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Meio Ambiente17/01/2013 | 06h02

Laudo confirma contaminação no Rio Perequê em Itapema

Multa à empresa responsável pelo tratamento de esgoto, pode chegar a R$ 50 milhões

Laudo confirma contaminação no Rio Perequê em Itapema Rafaela Martins/Agencia RBS
Em Meia Praia, placa e faixa alertam para contaminação Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

A Fundação do Meio Ambiente (Fatma) confirmou no fim da tarde de quarta-feira que as águas do Rio Perequê, entre Itapema e Porto Belo, foram contaminadas por esgoto. Análises laboratoriais concluíram que a poluição foi causada por despejo de efluentes sem tratamento adequado na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) operada pela empresa Águas de Itapema, no Bairro Morretes. A empresa será multada pela Fatma. O valor, ainda não definido, pode chegar a R$ 50 milhões.

O laudo levou em conta parâmetros como a quantidade de coliformes fecais e de matéria orgânica presentes no Rio da Fita, que recebe os efluentes de esgoto e desemboca no Perequê, além de amostras da estação de tratamento e do próprio Rio Perequê.

De acordo com os dados divulgados pela Fatma, a quantidade de matéria orgânica nas amostras recolhidas em pontos antes e depois da ETE saltou de 14,6 mililitros por litro para 160 mililitros por litro – um índice quase três vezes maior do que o permitido pela legislação ambiental.

– Vários indicadores foram analisados e mostraram que o tratamento está bastante fora dos parâmetros – diz Anderson Atkinson da Cunha, técnico da Fatma responsável pela fiscalização.

As amostras foram coletadas pelo órgão no dia 4, época em que moradores e turistas reclamavam do cheiro e da cor escura do Rio Perequê. Dias depois, peixes de diferentes espécies, como bagre, escrivão e tainhota apareceram mortos nas margens do rio e também nas praias de Perequê e Meia Praia, em Porto Belo e Itapema. Algo que, segundo o técnico da Fatma, também foi causado pela poluição.

Multas se repetem

Além do auto de infração por despejo de esgoto sem tratamento adequado no Rio da Fita, a Fatma também avalia a possibilidade de embargo da estação de tratamento, caso o local não se adeque às exigências da legislação ambiental. Em dezembro, a empresa Águas de Itapema já havia sido autuada pelo órgão ambiental por irregularidades como presença de animais na área de tratamento de esgoto e por operar sem licença. No dia 6, a companhia também foi multada em R$ 500 mil pela Fundação Ambiental Área Costeira de Itapema.

Apesar das denúncias, a Águas de Itapema mantém o silêncio. No início da noite de ontem, a assessoria de imprensa informou que a empresa ainda não recebeu o laudo da Fatma e que, por enquanto, não vai se manifestar.


Contaminação afeta o turismo

Desde que surgiram os indícios de poluição no Perequê, nos primeiros dias do ano, o setor de hospedagem registrou queda em Itapema e Porto Belo. Na Praia de Perequê, imóveis à beira do mar estão sendo alugados por menos da metade do preço.

– Temos imóveis que passaram de R$ 800 a diária para R$ 350. A temporada não está boa em lugar nenhum, mas o rio agravou a nossa situação _–diz Aldo José dos Santos, dono de uma imobiliária no Perequê.

Situação parecida enfrenta Vilmar Nisz, responsável pelos aluguéis em um condomínio com apartamentos de frente para a praia. As diárias, que deveriam ser de R$ 400, foram reduzidas para R$ 250. Mesmo assim está difícil encontrar interessados e um terço dos imóveis está vazio.

Presidente do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes de Itapema e Região (Sindhoteis), José Maria Negreiros, diz que hotéis e pousadas nas praias atingidas pela contaminação do Perequê tiveram uma queda de 50% nas hospedagens feitas no balcão _ aquelas que não são acertadas com antecedência.

– Essa situação manchou a imagem da região – acredita.


Sem movimento, comércio demite  

Dono de um bar no canto Sul de Meia Praia, em Itapema, Fábio Vieira viu os turistas debandarem e o rendimento cair enquanto o Perequê mostrava sinais de contaminação. O cheiro de esgoto e a mortandade de peixes, que veio logo depois, fez cair pela metade o movimento. Com menos clientes, o comerciante reduziu de 10 para dois o número de garçons.

– Estava tudo indo bem, o pessoal ganhando seu dinheiro, mas não deu mais para manter tanta gente. O pessoal vê a praia interditada e não entra. Até quem mora na rua ao lado tem preferido ir para outros lugares – desabafa.

No outro lado do rio, na Praia de Perequê, Damásia Estela da Luz, que mantém um quiosque, também sentiu o movimento reduzir. Em 20 anos trabalhando à beira do mar, diz que nunca viu um movimento tão baixo nas primeiras semanas de janeiro.

– Fico preocupada que Porto Belo fique mal vista – diz.


Banhistas se arriscam  

Ontem à tarde, as faixas instaladas pela prefeitura de Itapema no Canto Sul da Meia Praia, onde desemboca o Rio Perequê, continuavam alertando os turistas para o risco de contaminação no local. Mesmo assim, houve quem se arriscasse no mar e também no rio. Na areia, porém, o movimento era bem menos intenso do que nos primeiros dias do ano.

Médico infectologista, Carlos Correa alerta que em locais contaminados por esgoto o banhista se expõe a doenças como hepatite e diarreia.

– Se ingerir a água, pode estar ingerindo junto bactérias e coliformes. Não é recomendado – diz o médico.

Turista de Sarandi (RS), Marlene Gnoatto passeou pela areia ontem, mas evitou a água do Perequê.

– Acho que pode prejudicar o turismo, o fato de se encontrar parte da praia interditada – opina.

Prefeito de Itapema, Rodrigo Bolinha (PSDB) disse estar ciente da situação, e preocupado com as consequências:

– Além do dano ambiental, que não tem preço, também temos um sério prejuízo sócioeconômico para a região – avalia.

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