Aumento do número de casos em cães acende alerta para leishmaniose em Florianópolis - Cidades - O Sol Diário

Saúde27/04/2017 | 03h00Atualizada em 27/04/2017 | 07h14

Aumento do número de casos em cães acende alerta para leishmaniose em Florianópolis

 No ano passado, dos 1.714 animais examinados pelo Centro de Zoonoses (CCZ) do município, 63 tiveram resultado positivo

Aumento do número de casos em cães acende alerta para leishmaniose em Florianópolis Marco Favero/Agencia RBS
Foto: Marco Favero / Agencia RBS
Ângela Bastos

O aumento no número de casos de leishmaniose visceral em cães de Florianópolis acende o alerta. Donos de pets, principalmente os mantidos em quintais, e as autoridades públicas precisam tomar medidas para controle da doença. No ano passado, dos 1.714 animais examinados pelo Centro de Zoonoses (CCZ) do município, 63 tiveram resultado positivo – no ano anterior foram 53 casos.

 A doença, também conhecida como calazar, é transmitida pelo mosquito-
palha ou birigui (Lutzomyia longipalpis) que, ao picar, introduz na circulação do hospedeiro o protozoário leishmania. O cachorro não transmite a doença para outros cães nem para humanos, mas uma vez contaminado se torna portador – caso seja picado, infecta o mosquito-palha com a doença, tornando o inseto  transmissor.

– Cão positivo é sinal de alerta. Mais cedo ou mais tarde a doença em humanos vai aparecer por aqui – diz Carlos Brisola Marcondes, professor que atua no Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Conforme Brisola, o fato de Santa Catarina até o momento não ter registrado casos da doença em pessoas é um alívio. Porém, não pode gerar descuidos. Os mosquitos, explica, estão perto da população há milhões de anos. Mas com as mudanças ambientais e alterações climáticas dos últimos tempos, passaram a estar ainda mais próximos. 

– Não se pode esperar que morram macacos, como está ocorrendo em relação aos casos de febre amarela, para se tomar providências – diz.

A principal forma de prevenção à doença é utilização de repelentes – no caso dos cães há coleira com essa ação – e com a limpeza de áreas ao redor do quintal, já que o mosquito-palha gosta de lugares úmidos, escuros e com acúmulo de matéria orgânica.

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Diagnóstico rápido evita complicações

O professor e pesquisador Mário Steindel, que atua no mesmo departamento, afirma que a doença está em expansão na Região Sul. Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a morte de uma menina de um ano e sete meses e de um adulto em consequência da doença no ano passado alertaram as autoridades. As vítimas tiveram a doença agravada por ter baixa imunidade. A criança enfrentava desnutrição e o homem convivia com o HIV. Quando detectada cedo, a doença tem alto índice de cura em humanos. 

Mário Steindel considera recomendável que os três Estados da Região Sul realizem projeto em conjunto para estudar as características epidemiológicas e controlar a doença. Em crescimento no país, observa o professor da UFSC, a leishmanione visceral está mudando o perfil e saindo do ambiente rural para o urbano.

– Em Santa Catarina, o surto mais recente aconteceu em 2005, com mais de 100 pessoas infectadas no Vale do Itajaí. Geograficamente o Estado se encontra próximo da fronteira com a Argentina, sendo que na província de Missiones há muitos casos. Além disso, não há uma pesquisa ou política de prevenção constante no resto do Estado – diz.

Casos em pessoas no Estado foram "importados"

Em 2016, Santa Catarina registrou dois casos importados de leishmaniose visceral humana. As duas pessoas contraíram a doença em outros Estados, uma em Minas Gerais e outra no Maranhão. A informação é da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive) da Secretaria de Saúde de Santa Catarina.

De acordo com a Dive, no Estado há registro de transmissão ativa (autóctone) de leishmaniose visceral canina somente em Florianópolis, onde a população de cães é estimada em 50 mil animais. Nos demais municípios, SC totalizou 17 casos suspeitos em cães 2016. Seis deles receberam diagnóstico positivo, todos casos com transmissão fora do Estado (importados). Desses, três foram sacrificados. 

Pesquisadores do laboratório de Protozoologia do Centro de Ciências Biológicas da UFSC, que desde 2013 desenvolve trabalho em parceria com o CCZ, dizem que as autoridades públicas têm feito pouco caso da doença. Eles alertam que a leishmaniose visceral mata cerca de 250 pessoas por ano no Brasil. Apesar disso, atualmente pouca atenção está sendo direcionada ao mosquito-palha. Hoje, a maioria das ações no país está voltada ao Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika vírus.

– Em termos de saúde pública, não tem ninguém olhando para essa realidade preocupante. Quando estourar, será um grande problema – alerta Brisola.

Informação é uma das principais formas de combate à doença

Para o Conselho Regional de Medicina Veterinária em Santa Catarina, combate à leishmaniose passa por três frentes: informação à população; caráter técnico e direcionada aos profissionais; e trabalho político para que sejam implementados programas de controle e prevenção.

– A informação deve ser levada a toda a população, proprietários ou não de animais domésticos. É preciso informar que se trata de uma zoonose e que, portanto as pessoas também podem adoecer – diz o médico veterinário Paulo Zunino, assessor técnico e de fiscalização.

Conforme Zunino, todos precisam conhecer o problema para poder atuar no combate à doença. A prevenção, defende, é a forma mais acessível de se chegar a todos. 

A médica veterinária do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Florianópolis Caroline Ricci Müller, diz que esse trabalho de orientação é feito no local. Mas os cuidados para evitar a proliferação da doença esbarra na dificuldade de fazer a população entender que deve investir em coleiras repelentes para cães e gatos.

– Quando o CCZ consegue, pelo menos uma vez ao ano, fazemos campanha para encoleirar ou aplicar repelente tópico de longa duração nos cães. Porém, no restante do ano ,a responsabilidade é do proprietário do animal, e normalmente é quando ocorre a falha – diz.

Conforme a veterinária, estudos recentes mostram que as coleiras são o ponto número um da prevenção da doença e do controle em nível de saúde pública. 
Por não ter cura em cães, apenas tratamentos que tiram os sintomas, a recomendação dos ministérios da Agricultura e da Saúde para casos positivos é sacrificar o animal. Porém, uma corrente de veterinários defende que o enfrentamento da doença não passa necessariamente por essa medida radical, mas por cuidados que evitem a proliferação do mosquito.

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