Em Presídio de Tijucas, presas contam em cartas a violência doméstica sofrida, e os textos são lidos para os detentos da unidade - Cidades - O Sol Diário
 
 

 
 

Vida real09/04/2016 | 07h23Atualizada em 10/04/2016 | 21h50

Em Presídio de Tijucas, presas contam em cartas a violência doméstica sofrida, e os textos são lidos para os detentos da unidade

Projeto foi criada pela diretora do presídio Danielle Silva

Em Presídio de Tijucas, presas contam em cartas a violência doméstica sofrida, e os textos são lidos para os detentos da unidade presidio,violencia,mulher,mulheres,detentas,detentos,ala,misto,dia das mulheres/Agencia RBS
A maioria das mulheres presas sofreu violência doméstica Foto: presidio,violencia,mulher,mulheres,detentas,detentos,ala,misto,dia das mulheres / Agencia RBS

Luciana tinha 16 anos quando teve quase 50% do corpo queimado. O marido, numa crise de ciúmes, jogou tinner e ateou fogo no corpo dela. Ficou meses entre a vida e a morte. Os médicos tiveram que reconstruir o nariz e a boca. Passados 14 anos, ela carrega as cicatrizes desta violência, no corpo e na alma. Acabou entrando para o mundo das drogas, e está cumprindo pena por tráfico. M.(a entrevistada não quer ser identificada) apanhou muito do marido, até o dia em que, bêbado, ele apareceu com uma arma dizendo que a mataria, na frente dos filhos. Ela aproveitou uma distração do companheiro para lhe desferir uma marretada. O homem acabou morrendo. Ela foi condenada por homicídio.

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As duas histórias poderiam ser enredos de filme policial. Ou, pior ainda, de terror. Mas é a vida real, com o que ela tem de pior: a crueldade, no seio da própria família. Ambas foram vítimas de violência doméstica e colocaram suas histórias e seus sentimentos no papel, durante uma atividade proposta pela diretora do Presídio Regional de Tijucas, Danielle Amorim Silva, e pelos professores, que ministram aulas de alfabetização, ensino fundamental e médio para os detentos e detentas da cadeia, que é mista. 

Discutir a questão da violência, dentro de um local como um presídio, pode parecer estranho à primeira vista. Mas o resultado é surpreendente.O setor de educação do presídio de Tijucas desenvolve um projeto chamado Valores e Princípios, como uma tentativa de resgatar valores que os apenados foram perdendo com o passar dos anos. Cada mês um tema entra em discussão na sala de aula: saúde, futuro, drogas, família, homofobia. Em março, mês dedicado à mulher, o assunto em pauta foi violência doméstica. O resultado alcançado superou muito as expectativas. As presidiárias, que têm aulas em salas separadas dos homens, foram encorajadas a falar sobre violência em casa e colocar no papel, em forma de redação, como se sentiam em relação ao tema. Depois, de forma anônima, os professores leram estas redações na ala masculina do presídio e discutiram o tema.

— Deixamos claro para eles que nossa intenção não era fazer uma investigação policial sobre violência doméstica, mas sim mostrar o quanto atos muitas vezes tidos como ¿normais¿ por eles, como gritos, humilhações, xingamentos, além de agressões físicas, podem ferir e magoar suas companheiras — conta a delegada Danielle. 

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Muitos presidiários reconheceram-se como agressores. Segundo a diretora, a maioria das detentas de Tijucas foi vítima de algum tipo de violência doméstica, seja sexual, física, psicológica, ou então presenciou atos desta natureza dentro de casa. Muitas delas nem sabiam que sofriam uma agressão, porque estavam tão acostumadas a serem maltratadas que aquilo já tinha virado uma coisa normal na vida delas. Tratar abertamente da questão da violência dentro de um local como um presídio é, no mínimo, inusitado, porque ninguém que está lá dentro é inocente. Mas projetos como este podem ajudar pelo menos alguns deles a saírem de lá melhores do que chegaram. E isso já será uma vitória

Presídio de Tijucas tem 50 presas Foto: presidio,violencia,mulher,mulheres,detentas,detentos,ala,misto,dia das mulheres / Agencia RBS

Mulheres são abandonadas na cadeia

Danielle Silva tem 34 anos e está à frente do presídio de Tijucas há quatro anos e meio. Há 14 anos é agente penitenciária e sempre trabalhou nas alas masculinas das cadeias. Agora dirige um presídio misto, cuja dinâmica é bem mais complexa, diz ela, já que são duas realidades distintas, a dos presos e das presas, com exigências e demandas bem diferentes.

A primeira constatação de Danielle é a de que a mulher presa sente-se mais abandonada. O preso geralmente pode contar com o suporte familiar. Recebe visita da companheira, da mãe, dos irmãos. A mulher, quando é privada da liberdade, normalmente perde o companheiro, que logo arranja outra. Uma prova: das 50 presas hoje em Tijucas apenas três recebem regularmente a visita dos companheiros. Dos 210 homens, pelo menos 150 podem contar com o apoio e a companhia semanal de suas mulheres, mães e familiares.

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— É preciso fazer este recorte de gênero. A situação é muito diferente. A principal angústia das presas é em relação aos filhos. Elas sofrem uma pena dupla. Uma, pelo que fizeram lá fora. Outra, por terem que deixar os filhos. Por isso precisamos fazer um trabalho diferenciado com as mulheres, conhecê-las melhor, resgatar sua autoestima e mostrar que elas podem sair daqui diferentes e iniciar uma nova vida junto à família. Nenhuma delas é vítima, todas estão pagando pelos crimes que cometeram, e elas admitem isso. Mas muitas têm o desejo sincero de mudar e recomeçar suas vidas — explica a diretora.

