar legging debaixo do uniforme; outra ficou mais quieta e solitária. Mas nenhuma mãe imaginou que a realidade fosse tão grave.

Assim como a comunidade, confiavam no professor e consideravam gentil e prestativo o ex-seminarista que foi vereador por um mandato. De acordo com a diretora, quase todas as meninas do 1º ao 5º ano foram molestadas pelo professor, em geral após serem chamadas até a mesa dele, atrás do móvel. Assim como os pais que denunciaram, a diretora se sentiu julgada por parte da comunidade.

— Sou crucificada, mas estou com a minha consciência tranquila — diz ela, que há pouco tempo voltou a sair à rua.

Ela, as mães e as próprias crianças são constantemente questionadas por moradores. A mãe da menina que contou sobre a agressão ao colega diz que chegou a ser ameaçada. Ela e o marido sofrem hositlidades por onde passam e pensam em deixar a cidade.

A situação assusta as filhas das três mães ouvidas por "AN", que têm preferido não sair de casa. Com ajuda profissional e do tempo, os pais tentam passar confiança para as meninas.


Depoimentos


"Nos dias em que tinha aula com ele, minha filha chegou a usar legging por baixo da calça. Eu dizia para ela tirar aquele monte de roupa porque estava quente. Mas ela insistia que estava com frio. No dia 21 de maio, ela disse, chorando, que não queria dormir sozinha. Me chamou no quarto e disse: ‘Mãe, na quarta vai ter uma reunião na escola. A diretora vai chamar os pais e o professor Adão. É que... Ele fica passando a mão na gente’, disse. ‘Mas como, passando a mão?’, perguntei. ‘Passando a mão assim, por dentro da calça’. A gente conhece quando o filho está mentindo, e ela continuou chorando e segura no que dizia. Não dormi. No outro dia, quando meu marido chegou do trabalho, contei. Ele pensou e respondeu: ‘Mas ela não ia mentir’. Quando ele falou isso, me caíram as pernas. Depois que chorei tudo o que tinha que chorar, fui atrás dos meus direitos. Liguei para o Conselho Tutelar e chamei outras mães. Uma semana depois, ela contou ao pai. Ele já sabia, mas nunca tinha escutado dela. Depois que ela contou, ele se trancou no banheiro para chorar. "
Mãe de uma menina de nove anos

"Ele foi meu professor, era um amor de pessoa. Quando a gente soube, foi um choque. Chegou a um ponto em que ela não queria mais ir à escola. Até ia, mas chegava perto das 9 horas, a diretora ligava pedindo para buscá-la porque ela estava passando mal. ‘O que ela tem?’, eu questionava. ‘Dor de barriga, ânsia de vomito e dor de cabeça’, respondia a diretora. Quando ela tomava banho, eu não podia secá-la e não entendia o porquê. Quando a história veio à tona, ficou mais arredia com o pai e os tios. Ela olhava pra mim e dizia: ‘Mãe, juro por Deus que não estou mentindo’. Até há poucos dias, não ia ao mercado porque ‘todo mundo vai me olhar, mãe’. Ela era outra criança, sempre rindo, comunicativa. Agora é mais triste, sente-se culpada. Morro de vontade de ir embora da cidade. É complicado sair daqui, mas a vontade é essa. Porque sei que o trauma vai longe. Ela tem medo de que ele saia da cadeia. "
Mãe,de uma garota que passou uma semana na casa da avó para não ser questionada na rua

" Minha cunhada contou que havia algo de errado na escola. Fui e conversei com a diretora. Voltei para casa, esperei minha filha chegar e a questionei. Eu a conheço: ela nunca ia me contar. ‘Filha você não tem nada pra contar pra mãe?’, perguntei. ‘A mãe já sabe?’. ‘Sabe o quê?’. ‘Que o professor Adão fica passando a mão por dentro da calça’. Não pensei em mais nada. Larguei tudo e fui direto na delegacia. Nem sabia se outras mães haviam registrado boletim. O delegado me contou sobre as outras mães. "
MÃE de uma menina que frequenta a escola estadual    

Contraponto

No Presídio Regional de Mafra, Adão Lemos está separado do convívio com os demais detentos. Divide espaços com homens também presos por crimes sexuais – é a forma de a direção mantê-los distantes da hostilização de outros presos.

