Crianças se arriscam nas ruas do Litoral Norte vendendo picolés - Cidades - O Sol Diário

Doce infância01/06/2013 | 07h09

Crianças se arriscam nas ruas do Litoral Norte vendendo picolés

Flagrantes foram feitos durantes oito meses em Camboriú, Itajaí e Balneário Camboriú

Crianças se arriscam nas ruas do Litoral Norte vendendo picolés Rafaela Martins/Agencia RBS
Menino foi flagrado em Balneário Camboriú vendendo picolé Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

O apito do carrinho de picolés ecoa alto pelas ruas. Mas o som que remete à gostosura típica da infância também é capaz de despertar amargas lembranças. Há dois anos tem sido assim para o filho de Maria*, moradora de Camboriú.

>> Vídeo mostra a rotina das crianças

Aos 12 anos, quando trabalhava como vendedor de sorvetes, o menino foi atraído para uma obra, no Centro, e abusado por um estuprador. Conseguiu fugir e pedir ajuda, mas permanece assombrado pelo passado. Não é fácil para a família tocar no assunto. A mãe diz que o filho passou por auxílio psicológico, mas fala pouco a respeito.

– Naquele mesmo ano, ele havia sido assaltado. Levaram tudo o que tinha. Depois disso, não deixei mais voltar a trabalhar. Meu filho mais novo quis vender picolé também, mas não deixei. Não consigo mais ficar sossegada – conta a mãe.

Histórias que exemplificam os riscos a que estão expostos pequenos vendedores de picolé se multiplicam no Litoral. Recentemente, outro menino da mesma idade foi encontrado pelos conselheiros tutelares sozinho, após ter passado a noite fora de casa. Havia gastado o dinheiro dos sorvetes em uma lan house e, sem ter como pagar ao dono da sorveteria, caminhou durante toda a madrugada, empurrando o carrinho vazio.



– O trabalho expõe a criança à violência, não permite que ela desenvolva as capacidades intelectuais e que vire um profissional qualificado no futuro, o que terá grandes repercussões na vida dela – avalia a pedagoga Soraya Franzoni Conde, que baseou uma tese de doutorado em pesquisas sobre o trabalho infantil em Santa Catarina.

A equipe de O Sol Diário flagrou meninos que, no verão ou no inverno, perambulam pelas ruas de Balneário Camboriú, Camboriú e Itajaí vendendo picolés. Protegidos pela conivência dos adultos, passam despercebidos pela fiscalização e perpetuam, assim, uma das formas de trabalho consideradas mais degradantes e arriscadas na infância – de acordo com decreto do governo federal de 2008, que estabelece as piores formas de trabalho infantil.

Danos à saúde, riscos de acidentes e exposição à violência são perigos que cercam os pequenos vendedores de picolés. Pelo Conselho Tutelar de Camboriú, cidade onde são mais comuns as denúncias na região, passaram nos últimos dois anos meninos assaltados, desaparecidos e vítimas de violência sexual enquanto trabalhavam nas ruas.

* Os nomes das crianças e de pais foram omitidos ou trocados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente. 

O SOL DIÁRIO

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