Ministério da Saúde lança diretrizes contra manobras agressivas em partos - Cidades - O Sol Diário

Gestação06/03/2017 | 17h30Atualizada em 06/03/2017 | 18h53

Ministério da Saúde lança diretrizes contra manobras agressivas em partos

Estratégia quer reduzir práticas desnecessárias durante o procedimento

Ministério da Saúde lança diretrizes contra manobras agressivas em partos Andresr/Shutterstock
Foto: Andresr / Shutterstock
Estadão Conteúdo
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O Ministério da Saúde lança nesta semana uma estratégia para reduzir a prática desnecessária de procedimentos durante o parto e melhorar a qualidade de atendimento. O documento, ao qual o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso, traz mais de 200 recomendações, que vão desde técnicas para aliviar a dor, como massagens e banhos quentes, até a contraindicação da manobra Kristeller, em que o útero da mulher é pressionado para tentar auxiliar a expulsão.

— Além de não ser eficaz, a manobra pode provocar sérios danos para a mulher e para o bebê, como rupturas de costelas e hemorragias — afirma a enfermeira obstétrica do hospital de Belo Horizonte Sofia Feldman, Vera Bonazzi.

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O novo protocolo, batizado de Diretriz do Parto Normal, é resultado de discussões realizadas em 2015 por integrantes de associações médicas e representantes da sociedade civil. Seus autores afirmam que no Brasil algumas técnicas, que deveriam ser usadas apenas em alguns casos, tornaram-se rotina. É o caso, por exemplo, da episiotomia, corte feito na região do períneo. Em tese, a técnica facilitaria a expulsão do bebê no momento do parto e deveria ser usada em situações específicas, mas em muitos hospitais é feita em quase todas as pacientes.

— Agora, o desafio é garantir que o texto seja colocado em prática. Há ainda muita resistência de parte dos profissionais de saúde — afirma Fátima Sampaio, do Conselho Federal de Enfermagem.

Sequelas

Com apenas 20 anos e prestes a ganhar o primeiro filho, a dona de casa Adrianne Gonçalves da Silva Braz nem sabia o que era manobra de Kristeller nem episiotomia. Foi submetida aos dois sem ser consultada pela equipe médica e, hoje, dois anos e meio depois do nascimento de Théo, luta para tentar minimizar as sequelas neurológicas causadas ao bebê pela manobra.

— O parto estava evoluindo superbem quando o anestesista, com uma cara de que queria ir embora logo, empurrou com tudo minha barriga para o bebê sair logo. A barriga ficou preta no dia seguinte, mas eu não imaginei que teria consequências tão graves — conta Adrianne.

Aos seis dias de vida, Théo começou a ter convulsões. Ele foi internado e os médicos descobriram que o então recém-nascido havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

— Ele ficou internado um mês e meio, boa parte na UTI. Sobreviveu, mas ficou com atraso na parte cognitiva e motora. Ele tem dois anos e meio e não fala nada, não anda e tem crises epiléticas — diz a mãe.

Adrianne e o marido procuraram diversos especialistas para descobrir a causa exata do AVC de Théo.

— Hoje, depois de muita investigação, a neurologista dele acredita que tudo isso ocorreu por causa do trauma que ele sofreu no momento da manobra de Kristeller — afirma Adrianne.

A contraindicação da manobra é considerada um dos grandes avanços do documento.

— Ela é considerada como uma violência obstétrica. Há inúmeros relatos de casos de mulheres que ficam contundidas, com hemorragias e outros graves problemas em decorrência dessa prática, que já foi desaconselhada pela Organização Mundial da Saúde — afirma a advogada Priscila Cavalcanti de Albuquerque Carvalho, especialista em direito sexuais e reprodutivos da mulher.

Diretrizes

Também estão na lista de práticas que vinham sendo usadas incorretamente, como rotina, a retirada dos pelos pubianos e a lavagem intestinal que precede o parto.

— A mulher é a protagonista. Precisamos abandonar o intervencionismo e devolver à mulher a confiança perdida ao longo desses anos — afirma o professor da Universidade Federal da Paraíba, Roberto Magliano de Morais.

Não há estatísticas sobre o número de procedimentos feitos desnecessariamente. Vera, Fátima e Morais, porém, sustentam que os exageros ocorrem com frequência.

— Hoje, todas as técnicas usadas ficam a critério do profissional. O grande mérito da diretriz é que ela propicia a uniformização das práticas — explica Vera.

Outro ponto polêmico, o parto domiciliar, ficou em aberto, mas com uma brecha. Afirma que entre mulheres que já tiveram filhos, não apresentam riscos de parto com complicações e têm condições de ter acesso a um hospital rapidamente em caso de complicações, a opção "não deve ser desencorajada". O Conselho Federal de Medicina é contrário.

 

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