Encontro emocionante reúne seis pessoas de SC que compartilharam a mesma história sem saber em 2016 - Cidades - O Sol Diário

Reflexão para o novo ano31/12/2016 | 06h51Atualizada em 31/12/2016 | 12h04

Encontro emocionante reúne seis pessoas de SC que compartilharam a mesma história sem saber em 2016

Histórias revelam a generosidade e inspiram a fazer a diferença em 2017

Encontro emocionante reúne seis pessoas de SC que compartilharam a mesma história sem saber em 2016 Charles Guerra/Agencia RBS
Catarinenses foram convidados a trocar cartas com desconhecidos Foto: Charles Guerra / Agencia RBS
RBS TV e Gabriela Machado

gabriela.machado@rbstv.com.br

Convidamos seis pessoas a escrever para um desconhecido, contando sobre o ano que termina. Elas nem imaginavam que marcaram a vida umas das outras e que foram escolhidas para uma pegadinha do bem: a carta de uma seguiria para as mãos daquela impactada por uma boa ação anônima. 

Separadas por um tapume enquanto liam, nem imaginavam que o remetente estava logo ao lado. As histórias a seguir revelam a generosidade entre essas duplas e inspiram a fazer a diferença em 2017.

Léo é destes caras bonachões. Faz a gente se sentir à vontade no apartamento de revista, impecável. É uma das conquistas do trabalho na empresa de transporte de passageiros. Portas-retratos dos filhos – já adultos – decoram a casa e ajudam a matar a saudade. O filho ainda estuda e a filha trabalha no exterior.

– Estou louco para ser avô – vibra, sem esforço para esconder o que é apenas vontade, por enquanto.

Alcança sem frescura copos comemorativos aos 30 anos de casado com Cristina:

– Aceitam uma água?

A poucos minutos de distância do apartamento confortável, uma menina sorridente mal espera as visitas pisarem em casa para perguntar com pose precoce para os 12 anos de idade:

– Vocês gostariam de um refrigerante para beber?

Uma boa pedida para quem sobe os degraus até o topo do morro. É no último casebre de madeira que Osmar cria a menina e os outros dois filhos. Ele se separou da mãe das crianças e casou de novo. De puxado em puxado, deu um jeito de construir um quarto com televisão para cada um. 

Cantinhos minúsculos de madeira, separados por tecidos e recheados de roupas, brinquedos, posters e materiais escolares. Móveis de estilos diferentes e eletrodomésticos enferrujados formam a cozinha-sala. 

Mas é o quarto de Osmar, lá no sótão, que vira o ponto de encontro da família para assistir à novela e fazer as tarefas do colégio. Dia desses, a criançada pegou as canetinhas e escreveu um cartaz para o pai carregar na rua, pedindo emprego.

– Meu maior sonho é trabalhar porque está muito difícil morar no morro. Este ano foi muito difícil, mas tenho fé em Deus que vai melhorar – acredita Osmar, que sai de casa rigorosamente às 18h30min para fazer bico de flanelinha.

O filho mais velho desemperra a janela e dá sentido ao nome da rua. A Servidão Visual certamente ostenta uma das vistas mais bonitas de Florianópolis.

Destinos se cruzaram no anonimato

Do alto do prédio no centro da cidade, Léo vê apenas os carros e tenta desvendar o piano. Cozinhar com Cristina é outro hobby. Mas ele pensa além da própria mesa e doa cestas básicas sempre que uma instituição voluntária de Florianópolis pede socorro:

– Temos que caminhar na direção do bem. A presença do outro em nossa vida faz toda a diferença. Especialmente o desfavorecido, sem oportunidade, sem esperança.

Mal sabia Léo a diferença que faz na vida do outro. A cesta básica doada vai para Osmar saciar a fome dos filhos todos os meses. É tudo o que a família tem nos armários.

Quando terminaram de conhecer a história um do outro nas cartas – que a reportagem pediu que escrevessem para um destinatário desconhecido –, os olhos de Osmar brilharam, pressentindo uma revelação. Recebeu um largo sorriso de Léo. Logo sacaram ter lido o que o outro escreveu.

– As palavras mostram o caráter que ele tem...

