A espera de quem luta pela saúde - Cidades - O Sol Diário

Filas11/03/2017 | 07h43

A espera de quem luta pela saúde

O Santa acompanha quatro pacientes de Blumenau para mostrar quando eles serão chamados aos procedimentos que aguardam: consulta com cardiologista, ultrassom doppler, cirurgia e transplante de rim

A espera de quem luta pela saúde Jornal de Santa Catarina/
Foto: Jornal de Santa Catarina

Textos: Jean Laurindo
jean.laurindo@santa.com.br
Imagens: Patrick Rodrigues
patrick.rodrigues@santa.com.br

Valceli toma remédio e caminha diariamente para controlar a circulação na perna até que um exame diagnostique o problema. Isali se apoia em paredes e anda com dificuldade devido às dores e ao inchaço no tornozelo. Maristela aparenta levar uma vida normal, mas não sabe que problemas a arritmia e o coração podem esconder. Doroteu segue uma dieta rígida quase sem líquidos e mantém um cateter no pescoço para a hemodiálise que controla a doença renal. Os quatro entraram recentemente em filas da saúde em Blumenau e enfrentam as dificuldades do dia a dia sem saber ao certo quando conseguirão um desfecho para os problemas. O Santa decidiu acompanhar esses pacientes até o atendimento deles para mostrar a trajetória de espera e a persistência de quem batalha por atendimento médico nas diferentes filas do município.

Muitas variantes dificultam a gestão da saúde pública. Remuneração de profissionais, baixos valores de tabela SUS, divisão de financiamento entre municípios, estados e União. Em Blumenau, pontos positivos como um sistema integrado entre os postos de saúde e a divulgação na internet da colocação nas filas amenizam a situação de espera dos pacientes, mas não evita prazos como um ano e meio até o procedimento.

Em Blumenau, segundo a Secretaria de Promoção de Saúde, cirurgias eletivas – as que não são de urgência e por isso, em tese, podem esperar – em áreas como oftalmologia e ginecologia podem ser conseguidas com uma espera média de três meses. O que favorece o baixo prazo nessa área é o maior número de procedimentos feitos – em 2016, por exemplo, foram 900 operações de catarata e 500 de ginecologia – e o fato de que não há urgências que causem cancelamentos dos casos eletivos.

Leia mais:
:: Filas da saúde: Isali Müller aguarda por retirada de pinos e placa na perna
:: Filas da saúde: Valceli Zuave precisa de exame de ultrassom na perna

Por outro lado, há especialidades em que a espera por consultas e cirurgias pode levar meses, até anos. Atualmente, segundo a secretaria, sete áreas da medicina respondem pelos maiores gargalos do município. Na área de consultas, as esperas mais longas são na oftalmologia, cardiologia, ginecologia e pediatria. Já na seção de cirurgias, as grandes demandas são em oftalmologia, cirurgia vascular e ortopedia – este último um entrave clássico nas adminitrações públicas.

Regra federal impede cirurgias
O excesso de emergências e a demanda crescente – no ano passado houve alta de 30% nos atendimentos, parte disso provocada por pacientes que migraram de convênios para a rede pública – prejudicam. Mas outra dificuldade apontada pela Secretaria de Promoção da Saúde está na cota de cirurgias eletivas estabelecida pelo Ministério da Saúde para cada especialidade. Ao atingir o teto de procedimentos por mês, que costuma ficar abaixo da necessidade, a unidade hospitalar precisa interromper aquele tipo de cirurgia, que só é retomado no mês seguinte, mesmo que haja agenda para mais operações.

Então apenas aumentar a cota de operações do ministério resolveria o problema? Não é bem assim. Segundo servidores da saúde, como Blumenau possui gestão plena dos recursos recebidos, até poderia se remanejar o teto de procedimentos para diminuir filas, como as da ortopedia. No entanto, o município é quem assumiria o custo dessas operações excedentes. A secretária de Promoção de Saúde, Maria Regina de Souza Soar, cita também a limitação da capacidade instalada dos hospitais e, claro, a questão dos recursos.