Em novembro, quando ocorreu a audiên- cia na comarca de Papanduva, grupos protestaram em frente ao fórum, com faixas. De um lado, as famílias; do outro, defensores do ex-vereador.

O advogado que defende Adão, Orlando Marcelo Vieira, preferiu não comentar o caso sem antes consultar o seu cliente, o que deve ocorrer na semana que vem. Orlando comentou que o ineditismo do processo o torna "complicado de se falar a respeito".

Ele confirmou que protocolou recurso pedindo ao Tribunal de Justiça nova análise da sentença, mas não revelou as alegações porque o processo corre sob sigilo.  

Os sinais

A diretora da escola conta que o professor parecia ter conquistado a confiança dos alunos em 2011, quando começou a lecionar. As crianças corriam ao encontro dele, lembra. No fim do ano passado e no início de 2012, a convivência mudou.

Segundo os relatos das meninas, foi quando ele começou a se comportar de forma imprópria durante as aulas. Às mães, as meninas disseram que o professor tomava atitudes estranhas em momentos como aulas de vídeo e o horário de lanche. Por vezes, as colocava no colo e as tocava abaixo da cintura.

As meninas conversavam entre elas sobre o assunto, mas tinham vergonha de revelá-lo a adultos. Com o tempo, tentaram resolver o problema sozinhas. Uma delas passou a usar duas calças para ir à escola, alegando estar com frio. Outra colega fingia dor de barriga para não ir à aula. A diretora, por vezes, encontrou as meninas pálidas e com aparência assustada. Alertava os pais, mas não imaginava o que ocorria.   

A denúncia

As três mães ouvidas por "AN" contaram ter ficado sem chão quando descobriram, pelas filhas ou pela diretora. Questionaram as meninas, que têm nove anos, por diversas vezes para terem certeza de que o relato era verdadeiro.

Quatro famílias acionaram o Conselho Tutelar, que orientou que o caso fosse levado à Polícia Civil. Uma mãe não pensou duas vezes: foi direto à delegacia. Ao registrar a queixa, descobriu que não era a única. Foi também quando começaram a sentir o peso da denúncia na comunidade.

As acusações davam conta que a diretora teria subornado as mães a denunciarem o professor; chegaram a dizer que era um golpe para que Adão Lemos não se candidatasse novamente a vereador. As mães rebatem as críticas.

— Você acha que eu ia expor a imagem da minha filha desse jeito se não fosse verdade? Que tipo de mãe faria isso? — indaga uma delas.

Além do falatório, houve ameaças.

— Jogaram um bolo na calçada da minha casa e meu cachorro foi envenenado — revelou uma das mães, que garante que os fatos foram uma forma de intimidação.

— A mulher chegou no meu trabalho e disse que, se ele fosse condenado, eu não amanheceria no outro dia — conta outra.

A reação partiu também de pessoas próximas às famílias. O pai de uma das meninas afirmou que teve de responder a um conhecido que o questionou sobre a veracidade da denúncia.

— Com muita calma — pediu que o colega respeitasse a dor da família.

— Eu disse para ele levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus por não ter acontecido nada com a filha dele, porque não é fácil. É uma dor muito grande — disse, com lágrimas nos olhos.  

Os traumas

— Mãe, quando ele sair da cadeia eu vou ter 35 anos. Nem vou mais lembrar, né, mãe? 

Foi a pergunta de uma das meninas, de nove anos, na conversa com a mãe sobre a condenação do professor. A mulher conta a história com a voz embargada. Todas querem exatamente isso: que as filhas esqueçam o que ocorreu.

As mães relataram que o comportamento das meninas mudou. Uma ficou mais agressiva; responde aos pais em tom de enfrentamento. Uma colega se tornou mais introvertida e quieta.

Há ainda a que se recusa a sentar no colo do pai e a receber carinho de familiares homens. Todas se esquivaram das mães nos primeiros dias ao tomar banho e nenhuma toca no tema. Uma delas se refere ao caso como "aquele assunto".

A menina que vestia duas calças para ir à escola está aceitando a ideia de usar bermuda novamente. Dormir junto com os pais de vez em quando também se tornou uma rotina. Uma mãe não contém a emoção e chora ao imaginar como será o futuro da pequena.

— Será que ela vai conseguir se relacionar com alguém quando for mais velha? Fico pensando se ela vai esquecer disso tudo um dia — desabafa.

