Daniela Matthes: Consoantes e sabores - Cidades - O Sol Diário

Opinião03/04/2017 | 07h01

Daniela Matthes: Consoantes e sabores

Confira a coluna desta segunda-feira



Eme de maria, a de amor, tê de tatu, tê de tatu de novo, agá de homem, ê de escola, esse de sapo. Posso repetir quantas vezes quiser, mas é certo que em algum momento meu sobrenome virá diferente do que soletro desde sempre. As correspondências, contratos ou documentos em que meu nome vem acompanhado de Matias, Meteusi ou Matos me fazem perder a paciência só em pensar no trabalho para arrumar o equívoco de quem não tem o ouvido preparado para tantas consoantes.

Invejava meus colegas de escola Silva, Santos ou Pereira. Até que conheci gente em situação pior. Fazer alguém falar corretamente Gerndt (guêãndt, como minha amiga tentou me ensinar), é um sacrilégio. Pense em soletrar Schmidt – e todas as suas variações –, Schäfer, Schwarz ou mesmo os sobrenomes poloneses, pomeranos ou russos que também há em quantidades pouco moderadas na região.

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Apesar de ter nascido numa família que carrega forte mistura étnica, o lado alemão – por motivos que cabem numa tese de doutorado – sempre pesou mais. Ainda assim, não fui habilitada para entender as conversas nos pontos de ônibus da Itoupava Central nos anos 1990. Certo que me achavam uma criança bastante abelhuda. Não tirava os olhos dos elementos envolvidos. No meio da conversa sempre saía algo que era possível entender. Na falta de algum verbo ou substantivo que os falantes não sabiam no dialeto de alemão, usavam na língua que conheciam. Assim era possível pescar o tema do papo. Sigo no hábito de ouvir conversas alheias, mas agora a profissão é desculpa. Tento ser mais discreta do que naquela época. A noção de que a língua falada nas Itoupavas não era tão comum quanto imaginava chegou relativamente tarde.

Na sexta série do ensino fundamental perguntaram se eu gostaria de aprender inglês ou alemão. Escolhi a segunda opção. Era uma oportunidade de ao menos trocar meia dúzia de palavras com a Oma, que lá em casa era a bisavó. Orgulhei a velhinha Matthes ao chegar falando um desajeitado guten morgen. O que se seguia era uma incógnita. Reparava no olhar triste da dona Lylly ao perceber que a bisneta não entendia lhufas. No ensino médio, quando precisei me virar nas aulas de inglês sem ter aprendido o verbo to be, percebi que a escolha anterior não foi a mais acertada. Ainda mais que no fim do último ano a professora de alemão revelou que a música que cantamos por três anos era a mesma que o netinho dela adorava quando tinha dois anos. A letra falava de um grilo que gostava de dançar. Consta que hoje o sistema de ensino do alemão está melhor estruturado.

As aulas ao menos serviram para aprender a falar um pouco melhor o que eu sempre gostei de comer. Kochkäse, Apfelstrudel, Blutwurst, Weisswurst, Kuchen e toda sorte de consoantes que são deliciosas quando fazem o caminho contrário: vão à boca. Isso sem falar nas palavras muito particulares que só sabemos aqui. Faça o teste e pergunte a alguém de fora o que é "shimiar" (não faço ideia de como se escreve o verbo que deve ter sido uma das primeiras palavras que falei) e "muss". O que está colocado à mesa e a língua – mesmo que falemos em pitadas – nos conectam, de verdade, com o nosso passado.

JORNAL DE SANTA CATARINA

 

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