– A ampliação do teto já foi discutida em algumas especialidades, com alguns hospitais, mas você cai no impacto financeiro disso. Nesses últimos quatro anos, pouco conseguimos avançar junto ao ministério da Saúde em aumento de teto. O governo até suspendeu cirurgias eletivas em junho de 2015. O Estado deu continuidade com recursos próprios, mas teve dificuldade de bancar. Tivemos então uma redução do número de cirurgias eletivas. Isso tudo impacta no paciente que está ali esperando, que estava na nossa programação – pontua.

Leia mais:
:: Filas da saúde: Maristela Roth integra a lista que aguarda por cardiologista
:: Filas da saúde: Doroteu Arrua aguarda transplante para ter mais qualidade de vida


Dificuldade para contratar e acidentes de trânsito agravam situação das filas

A maior preocupação das filas de saúde pública está na espera por consultas de oftalmologia, segundo a secretária de Promoção de Saúde de Blumenau, Maria Regina de Souza Soar. A dificuldade nesta área é na contratação de profissionais. Atualmente, a especialidade tem 5 mil solicitações de primeira consulta pendentes – a média é de 500 novos pedidos por mês – e dois médicos de 20 horas semanais mais um prestador de serviço atendendo (uma terceira médica começa a atuar em março).

Outra área com tempo maior de espera para consultas e carência de profissionais é a cardiologia. Hoje dois médicos com carga horária de 20 horas semanais trabalham no segmento e há 1,8 mil solicitações pendentes – um prazo de espera que costuma levar em média sete meses.

– A dificuldade existe, mesmo com vários concursos feitos durante o ano passado. No último inclusive não tivemos nenhum candidato. E isso gera um gargalo – explica.
Como atrair mais profissionais e amenizar essas filas? Para a secretária, o maior obstáculo é a remuneração:

 – Que médico trabalha por R$ 10 a consulta, que é o que o SUS paga?

 A realização de mais concursos e a oferta de jornadas de 10 horas semanais, em vez das 20 habituais, a partir deste ano são estratégias para tentar driblar a escassez de profissionais, mas a grande barreira ainda são os recursos.

– Em 2015 e 2016 houve dificuldade do Estado para repassar o que é de obrigação para a atenção básica. O município investe mais do que o mínimo legal para manter unidades, remédios, mas isso tudo impacta no planejamento. Não podemos deixar o paciente sem medicamento e aí questões eletivas às vezes acabam ficando (sem ser feitas) – argumenta Maria Regina.

No caso das operações, há gargalos em cirurgias vasculares e oftalmologia, mas o grande problema está na ortopedia. Segundo a secretária, com o excesso de acidentes de trânsito, principalmente envolvendo motos, os casos de urgência acabam ocupando a agenda de atendimentos em detrimento às cirurgias programadas. Atualmente são feitas 89 cirurgias por mês e há 2.911 pessoas à espera de algum procedimento cirúrgico na ortopedia em Blumenau.

– Já tivemos casos de pessoas estarem na maca e precisarem sair porque surgiu a urgência de um motoqueiro. O desafio nessa área seria fazer um sistema educacional intenso em cima de motociclistas para diminuir os acidentes – ambiciona o presidente do Conselho Municipal de Saúde de Blumenau, Bernard Van de Meene.

Leia também:
:: Alternativas para equilibrar as demandas e reduzir a espera em especialidades de saúde

JORNAL DE SANTA CATARINA

 

Siga O Sol Diário no Twitter

  • osoldiario

    osoldiario

    O Sol DiárioPolícia apreende 1,5 tonelada de maconha em Itajaí e mais três cidades https://t.co/eM84LHDcNshá 5 horas Retweet
  • osoldiario

    osoldiario

    O Sol DiárioDiretor da Chapecoense defende trabalho de Vagner Mancini https://t.co/BweuOWc13whá 5 horas Retweet
O Sol Diário
Busca
clicRBS
Nova busca - outros