Cao Hering: "O político brasileiro ainda não entendeu sua posição" - Cidades - O Sol Diário

Opinião07/10/2016 | 08h03

Cao Hering: "O político brasileiro ainda não entendeu sua posição"

Nossos eleitos se sentem “chefes” com privilégios acima dos demais cidadãos “comuns”

As eleições de domingo passado deram uma melhorada no cenário político nacional. Glacê renovado. O recheio, no entanto, segue rançoso. O político brasileiro ainda não entendeu sua posição: é um assalariado para representar quem o escolheu. Nossos eleitos, todavia, se sentem “chefes” com privilégios acima dos demais cidadãos “comuns”. Sua arrogância, quando não é explícita, está controlada com sorrisos. É aí que a democracia nos põe à prova, permitindo candidaturas de tipos sem escolaridade ou equilíbrio emocional. Já vi vereadorzinho de arrabalde furando fila no supermercado em nome de sua “otoridade”.

Segunda-feira recebi no WhatsApp a gravação de um desses recém-eleitos prefeitinhos de caixa-prego. Olha só o resumo da estupidez e recalque, aos berros: “Mete a cara com nóis não! Nóis manda nessa cidade agora, rapaiz! Prefeito e vereadô (nome dos eleitos) e assessô do vereadô. Quem manda nessa bosta dessa cidade agora sou eu! Eu que mando nessa desgraça dessa (nome da cidade), quem manda aqui é eu. Vou cabá com tudo aqui agora. Quero vê! Vou dá tapa em cara de delegado, bicudo em puliça, vô xingá a veia, vou desgraçá tudo nessa cidade, quero vê quem põe a cara comigo, rapai! Quem manda nessa desgraça aqui agora é eu!”. Ato contínuo, na mesma postagem mostra o tosco falando fininho, se retratando em vídeo e culpando a “marvada” (com o tapume da Polícia Civil ao fundo...). É, in spiritus, veritas.

Não duvidem, longe dos microfones, Lula, Dilma e outros ressentidos devem ter proporcionado espetáculo semelhante a seus áulicos, só variando na agressão à gramática. No pleito em São Paulo apostei que o almofadinha João Dória teria conduta fora da nossa cadente curva política. Empresário bem forjado, supus conhecer as táticas da elegância nos combates.

Só que não. Terminadas as apurações, Lula o classificou como aventureiro, um Collor, ao que Dória retrucou afirmando ir visitá-lo em algum momento na cadeia em Curitiba. Boa resposta. Curta e objetiva, como cabe a um cachorro morto. Contudo, mal decorridas 48 horas da vitória, Joãozinho de pronto foi para a vala comum. Além de revelar-se autoritário prometendo elevar a velocidade nas marginais – “pode piar, pode reclamar, vai ser adotada” –, na Folha de São Paulo deu sequência a uma desnecessária provocação: levaria chocolate e um cisne para Lula na prisão. Pra quê?
Numa metrópole com tantos pepinos, o escolhido em primeiro turno para o terceiro cargo mais importante do Brasil de saída exibe pouco tato na transição. Sobretudo quando, segundo consta, Haddad se mostra solícito. Nessa toada, o tão alardeado “gestor não-político” acaba se igualando à malta que incendiou o país com o “nós” versus “eles” por 13 anos.

O Bananão não se ajeita tão cedo.

JORNAL DE SANTA CATARINA

 
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