O empresário mal começou o discurso e Osmar caiu no choro feito criança. Léo continuou com a empatia de quem conhece a realidade das comunidades mais pobres:

– ...De não ter trabalho nem faculdade para criar os filhos, mas ter aquilo que é mais importante na vida de um homem: querer vencer.

– Pra mim faz uma boa diferença. Porque às vezes tem, às vezes não tem. Agradeço muito quem faz alguma coisa por mim e pela minha família. Muito obrigado, que nunca deixem faltar nada pro senhor – agradeceu Osmar estendendo a mão e erguendo a cabeça.

Foi a vez de Léo desabar. Antes da despedida, ele prometeu a Osmar olhar com carinho para as vagas disponíveis na empresa.

Maria abre o portão um tanto sem jeito e sorrindo de uma orelha a outra. Era o dia mais quente do ano até então. Nem o suor – que ela se esforça para disfarçar, pressionando as pontas dos dedos no rosto – abafa o cheiro agradável de creme hidratante. Antes de chegar ao sobrado, nos fundos, em Jurerê, já entrega o cacoete de deslizar as mãos pela franja. Uma passada rápida pra esquerda, outra pra direita. Sobe as escadas, sossegada.

– Ó, aqui é simples, mas muito tranquilo, viu? – justifica-se, sorrindo.

Só se ouve o café passando e a anfitriã cantarolando, enquanto acomoda as xícaras de visita.

No outro lado da cidade, um ¿trimmm¿ ecoa alto, no corredor do agitado centro comercial. Marina dispensa cerimônia. 

– Vamos entrando, que hoje o dia está cheio – convoca, enquanto caminha para o escritório. 

Ela rouba a cena. Bonitona, salto alto e cabelão digno de garota-propaganda do próprio negócio. Marina abriu uma empresa de apliques e perucas há 10 anos. Vai de vento em popa! Dos tradicionais loiros e castanhos aos estilosos coloridos e black powers: é ali que o freguês escolhe a cabeleira dos sonhos.

Já Maria paga um aluguel camarada para morar. O dono do sobrado abriu mão de mais da metade do valor quando ela adoeceu. O câncer de mama atacou em fevereiro e foi derrotado com cirurgia e 11 sessões de quimioterapia.
Caroline ajudou a segurar as pontas servindo até comida na boca.

Ela é a única filha de Maria. Treze anos, mas com jeito de mais moça. Vez ou outra, questiona como os planos dela e da mãe caberão na minguada aposentadoria. O câncer afastou a auxiliar de serviços gerais do trabalho, mas aproximou do restante da família. Pais e irmãos trouxeram da Bahia um abraço esperado há quatro anos, desde que a dupla veio tentar a vida em Florianópolis.

Mimar ainda mais a família e os amigos virou um desafio – cumprido – na agenda apertada de Marina em 2016. Ela também se dedicou a desconhecidos. Transformou cabelos doados e generosidade em perucas.

– Cada uma é confeccionada com tanto carinho e energia positiva que leva parte da cura por meio da autoestima para pacientes com câncer do Cepon [Centro de Pesquisas Oncológicas, em Florianópolis] – explica a empresária, com nó na garganta.

Presente feito com carinho e recebido na hora certa

Num dos tantos dias de consulta por lá, Maria arriscou novo visual. Provou uma, duas, três perucas. Aquele tom castanho até o ombro caiu ainda melhor do que as mechas levadas pela quimioterapia.

– Me sinto bonita com cabelo. Sem o cabelo, sinto desconforto – alega, meio sem-jeito, justificando uma escolha incomum entre os pacientes, já que a maioria prefere amarrar um lenço à cabeça.

Maria saiu faceira do Cepon naquele dia. Guardou o lenço na bolsa e puxou o celular para uma selfie.

Marina leu a história de Maria com ternura e um sorriso leve. Maria leu a história de Marina sem esboçar expressão, praticamente imóvel. A surpresa de encarar a outra pareceu um gatilho para soltar a emoção das palavras recém-lidas. Marina reconheceu a peruca na hora, deixou cair o queixo e acariciou os fios de cabelo que moldou com tanto carinho. Olharam fundo uma para a outra por vários segundos. Se abraçaram forte e choraram mais, mais e mais.