Muitos defensores entre os moradores
 


Uma sobrinha do professor Adão Lemos e três amigas receberam a reportagem de “AN” na terça-feira e aceitaram conversar. Uma das mulheres, de 50 anos, trabalha em uma pastoral da igreja. Estava acompanhada de uma ministra da igreja e de outra senhora que conhecia o ex-vereador apenas pela vizinhança.

Todas choraram e lamentaram a condenação de Adão Lemos. Disseram que nunca desconfiaram dele por causa da convivência e do bom relacionamento que ele demonstrava ter com a comunidade.

Até hoje não acreditam e não aceitam a condenação. “Se ele nunca fez isso com as meninas da casa e da família, por que faria isso na escola?”, questiona a sobrinha. “A esposa dele envelheceu muito depois disso, mas ainda assim, continua frequentando a igreja”, comentou uma das amigas.

Os parentes e amigos do professor e ex-vereador encontram eco na fala de muita gente da comunidade. Em um posto de combustíveis, os funcionários comentaram duvidar da veracidade da história. No restaurante, a atendente não acredita: diz que conviveu desde jovem com Adão Lemos, a quem considera um exemplo.

A secretária da igreja diz que quer guardar a imagem boa do “Adãozinho”, o braço direito que hoje faz falta. “Mesmo com provas é difícil de acreditar. Sempre vou ter essa imagem boa dele na minha mente”, disse a secretária, de 35 anos.

Silêncio na audiência

Como o processo corre em segredo de justiça, o promotor responsável pelo caso na Comarca de Papanduva, Belmiro Hanisch Jr., apenas confirmou que todas as crianças deram ao juiz as mesmas declarações feitas na delegacia, com detalhes chocantes. “Os depoimentos delas causam repulsa a qualquer pessoa com acesso ao processo. É um caso que a gente leva para toda a vida”, comentou.

O promotor de Justiça revelou que Adão Lemos se reservou o direito de permanecer em silêncio durante o julgamento. Não se defendeu nem respondeu a nenhuma pergunta ao longo da audiência. Também o depoimento de professores da escola ajudaram a incriminá-lo.

“As circunstâncias de como eram ministradas as aulas permitiram visualizar como os abusos ocorriam”, avalia Belmiro. “Infelizmente, esse tipo de agressão ocorre com fre-quência e poucas vezes acaba vindo à tona”, concluiu.

Senso equivocado atrapalha denúncias

A psicóloga Giana Yara Malinoski Abdom, que trabalha no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas) de Joinville, específico para vítimas de agressões sexuais, conta que muitas crianças encontram a primeira barreira nas famílias, que têm dificuldade em confiar nos pequenos. Também existe o falso senso comum de que o agressor é uma pessoa desprezível no trato usual.

Giana cita estudos que apontam que os agressores podem pertencer a qualquer classe social ou religião. Na maioria, não apresentam comportamento criminal específico e apenas 4% sofre de doença mental severa.

Adão Lemos foi condenado por estupro de vulnerável com base na mudança da legislação criminal que passou a classificar desta forma qualquer abuso sexual, sem a necessidade de relação. O simples toque – dependendo da intenção – ou abordagem vulgar de menores de 14 anos podem ser considerados abusos.

Além dos agressores mais comuns – pai, seguido do padrasto, tio e irmão –, nas situações acompanhadas pelo Creas um perfil se repete: o de uma pessoa bem vista pela comunidade e referência para a criança. Segundo Giana, os raros testemunhos falsos não passam batido por profissionais.

Procurar ajuda é fundamental e pode mudar o futuro da criança agredida, que muitas vezes se sente culpada. “Ela pode retomar a vida, mas vai guardar essa memória”. Giana explica que muitos agressores também precisam de tratamento, por terem sofrido de abuso igual ou apresentarem distúrbios além da pedofilia.

O que fazer

Para evitar a violência sexual, Giana aconselha o diálogo dentro de casa. Os pais devem explicar para as crianças, desde muito pequenas, que o corpo delas é especial e deve ser preservado. A sexualidade pode ser abordada durante os questionamentos das crianças, pois, muitas vezes, elas dão oportunidade para isso, ao longo do desenvolvimento.

Qualquer alteração de comportamento pode ser um indício de que algo não está bem. A falta de apetite, noites mal dormidas e timidez são alguns sinais que precisam ser observados com atenção. O agressor geralmente pede segredo, por isso os pais devem conversar muito com os filhos, a fim de conquistar a confiança deles.

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