Chapecoense, o orgulho de uma região - Cidades - O Sol Diário

Cidade de luto29/11/2016 | 20h26Atualizada em 29/11/2016 | 20h27

Chapecoense, o orgulho de uma região

História do clube que emocionou o mundo do futebol nesta quarta-feira é grande e deve continuar

darci debona


A terra dos frigoríficos que exportam para mais de 100 países também virou a terra do futebol graças à Chapecoense. O time criado em 10 de maio de 1973 numa conversa de amigos na Avenida Getúlio Vargas, com o objetivo de disputar campeonatos regionais, conquistou o primeiro estadual quatro anos depois, comandada pelo volante Janga.

Aquele time verde e branco, cores da bandeira de Chapecó, tinha tudo para dar certo. Agradava gremistas e colorados vindos do Rio Grande do Sul. E se tornaria o clube de toda uma região.

Em 1978 participou pela primeira vez do Campeonato Brasileiro em campanha mediana. Teve até construção da Ala Oeste do Estádio e manobra estatística para elevar a população da cidade para mais de 100 mil pessoas, exigência da época. No ano seguinte uma participação medíocre. Mas a história estava apenas começando.

O timaço de Paulo Rink em 95 ficou com o vice-campeonato. Mas o time de Maringá e Índio, de 1996, levou a segunda taça da história. Naquele ano teve o episódio do foguetório, que virou folclore e faixa na Arena Condá.

Depois disso foram anos de vacas magras. De clássico contra o Atlético Chapecó para não precisar disputar a Segundona. Houve até uma fusão com o Kindermann, de Caçador.

Em 2005 cogitou-se até o fechamento do clube, que devia mais de R$ 1 milhão, o que parece pouco hoje mas na época era muita coisa. Houve uma mobilização de lideranças da cidade para que o clube não fechasse. O empresário Edir de Marco assumiu a bronca e foi de presidente.

Em maio de 2006 chegou um tal goleiro Nivaldo, vindo do Rio Grande do Sul, trazido pelo técnico Guilherme Macuglia. No final do ano, já veio uma taça, a Copa Santa Catarina. Sob o do técnico Agenor Piccinin o time foi campeão Catarinense em 2007, com 19 jogos sem perder.  Isso com uma folha entre R$ 60 mil e R$ 70 mil mensais. Isso que na final, em Criciúma, esteve duas vezes atrás no marcador e conseguiu empatar, com um jogador a menos. Foi o ano da virada do clube. Aquela campanha história conquistou centenas de torcedores

Iniciava uma nova era no clube.  No ano seguinte a primeira participação na Copa do Brasil, eliminando o Guarani e enfrentando o Internacional com a base do time campeão Mundial Interclubes. Foi um jogo de lotar o estádio, que ainda era o Regional Índio Condá.

A renda daquele jogo deu fôlego para montar o time vice-campeão de 2009, com Thoni, Badé e Bruno Cazarine. Tinha também um volante voluntarioso, Cadu Gaúcho, que no ano seguinte se tornaria dirigente por um desgaste ósseo que o fez pendurar as chuteiras.

Ainda em 2009 houve a conquista da vaga para a inédita Série C, entre os 60 melhores do Brasil. Teve viagem de 26 horas de ônibus para o Alto Araguaia-MT e jogo de volta com temporal e granizo no jogo que garantiu a vaga. No ano seguinte, um ponto fora da curva com o quase rebaixamento, salvo pela desistência do Atlético Hermann Aichinger.

Em 2011 Sandro Pallaoro assumiu a Chapecoense. O time comandado por Mauro Ovelha contava com um atacante que estava em baixa no Caxias mas que brilhou no Catarinense, com 14 gols. Teve um jogo da final do returno em que o Avaí abriu 2 a 0 no primeiro tempo e a Chapecoense buscou o empate.

No ano seguinte, já sob o comando de Gilmar Dal Pozzo e com a chegada de Rodrigo Gral, a Chapecoense conquistou a vaga na Série B em dois jogos contra o Luverdense. O time estava entre os 40 melhores do Brasil. Nesse momento a Chapecoense já era a Embaixadora de Chapecó no Brasil.

O plano era ficar três ou quatro anos na Série B para tentar subir para a Série A. Mas o time surpreendeu vencendo oito e empatando duas partidas nas primeiras dez. Com um Bruno Rangel empilhando gols, foram 31 no total, se tornou o maior artilheiro da história da Série B e garantiu o vice-campeonato e a vaga na Série A.

A Chapecoense se tornava o orgulho de toda uma região. O sucesso do clube representava o sucesso dos moradores do Oeste.

