Daniela Matthes: Responsabilidades - Cidades - O Sol Diário

Opinião06/03/2017 | 08h01

Daniela Matthes: Responsabilidades

Confira a coluna desta segunda-feira



Tenho dificuldade em planejar ser mãe. É provável que, sim, terei filhos, mas não há previsão de data para isso. Porém, meu plano – ou a falta dele – foi parcialmente interrompido. Outubro de 2016 foi marcado pelo convite mais bonito que poderia ter recebido: o de ser madrinha. Aquilo me tocou profundamente. Além de representar o reforço de laços com pessoas queridas, sinaliza que alguém acredita na minha capacidade de cuidar e educar uma criança. O chamado deixou claro que, caso aceitasse, estaria incumbida – junto com meu marido – de participar ativamente do dia a dia do rebento ainda em formação. Isso trouxe alegria e preocupação em doses parecidas.

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Primeiro me ocorreu que devo parar com a mania de fazer, mentalmente, revisões de texto enquanto leio. Esse desagradável hábito inclui desde livros até placas de trânsito e as cartas mais lindas que poderia receber na vida. A dúvida se há ou não crase tira a capacidade de me emocionar. Só depois, lembrando, é que experimento o que qualquer um sentiria naquela hora tão marcante. Este seria o meu desassossego de resolução mais fácil.

Em geral, fomos todos – ou quase – criados arraigados numa cultura machista desde casa. Tornar-se feminista é, portanto, uma desconstrução. Derrubar muros para enxergar o que há além deles. Depois, construir pontes que possam, pouco a pouco, conectar com a sociedade que almejamos, mais igualitária em amplos sentidos. Fundamental, mas nem por isso é um processo sem dor, revezes e questionamentos. Com poucas crianças por perto, o convite trouxe novo dilema.

A retirada das discussões de gênero de boa parte dos planos municipais de ensino – caso de Blumenau – foi motivo de protesto, como cheguei a escrever aqui. A ignorância das crianças em relação ao tema serve a quem? Agora, incumbida de contribuir para a formação de uma, como lidar com este tema na prática do dia a dia familiar? Com a barriga da minha agora, além de amiga, comadre crescendo, nos preocupamos com detalhes, a começar pelas roupas.

Foi com certo susto que me atentei às áreas infantis de muitas lojas. Em pleno 2017 ainda temos um mar de macacõezinhos azuis e rosas. Vincular determinadas cores a cromossomos em plena segunda década do século 21 é decepcionar quem pensou, no passado, que agora já estaríamos mais avançados intelectualmente. Assim começou um garimpo de marcas que produzem roupas e brinquedos não para meninas ou meninos, apenas para crianças. Ainda que a maior parte delas seja para um público limitado – que tem acesso às compras online – é esperançoso ver marcas brasileiras quebrando paradigmas ultrapassados.

Meu pequeno afilhado chegará no fim de maio. Até lá, vai aumentando a vontade de niná-lo e a certeza de que é no dia a dia das novas gerações que garantiremos um futuro melhor a mulheres e homens. Anseio que na vida adulta dele o Dia da Mulher, celebrado novamente depois de amanhã, seja só tema de aula sobre uma época quando foi preciso ter um dia para gritar as desigualdades e violências que as mulheres foram submetidas por muito tempo.

JORNAL DE SANTA CATARINA

 

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