Formação é caminho para evitar acidentes na pesca - Cidades - O Sol Diário

Educação21/11/2016 | 10h32Atualizada em 21/11/2016 | 11h05

Formação é caminho para evitar acidentes na pesca

Em vídeo, pescador relata como curso profissionalizante o ajudou a sobreviver a naufrágio

Formação é caminho para evitar acidentes na pesca Lucas Correia/Agencia RBS
Foto: Lucas Correia / Agencia RBS

A lei exige que pescadores profissionais, empregados na pesca artesanal ou industrial, passem por um curso de formação. As disciplinas incluem segurança, primeiros socorros, navegação, combate a incêndio e noções sobre o funcionamento dos motores. A obrigatoriedade, entretanto, não é suficiente para coibir a grande quantidade de pescadores que trabalha de maneira irregular.

_ Ainda é comum a gente encontrar nas nossas saídas a campo muitos pescadores trabalhando sem a caderneta de inscrição e registro, a popular carteira da Marinha. Metade das pessoas que procuram o IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina em Itajaí) para realizar o curso já são pescadores _ diz Benjamim Teixeira, coordenador do Núcleo de Pesquisa Aplicada em Pesca e Aquicultura da instituição.

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O IFSC oferece gratuitamente cursos para pescadores através de um acordo de cooperação técnica com a Marinha. Desde 2014, 400 trabalhadores se formaram nos cursos de pescador profissional ou especializado. Uma das exigências para frequentar as aulas é passar por um teste de aptidão física, em que todos os candidatos precisam nadar por 25 metros e boiar por 10 minutos.

A importância da formação fica clara no depoimento do pescador Elias da Silva, sobrevivente do naufrágio do atuneiro Jorge Seiff Junior, em 20 de outubro, colhido em vídeo pelo IFSC Itajaí. Ele relata que, embora houvesse coletes salva-vidas suficientes a bordo, a maioria dos pescadores no barco não sabia como colocar o equipamento:

_ Lembrei da aula e a primeira coisa que eu fiz foi colocar o colete e acionar o SOS. Joguei a pilha de coletes para os outros, tinha alguns que nem sabiam como colocar. Essas aulas salvaram minha vida e eu estou aqui para contar a história _ relatou.


Não é exagero. Apesar do alto risco do trabalho, muitos pescadores têm pouca familiaridade com os equipamentos de segurança e a um grande número sequer sabe nadar.

Há um esforço para manter e ampliar o modelo do IFSC Itajaí, que tem se mostrado funcional. Coordenador técnico do Sindicato dos Trabalhadores e da Indústria da Pesca de Itajaí e Região (Sindipi), Marco Aurélio Bailon diz que há uma preocupação com a manutenção dos cursos de formação após o desmanche do Ministério da Pesca.

_ A extinção do Ministério provocou a interrupção de uma série de trabalhos que vinham sendo conduzidos e que atendiam principalmente à formação profissional, à sanidade pesqueira e a várias outras ações na questão da gestão, pesquisa e estatística. Na minha visão o atual quadro é preocupante.


ENTREVISTA

Marco Aurélio Bailon - Sindipi

Como o sindicato avalia esses acidentes?
Não paramos ainda para fazer analise. Não é normal, especialmente naufrágio. Em relação aos acidentes pessoais, é uma atividade de risco como qualquer outra, construção civil, trânsito. A pesca tem especificidade maior, talvez seja menos comum.

As condições de segurança são adequadas?
O grande problema da atividade pesqueira é a ausência de uma melhor formação para o nosso pescador. Por muito tempo não formamos gente, com exceção do IFSC em Itajaí nos últimos 3 anos. Foi feito um trabalho intenso com grupo de estudos no antigo Ministério da Pesca, para que os cursos fossem acreditados pela Marinha. O único que surtiu efeito foi o nosso.

 O que causou o aumento no número de mortes?
Tivemos um ano atípico, e o setor pesqueiro está necessitando de uma atualização total em termos de recursos humanos. A reposição de novos pescadores deve ser estimulada com maior apoio às ações de formação profissional, principalmente nos quesitos de primeiros socorros, salvaguarda da vida humana no mar e prevenção.

 Os salários compensam o risco na pesca?
Existe, em função dessas deficiências, muita insegurança jurídica. Muita regulamentação que tem que ser revista, o que inibe os investimentos e reduz a produtividade.

 O que fazer para prevenir acidentes?
As embarcações autorizadas têm estrutura suficiente pra aguentar um mar 3, 4 (nível de ondulação). O mau tempo pode inibir a pesca, mas não coloca em risco a navegação. Esses registros são detectados e passados pela a Marinha, existem mecanismos de prevenção. Normalmente quando há acidentes a bordo é sem vítimas fatais. Mas quando há, existe repercussão. Casos como o do atuneiro (naufragado em Imbituba) acendem a luz amarela, o sindicato se preocupa. São situações muito traumáticas.

 
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