O desafio era a Série A. A política de não gastar mais do que arrecadava seria posta à prova. O time perdeu jogadores na concorrência com ofertas mais polpudas de salários. A Chapecoense era o patinho feio da elite. Quando o técnico dos acessos, Gilmar Dal Pozzo, foi demitido, cerca de dez técnicos foram cogitados. Ninguém quis assumir. Celso Rodrigues interinamente e tirou o time da zona de rebaixamento. Aí veio o técnico Jorginho que mandou o time para cima.

Não respeitou o Internacional de D¿Alessandro, meteu 5 a 0 no colorado e aposentou Dida. Foi o primeiro ¿estouro¿ da Chapecoense nas redes sociais. O time verde e branco começava a chamar a atenção do Brasil.

O clube propiciava a torcedores de toda a região ver a poucos metros de distância jogadores como Fred, que estava na Copa do Mundo. Mas o time continuou com risco de rebaixamento. O grande resultado para ficar na Série A foi um 4 a 1 em cima do Fluminense, no Rio.

No segundo ano, com mais experiência, a Chapecoense já conseguiu garantir a vaga com um pouco mais de folga, em jogos memoráveis do mito Apodi. Teve até um 5 a 1 sobre o Palmeiras. Os memes nas redes sociais dispararam.

Em 2015 pela primeira vez disputou uma competição internacional, a Copa Sul-Americana. Eliminou Ponte Preta e Libertad nos pênaltis.

Depois encarou o então campeão da Libertadores, o River Plate. Teve gente que encarou dois dias de ônibus sem tomar banho para ver a partida, em Buenos Aires. Perdeu o primeiro jogo por 3 a 1, na Argentina, mas no jogo de volta venceu por 2 a 1, com direito a bola na trave dos argentinos. Foi um dos melhores jogos da Arena Condá.

O ano de 2016 estava reservado para muitas emoções.  Montou o time favorito ao Catarinense e confirmou isso com o título estadual, com o maestro Cleber Santana comandando o time de Guto Ferreira.

No Brasileirão, primeiro com Guto e depois com Caio Jr, fez sua melhor campanha da história com 52 pontos.  Mas nada perto da campanha da Sul-Americana. Primeiro virou um jogo que perdia por 1 a 0 para o Cuiabá, fazendo 3 a 1 em 25 minutos.

Depois eliminou o maior vencedor de Libertadores, sete, o Independiente, em dois jogos sem gols. O goleiro Danilo brilhou ao pegar quatro das oito cobranças de pênalti. Era muito bom torcer para esse time.

O próximo passou foi o Junior Barranquilla. Viagem demorada de um dia para Barranquilla e derrota por 1 a 0, que foi revertida com um 3 a 0 na Arena Condá, debaixo de chuva e muita festa. Não tinha mau tempo para acompanhar esse time.

Na semifinais, o embate era contra o San Lorenzo, o time do Papa Francisco, campeão da Libertadores de 2014. Estava comum ir para a Argentina. A Chapecoense começava a ser respeitada na América e conseguiu um empate por 1 a 1 na Argentina. O resultado encheu de euforia.

O time do preparador físico Anderson Paixão, que há dois anos era auxiliar na seleção brasileira, estava voando. Novo empate na Arena Condá, com mais de 17,5 mil torcedores, garantiu vaga inédita na final.

O grito de ¿vamo, vamo , Chape¿ saiu das arquibancadas e entrou no vestiário. Escrevi que a alegria não cabia no estádio.

A Chapecoense estava na final da Copa Sul-Americana, onde nenhum time catarinense havia chegado. O clube dominava o noticiário nacional. Em qualquer canal de televisão os programas esportivos falavam da Chapecoense. O vice-presidente do clube, Mauro Stumpf, chegou a dizer que o clube vivia um momento mágico.

Um professor da Unochapecó, o psicólogo Roberto Deitos, chegou a dar entrevista para o repórter Giovani Klein, da RBS, dizendo que Chapecó era mais alegre, mais feliz, por causa da Chapecoense.

Mas a alegria intensa virou pesadelo, segundo o roupeiro Jorge Andrade. Provavelmente a cidade nunca esteve tão triste.  Tristeza que se espalhou pelo mundo. O verde chegou a decorar o lendário estádio de Wembley, na Inglaterra.

O momento é difícil. Mas a Chapecoense não acabou. Pois tem uma faixa no estádio que diz ¿somos mais que onze¿. E um clube com essa torcida e tão querido no Brasil não pode desmoronar. O amor vence a dor.

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