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História da aviação15/04/2014 | 06h11

Posto de saúde em área de relevância histórica abre discussão na Ilha de SC

Avaliador da Unesco teme que obra possa ameaçar tombamento do campo de aviação no Campeche como Patrimônio da Humanidade

O campo de aviação do Campeche, no Sul da Ilha, vai ganhar um posto de saúde a partir de 2015. A ordem de serviço para a construção da estrutura deve ser assinada no final de maio. A notícia teria tudo para ser boa se não fosse por um imbróglio que se estende por mais de cinco anos no bairro.

O campo de aviação, junto com a casa de pilotos e resquícios de antenas de rádio, guarda a memória da companhia francesa Générale Aéropostale, atual Air France, que teve como um de seus pilotos Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe.

Tanto a Associação dos Moradores do Campeche (Amocam) quanto a Associação Memória da Aéropostale no Brasil (AMAB) aguardam a construção de um parque e o tombamento do terreno, mas temem que a construção do posto de saúde descaracterize o patrimônio histórico.

No século 20, o campo de aviação, com mais de 300 mil metros quadrados, servia como pista de pouso e decolagem aos aviões. Por esse motivo, entraria em projeto de tombamento dos vestígios da Aéropostale no Brasil pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônio da humanidade.

As duas associações, baseadas em uma carta encaminhada pelo presidente da Associação de Arquitetos de Patrimônio da França e avaliador da Unesco, Rémi Desalbres, acreditam que a área poderá ser retirada da inscrição para tombamento com a construção de um posto, que não tem a ver com o projeto original para o espaço: um parque com elementos que preservam a memória da aviação e integram a comunidade.

A obra da Secretaria Municipal de Saúde, no entanto, foi aprovada pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf) e, consequentemente, liberada pela Superintendência do Patrimônio da União em Santa Catarina.

A área de 2 mil metros quadrados foi cedida à Prefeitura de Florianópolis pela União, proprietária de 114 mil metros quadrados do terreno. O restante do campo de aviação pertence à Força Aérea Brasileira (FAB).

Patrimônio da humanidade

— Alertado sobre um projeto de construção no local do terreno de aviação do Campeche, estamos hoje particularmente preocupados com as consequências que esta acarretaria para o projeto de inscrição da Linha Aérea Latécoère/Aérpostale na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. Assim, pedimos junto às autoridades brasileiras e à cidade de Florianópolis, que tomem todas as providências a fim de salvaguardar e valorizar esse patrimônio excepcional — diz, em tradução, parte da carta encaminhada por Rémi Desalbres a órgãos da prefeitura e da União.

A carta foi protocolada por Mônica Cristina Corrêa, presidente da AMAB. Ela tenta há cinco anos tirar do papel, com a ajuda do governo francês, a revitalização da casa de pilotos e a construção do parque no campo de aviação.

Segundo ela, a questão não é mais apenas de Florianópolis. A escala na Ilha dialoga com mais outras 11 escalas em todo o país que entram na inscrição para tombamento. Membros de uma comissão devem vir à Capital catarinense ainda em 2014 para avaliar os patrimônios.

A superintendente do Ipuf, Vanessa Maria Pereira, afirma que o projeto do posto de saúde foi avaliado pelos técnicos do Sephan, órgão de patrimônio histórico e cultural da prefeitura, e que não haverá comprometimento do patrimônio.

O Iphan e o Ipuf concordaram que com o número de pavimentos, dois, e as características do imóvel nem mesmo a relação visual com o Morro do Lampião será afetada para obra. Sobre a carta de Desalbres, Vanessa diz que tiver o documento em mãos avaliará o conteúdo.

—  Já não existe integralidade do patrimônio. A avenida Pequeno Príncipe corta o campo de aviação e ele não é mais como era antes — revela Pereira.

Atual posto será desativado

A construção do parque está garantida. O posto de saúde será integrado a um Museu da Aviação e a outros elementos que resgatam a memória do local em projeto que já está sendo elaborado pelo Ipuf.

Para o secretário municipal de Saúde, Carlos Daniel Moutinho Júnior, o posto corresponde a apenas 1,5% do terreno, não comprometendo o valor histórico, e garantindo o acesso fácil da população.

O atual posto de saúde do Campeche será desativado com a inauguração do novo posto, no primeiro trimestre de 2015. Além de não atender ao número de habitantes, o antigo posto funciona em espaço alugado desde 2007.

— Não tinha outro terreno com esse tamanho que pudesse comportar o posto. É uma área bem localizada, com capacidade para atender 15 mil pessoas. Poderemos integrar atividades ao parque, como caminhada e exercícios. Será uma boa experiência como a de Coqueiros — complementa.

O vice-presidente da Amocan, Ataide Silva, garante que a prefeitura têm outros terrenos em que poderia erguer o posto de saúde. A população do bairro deseja a construção do parque, uma das carências do Sul da Ilha.

— A construção do posto pode abrir espaço para que outros queiram construir no terreno que tanto lutamos para preservar como patrimônio. Essa não é a vontade da comunidade — lamenta.

 

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