"Foram três horas de muita tensão", conta moradora despejada em Navegantes - Cidades - O Sol Diário
 
 

Desocupação14/01/2016 | 18h21Atualizada em 14/01/2016 | 21h27

"Foram três horas de muita tensão", conta moradora despejada em Navegantes

De acordo com moradores, ação da Polícia Militar acabou somente por volta das 13h, quando o terreno foi fechado e o acesso limitado

"Foram três horas de muita tensão", conta moradora despejada em Navegantes Lucas Correia/Agência RBS
Moradores foram removidos para abrigo em escola no bairro Meia Praia Foto: Lucas Correia / Agência RBS

O movimento foi intenso no terreno alvo de uma desocupação no bairro Meia Praia, em Navegantes, na tarde desta quinta-feira. Alguns moradores despejados pela manhã foram autorizados pela Polícia Militar a retornar ao local para recolher seus pertences. Caminhões da Secretaria de Obras do município fazem o transporte de móveis e eletrodomésticos para o abrigo improvisado na Escola Professora Rosa Maria Xavier de Araújo, que fica no mesmo bairro.

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No meio da confusão a dona de casa Ana Carla Ruhmke, 27 anos, teve tempo apenas para retirar dois eletrodomésticos, a cama e algumas peças de roupa da família antes de ser despejada de sua casa de madeira, com três cômodos. Ela relata que por volta das 6h os policiais chegaram pela primeira vez. Como depararam-se com barricadas de pneus em chamas, recuaram e voltaram menos de cinco minutos depois. Segundo ela, os PMs usaram bombas de gás lacrimogênio para controlar a situação.

Famílias desmontaram estruturas para reaproveitar materiais posteriormente

– Foram no mínimo três horas de muita tensão. Muita criança chorando e caindo na rua, muita mãe desesperada. Teve muita violência, foi desnecessário tudo isso. Ninguém foi pra cima deles – relata.

A família decidiu ocupar a região em maio do ano passado e em pouco mais de seis meses viu a residência ser desmanchada duas vezes. A falta de oportunidade e escolha fez tentar novamente a vida junto com as outras 80 famílias:

– A crise está pegando geral e o aluguel é muito caro. Precisamos decidir se pagávamos o aluguel ou comíamos. Ainda mais com duas crianças pequenas. Precisamos escolher o que fosse melhor pra eles – justifica.

A rotina na comunidade era tranquila, de acordo com ela. Aos poucos as famílias construíram fossas para escoar o esgoto e puxaram energia elétrica direto do poste. Madeira, telhas e fiação para construir a residência da família foram comprados com o dinheiro de meses de trabalho do marido Alexandro de Maciel, 28 anos, pedreiro. No entanto, o sonho da casa própria vai ter que aguardar mais um pouco. Ana, o marido e os dois filhos pequenos foram encaminhados para o abrigo.

– Estamos de mãos atadas. Agora vamos trabalhar, pagar aluguel para os outros e voltar à rotina até conseguir comprar uma casa.

É tempo de recomeçar
O soldador Fabrício Moisés Silva, 22 anos, é natural de Curitiba, mas veio tentar a vida no litoral catarinense há quase um ano. Investiu cerca de R$ 2,5 mil de economias do 13° salário e contou com a ajuda do irmão para erguer o "barraco", como se referiu à habitação de onde foi despejado. Como ainda faltam duas semanas para o fim do mês – período em que recebe o salário –, o jovem não tem ideia do que fará até lá.

– Estou sem rumo, talvez peça favor para meu irmão. Mas não vou voltar pro Paraná. Lá está ruim de serviço – afirma.

Silva conta que a região era tranquila e boa de ser habitada. Quando chegou no local, não precisou pagar pelo terreno que media 10x11 metros. Bastou que aterrasse a região, antigamente um banhado. Também havia ruas delimitadas, com 11 metros de comprimento cada uma.

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