Câncer de próstata: médicos e entidades discordam sobre quando fazer exames de toque e PSA  - Cidades - O Sol Diário

Polêmica azul24/11/2016 | 03h05Atualizada em 24/11/2016 | 09h12

Câncer de próstata: médicos e entidades discordam sobre quando fazer exames de toque e PSA 

De um lado, entidades médicas defendem que exames devem ser feitos com o aparecimento dos sintomas. De outro, urologistas argumentam que doença é silenciosa e diagnóstico precoce é fundamental

No mês de conscientização sobre doenças masculinas, com ênfase no câncer de próstata, a discussão sobre a importância do diagnóstico precoce e de exames de prevenção voltam à tona. Porém sociedades médicas e entidades têm se dividido sobre a orientação de realizar exames de dosagem de Antígeno Prostático Específico (PSA, sigla em inglês) e toque retal como testes de rotina. 

A discussão ganhou corpo com a recomendação da U.S. Preventive Services Task Force, dos Estados Unidos, contra a realização desses exames. A orientação foi feita com base em um estudo que apontou que os exames precoces não diminuem a mortalidade entre os pacientes. Os resultados dessa pesquisa, porém, são questionados por especialistas. 

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) e o Ministério da Saúde questionam a prática e argumentam que os exames de prevenção trazem danos à saúde, tratamentos e sequelas desnecessários. Eles orientam que os pacientes esperem aparecer o sintomas para fazer os exames. Já os urologistas, médicos especialistas na área, argumentam que essa orientação é uma atitude inconsequente. Eles defendem que o câncer de próstata é uma doença silenciosa e os primeiros sintomas aparecem em estágio avançado. Por isso, mantêm a orientação de que homens a partir de 50 anos procurem um profissional especializado para avaliação individualizada e realização de exames anualmente. Aqueles da raça negra ou com parentes de primeiro grau com câncer de próstata devem começar aos 45 anos. O mais importante, reforçado pelos dois lados, é que homens fiquem atentos a sua saúde e se consultem regularmente.

CONTRA

As entidades e sociedades médicas contrárias aos exames de prevenção ao câncer de próstata em casos onde não há sintomas, afirmam que os testes podem trazer danos à saúde dos pacientes, tratamentos e sequelas desnecessárias. O chefe do serviço de Urologia do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), Franz Campos, afirma que o PSA e toque retal como método de rastreamento do câncer de próstata têm sido estudados no mundo:

— Os resultados destes estudos, porém, não aconselham sua utilização como método de rastreamento populacional, uma vez que esse benefício seria muito pequeno e acompanhado de importantes danos à saúde de grande parte destes dos homens.O especialista admite que a prática permite detectar o câncer logo no início, o que pode aumentar a chance de sucesso no tratamento, porém argumenta que traz alguns riscos. Os principais seriam ter o resultado alterado sem ser câncer, o que ¿gera ansiedade e estresse¿; além de exame ter resultado normal na presença do câncer. 

— Esse erro pode gerar falsa segurança ao homem e fazer com que ele não dê atenção aos sintomas que surgirem. Além disso, o homem pode ser diagnosticado e tratado de um câncer que não evoluiria e não ameaçaria a vida. 
Campos  defende que o tratamento desse tipo de câncer pode causar complicações como impotência sexual, incontinência urinária e problemas no intestino. Por isso, a importância de se ter certeza do diagnóstico antes de se iniciar o processo.

Em nota, o Ministério da Saúde recomenda que os homens mantenham a regularidade das consultas e, com relação aos exames de identificação, a prescrição seja feita a partir da suspeita de um caso, com a presença de sinais e sintomas. ¿Entre 2014 e 2015, houve um aumento de 2,1% em procedimentos relacionados ao diagnóstico do câncer de próstata, passando de 5,39 milhões para 5,51 milhões. Até agosto de 2016, já foram 3,5 milhões de procedimentos¿, ressalta a pasta. O Ministério da Saúde defende que esse tipo de câncer é passível de diagnóstico precoce mediante avaliação e encaminhamento oportunos após os primeiros sinais e sintomas. A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade considera que os "homens, de fato, precisam dar e receber mais atenção à sua saúde, mas as evidências científicas mais recentes deixam claro que isso não deve ser feito através da dosagem do PSA ou da realização de toque retal em pessoas que não apresentam qualquer sintoma".

A FAVOR

Os médicos urologistas reforçam que o câncer de próstata é uma doença silenciosa, porém com altas chances de cura, desde que diagnosticada precocemente. E os testes de dosagem de PSA e toque retal em conjunto são fundamentais para o diagnóstico neste cenário. O médico urologista do Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon) Aguinel José Bastian Júnior é enfático e considera um absurdo orientar esperar os sintomas para realizar os testes:

Se deixar para fazer os exames quando aparecer os primeiros sintomas com certeza será tarde, pois eles só aparecem quando o tumor estiver, no mínimo, localmente avançado. Não basta apenas verificar o PSA, é fundamental fazer o toque retal. 

— Tem alguns tumores que alteram pouco o PSA e esses tumores, que são os mais agressivos, só são percebidos com o toque. 20% de todos os cânceres só são diagnosticados por esse exame — defende. 

Para Júnior, não restam dúvidas: a prevenção mais importante para a doença são esses exames, que ¿são muito simples¿ e evitam gastos futuros com metástases, por exemplo. O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia em SC, Luis Felipe Piovesan, reforça a importância dos exames e defende a necessidade de uma análise individualizada. 

A gente deve chegar no meio-termo. Vamos oferecer a prevenção para aqueles pacientes que tenham algum benefício com isso, principalmente homens entre 50 e 70 anos. Vamos diagnosticar e vamos oferecer tratamento para quem efetivamente precisar ser tratado, que não é todo mundo, de forma alguma. 

Piovesan rebate veementemente a espera pelos sintomas. 

— No Brasil a gente tem uma incidência alta, principalmente no Sul. A cada 40 minutos um homem morre de câncer de próstata no país, então não dá para ser irresponsável e leviano e esperar os sintomas — defende. 

Em nota, a Sociedade Brasileira de Urologia afirma que "atualmente, cerca de 20% dos pacientes portadores de câncer de próstata ainda são diagnosticados em estágios avançados, embora um declínio importante tenha ocorrido nas últimas décadas em decorrência, principalmente, de políticas de rastreamento da doença e maior conscientização da população. O rastreamento universal de toda população masculina não parece ser a melhor abordagem. A identificação de pacientes com alto risco de desenvolverem a doença de uma forma mais agressiva através de parâmetros clínicos ou laboratoriais pode ajudar a individualizar a indicação e frequência do rastreamento. Entre diversos fatores, a idade, a raça e a história familiar apresentam-se como os mais importantes".


 
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