Cerca de 75% das mulheres estão presas por tráfico de drogas, e a grande maioria por ser cúmplice de seus companheiros. Muitas gostam do dinheiro fácil da droga, mas eles também não conseguem abandonar seus homens, seja por amor, dependência afetiva ou financeira. ¿Não consigo viver sem ele¿, ¿falta coragem pra abandoná-lo¿, são as justificativas mais comuns.

Existem situações quase surreais, diz Danielle. Está preso em Tijucas um homem que espancava a mulher. Foi enquadrado na Lei Maria da Penha. Poucos dias depois da prisão dele, a mulher (a vítima), apareceu lá para fazer a carteirinha de visitante.

— Isso é triste, pois comprova que mesmo conseguindo colocar o agressor na cadeia, o problema da violência doméstica ainda não estará resolvido, porque muitas vezes a própria vítima mantém uma ligação muito forte com o seu agressor. É difícil romper este vínculo. Por isso, somos ativistas desta causa de empoderamento da mulher presidiária, para que ela reconheça seu valor e se ame acima de tudo. Assim, quem sabe no futuro elas não precisem se envolver com pessoas erradas. Queremos apontar que existem outros caminhos, para que elas saiam daqui com novas oportunidades — comenta a diretora.

A seguir,  depoimento de duas mulheres:

"Metade do meu corpo (incluindo o rosto) foi queimada pelo meu marido, em um ataque de ciúmes" 

Luciana Valladares tem 30 anos e teve o corpo queimado pelo marido aos 16 anos Foto: Marco Favero / Agencia RBS

¿Eu tinha 16 anos, morava no interior de Cascavel, no Paraná. Metade do meu corpo (incluindo o rosto) foi queimada pelo meu marido, de 20 anos, em um ataque de ciúmes. Eu fui com meu irmão a um baile de formatura e meu marido ficou trabalhando na pizzaria da família. Na saída da festa, ele estava lá. Irritado, jogou tinner em mim e depois tacou foto. Me abaixei e tampei os olhos. Mesmo assim queimou muito. 

Fui socorrida pelo Samu e levada para um hospital. Depois, meu pai me transferiu para uma clínica. Fiquei três meses entre a vida e a morte, sem poder me mexer, e anos de tratamento. Eles tiveram que reconstruir minha boca e o nariz. As cicatrizes nunca vão sair. Anos depois meu pai chamou o meu marido (que nunca foi preso) para ajudar ele na lavoura e passou com o trator por cima dele. Foi configurado como acidente de trabalho, mas eu sei que não foi. Meu pai nunca se conformou com o que ele me fez¿. 

Luciana Valladares hoje tem 30 anos. Está presa por tráfico de drogas. Casou com um traficante, que foi preso no Paraná. Então, ela veio para Santa Catarina e continuou no crime, até ser presa. O filho de oito anos do casal mora com os pais do marido. Luciana tem dois irmãos agrônomos que moram no Centro-Oeste, e ela pretende ir para lá cursar Agronomia quando sair da prisão.
¿Quero mudar de vida. Se que acabei nessa porque sempre fui muito revoltada com o que me aconteceu, mas agora entendo que ter raiva não vai me levar a lugar algum, e quero reconstruir minha vida¿, garante. 


"Se eu soubesse disso (que o marido molestava a filha), tinha matado ele muito antes"

 ¿Meu marido era muito agressivo, e sempre dizia que se eu o denunciasse, quando ele saísse da prisão iria matar a mim e meus dois filhos. A coisa piorava todos os dias, até que uma vez ele chegou armado, eu estava com o pequeno no colo. Ele estava bêbado, veio pra cima de mim. Vi meus filhos no desespero. Ele disse que ia me matar com cinco tiros na cabeça, e logo pensei no que seria das crianças se ele cumprisse a ameaça, ou, pior ainda, se uma bala pegasse no pequeno. Esperei ele ir pro quarto, mandei os filhos para outra peça e num momento de distração peguei uma marreta e bati na cabeça dele. Não queria matar, mas aconteceu. 

Fiquei parada lá, chamei a polícia, não fugi, não me escondi, nada. Eu estava consciente do que fiz e do porquê. Minha filha foi levada comigo para a DP, diziam que ela era minha cúmplice, mas não era verdade. Acharam depois lá em casa um caderno dela, onde ela escreveu que o pai a molestava desde os 13 anos. Imagina o que ela sofreu todo aquele tempo, com medo de me contar e ele nos matar. O delegado perguntou se eu sabia disso. Eu disse que não, porque se eu soubesse, tinha matado ele muito antes. Nada é mais sagrado para uma mãe do que seus filhos. Eu sempre fui uma mulher exemplar, trabalhadora, honesta, cuidei bem da minha família, e não podia deixar aquele homem terminar com tudo.¿ 

M. é uma senhora de 52 anos. A filha, adulta, tem a guarda do irmão, hoje adolescente. Ela sempre foi costureira, tem uma pequena facção em casa, e suas máquinas de costura ainda estão lá, à espera de que volte para casa. Foi presa por homicídio, após ficar solta por alguns anos. No júri popular, foi condenada à prisão. Quatro dos sete jurados eram mulheres. Está presa há três anos e sete meses e acredita que até o final do ano começarão as saídas temporárias (regime semi-aberto) . Como trabalha na prisão com costura, terá redução na pena, já que cada três dias de trabalho na cadeia significa um dia a menos no tempo de cadeia.

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