Fabrício Cardoso: "Das coisas que se fazem em pé" - Cidades - O Sol Diário

Crônica18/10/2016 | 08h32

Fabrício Cardoso: "Das coisas que se fazem em pé"

 

O miasma de ureia e ácido úrico adormecidos entrou pelas narinas em estado sólido. Apesar de zonzo, me lembrei das aulas de ciências na escola. Acabara de experimentar pela mucosa, no transcorrer de uma despretensiosa caminhada pelo bairro, uma autêntica sublimação. Tive ímpetos de praguejar contra esses homens que, fazendo uso de facilidades anatômicas e desprovidos do rigor moral feminino, aliviam urgências por aí, de pé, por vezes nem se dar ao trabalho de escamotear as partes pudendas.

Estava em vias de desfiar um rosário de xingamentos mentais quando, retendo o olhar pelo terreno sorrateiramente umidificado, notei algo que mudou o curso dos meus pensamentos. A área atingida ficava perto de uma parada de ônibus. Era domingo. Bem, não é preciso sequer ser usuário do transporte público para deduzir que o corpo humano precisaria de duas bexigas, quiçá três, para suportar a espera entre um horário e outro em dias inúteis à luz do capitalismo.

Ok, as meninas são submetidas a idêntico massacre e não socializam subprodutos renais. É verdade. Há um desvio ético gravíssimo da parte de quem se esvazia em espaços públicos. Certas cidades preveem inclusive multa para delitos fisiológicos desta natureza. Porém, a qualidade do serviço prestado pelas concessionárias do transporte coletivo oferece um atenuante aos incontidos. Se quiséssemos de fato preservar narinas alheias, uma campanha civilizatória para a contenção de comportamentos animais não bastaria. Seria necessário também melhorar a regularidade dos ônibus. Nas quadras que se seguiram à agressão nasal, refleti sobre a impropriedade das nossas primeiras reações. É fundamental digerirmos informações e evidências num coquetel de pensamentos, que só dá liga quando dispensamos atenção — justamente o artigo mais raro neste mundo de estímulos frenéticos e pressas inventadas. O desinteresse pelo outro pode matar.

Não quero abrir nenhuma cruzada classista, até porque não consigo ser ingrato. Se até aqui cheguei, segundo o IBGE para lá da metade da vida, devo muito ao tempo e à ciência deles. Mas justamente por ter nascido há três anos, levando em conta a fábula cretina de que a vida começa aos 40, tenho visitado médicos com regularidade crescente. E saio carente dos consultórios, tamanha a indiferença que desperto nos doutores.

Sobre as razões da impaciência da turma do jaleco, só posso especular. Sou segurado de plano de saúde e, apesar de me cobrar mensalidades com apetite, a operadora não parece pagar o suficiente para que o médico pelo menos finja interesse por mim. Mas esta é apenas uma desconfiança. Também creio, a partir de uma sociologia de mesa de bar, que a faculdade de Medicina custa tanto em tempo e dinheiro que a maioria dos formados vem de extratos sociais onde o sujeito passa décadas sendo cuidado. É por amor, eu sei, também trato meus filhos assim. Mas não posso negar que o efeito colateral disto é a dificuldade de esmaecer o ego para se colocar no lugar do outro.

Como não tenho pendores para a hipocondria, a ponto de fazer relatórios de visita a médicos, recorro a um cálculo aproximado, alicerçado na memória. Nas últimas cinco consultas, fracassei no propósito de passar mais de 10 minutos com um deles. Alguns se sentiram à vontade para avaliar meus exames sem nem sentar, canalizando o esforço capaz de clarear um diagnóstico para me transferir a outro colega. Mas sou teimoso. Até o final do ano, seguirei enfrentando os dissabores da meia-idade sem indicação de tratamento, mas com o privilégio de ter somado assombrosos 60 minutos da atenção de uma banca de versados na arte de Hipócrates. Apenas rogo não ser recebido de pé mais uma vez. Os homens incontidos das paradas de ônibus nos dão elementos para acreditar que coisas feitas assim cheiram mal.

Saio carente dos consultórios tamanha a indiferença que desperto nos doutores.

JORNAL DE SANTA CATARINA

 
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