"Existe uma propaganda anti-psiquiátrica que não existe em nenhum outro ramo da medicina" - Cidades - O Sol Diário

Saúde mental17/11/2016 | 13h16Atualizada em 17/11/2016 | 15h43

"Existe uma propaganda anti-psiquiátrica que não existe em nenhum outro ramo da medicina"

A presidente da Associação Americana de Psiquiatria, Maria Oquendo, abordou os desafios da área em congresso em São Paulo

"Existe uma propaganda anti-psiquiátrica que não existe em nenhum outro ramo da medicina" ABP/Divulgação
Oquendo falou sobre como o estigma das doenças mentais está enraizado nas sociedades Foto: ABP / Divulgação

Em palestra no XXXIV Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em São Paulo, a presidente da Associação Americana de Psiquiatria, Maria Oquendo, abordou os desafios desse ramo da medicina para os próximos anos, que incluem falta de profissionais, infraestrutura e estigmatização. 

A vice-presidente da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, defende que apesar dos transtornos mentais terem uma carga muito grande na população e consequências graves, os países ainda não se dedicam a estudar e pesquisar profundamente o tema, além de não investir em políticas nacionais. Outro desafio apontado pela especialista é a estigmatização desse ramo da medicina. Ela cita o exemplo de Moçambique, país onde a pessoa que tem diagnóstico de transtorno mental perde o direito legal de se casar. 

— Isso mostra como o estigma está enraizado. No país com 24 milhões de habitantes, tem apenas 13 psiquiatras e 250 psicólogos.

Maria acrescenta que o país africano, aos poucos, está implantando uma metodologia que capacitar agentes comunitários de saúde para fazer psicoterapia e ministrar psicofármacos. Para ela, apesar da resistência dos psiquiatras e outros profissionais, esse modelo deveria ser adotado em outros países, como Brasil, já que há falta de especialistas e infraestrutura. Confira a entrevista dela ao Diário Catarinense:

Nos próximos anos, qual a doença mental que deve preocupar mais os especialistas?
A depressão é a doença mental que causa maior carga de incapacidade a nível mundial. Principalmente quando afeta a mãe, que também causa efeitos negativos nos filhos, criando uma cadeia de dificuldades emocionais. Porém, sabemos que, ao tratar a mãe deprimida, isso causa a melhora da mãe e do estado emocional dos seus filhos. 

Muitos relacionam doenças mentais a países desenvolvidos ou pessoas mais ricas. Isso está mudando?
Primeiro, é importante ressaltar que as doenças mentais afetam a todas as classes sociais. Me parece interessante que se diga isso, porque os economistas defendem que a pobreza causa doenças mentais, principalmente a depressão e ansiedade. Mas não é assim. As taxas de transtornos mentais não variam de acordo com o salário. Não discriminam. 

Quais são os principais desafios da psiquiatria nos próximos anos, para países como Brasil?
O maior desafio é prover cuidado psiquiátrico a todos que necessitam. Não tem número de médicos suficientes, nem psicólogos. Temos que treinar a outros tipos de profissionais da saúde para ajudar com esse trabalho tão importante. Isso não só no Brasil, mas na Europa e na América do Norte. 

Por que, ainda que seja comprovadas as consequências, as doenças mentais ainda são estigmatizadas?
Por vários motivos. Primeiro, ainda não temos provas biológicas que possam comprová-la, diagnosticá-la. Segundo, os transtornos mentais afetam a forma de pensa e a forma de comportamento. E muitas pessoas não conseguem distinguir o que é um sintoma do que é a "forma de ser¿ de uma pessoa. Terceiro, existe uma propaganda anti-psiquiátrica muito importante. Isso não existe em nenhum outro ramo da medicina. Por exemplo, no existe um movimento anti-dermatologia.

*A repórter viajou a convite da Associação Brasileira de Psiquiatria

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