– No dia a dia, a gente faz ações que a gente não tem nem ideia do reflexo que podem causar na vida da outra – dividiu Marina, quase se recuperando do encontro.

– Muito importante saber que tem alguém que luta pela gente. 

A gente nunca está sozinho. Eu cuido da peruca com carinho para que, quando eu devolver, outras pessoas possam usar – confidencia Maria.

O sargento Nildo age com o rigor dos ensinamentos militares dos Bombeiros. Separa papéis metodicamente, organiza equipamentos e leva a conversa na base do preto-no-branco. 

Milton prefere deixar a esposa falar por ele e observar a casa agitada na retaguarda. Um falso durão e um falso tímido. Falar da família entrega os disfarces da dupla, que se viu uma única vez, mas talvez nem sequer se reconheceriam ao cruzar a mesma calçada.

– Parece que fui contemplado com a graça de Deus. Tenho um filho muito carinhoso e uma esposa fantástica com quem compartilhar todos os momentos. Meu objetivo para o novo ano é me dedicar ao meu filho, mostrar o rumo, porque ele depende de mim – planeja emocionado o sargento, prestes a se aposentar com 30 anos de serviço.

Milton também enche os olhos de lágrimas ao falar da esposa parceira. A convivência familiar é uma bênção que ele faz questão de regar todos os dias, tal e qual as plantas dos jardins da universidade onde trabalha.

Nildo e Milton amam o mar. Um mergulha para salvar vidas; o outro pesca para se divertir. Uma das pescarias deste ano ainda faz Milton carregar muleta. Uma serpente picou o pé esquerdo justo no dia em que ele dispensou as botas de borracha na trilha de volta.

– Ela era muito grande, fiquei apavorado e saí correndo atrás de alguém que tivesse soro – recorda.

Socorro quando tudo conspirava contra

O sogro do filho e único parceiro de pescaria chamou o resgate. Os bombeiros costumam chegar a ocorrências desse tipo com o helicóptero. O mau tempo impediu o pouso. A segunda opção era o jet ski, mas o equipamento não é usado em resgates noturnos. 

Mas um experiente sargento de plantão naquela noite não suportou manter as mãos atadas e arriscou quebrar o protocolo. Nildo chegou para salvar Milton três horas e meia depois da picada.

– Quando o bombeiro chegou, eu já estava bem mal. Fiquei com pneumonia porque peguei muito frio na volta no jet ski – lembra Milton.

Era só um dos perrengues. Não é conversa de pescador: Milton precisou de hemodiálise e passou quatro meses internado para se recuperar da picada. 

Os filhos brincam que precisavam ¿retirar senha¿ para ver o pai, tão disputadas eram as controladas visitas no hospital. O médico garantiu que Milton não teria resistido por muito tempo na trilha.

– Foi um castigo pois estava bebendo demais. Chegava a beber três litros por dia. Eu era alcoólatra, e hoje me sinto melhor assim – se encoraja a confessar.

O sargento se desmanchou e tascou logo um abraço na careca, quando deu de cara com Milton. Cumprimentaram-se e conversaram com a cumplicidade dos amigos de longa data. Confirmaram definitivamente que rigidez e timidez são apenas uma impressão.

– A essência humana é para coisas boas. É espírito da paz, de tranquiliade, levar luz e energia um pro outro. O mundo tá vivendo um período no qual as pessoas se preocupam muito com o dinheiro, com coisas banais. Se fosse assim, todas as pessoas que têm muito dinheiro seriam felizes. Na verdade, não é. As pessoas carecem pelo aperto de mão, pelo abraço, pelo beijo, pelo conforto, pelo carinho, pela palavra amiga. O ser humano tem que saber ouvir mais e falar menos – deixou fluir o sargento, agarrado a Milton, que assentia com a cabeça:

– O nome já diz: salva-vidas! Vais se aposentar feliz, né Nildo?

– Vou, se Deus quiser, vou.

– Virou um filho, agora – repetiu Milton, pelo menos três vezes, prometendo uma tainha assada para reunir as famílias em 2017.

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