Empresário sírio que mora em Florianópolis fala sobre a guerra no país do Oriente Médio - Cidades - O Sol Diário

Medo e tensão10/04/2017 | 03h00Atualizada em 10/04/2017 | 09h31

Empresário sírio que mora em Florianópolis fala sobre a guerra no país do Oriente Médio

Ahmad Hassan vive há cinco anos na capital catarinense

Empresário sírio que mora em Florianópolis fala sobre a guerra no país do Oriente Médio Betina Humeres/Agencia RBS
"A guerra é feia, é feia. São seis anos e ninguém sabe como será. Todo o golfo árabe está envolvido." Foto: Betina Humeres / Agencia RBS
Ângela Bastos

Ahmad Hassan, 43 anos, é um empresário que vive em Florianópolis há cinco anos com a atenção voltada para a Síria. Pelo menos uma vez por dia ele pega no celular em busca de notícias de familiares e amigos que vivem no país em guerra. Lá ficaram a mãe e cinco irmãos. Por causa das dificuldades econômicas impostas por seis anos de conflito, Ahmad envia ajuda financeira. O empresário é casado e pai de um menino.

Por volta das 16h de sábado, uma tarde cinzenta aqui, Ahmad procurou por um dos irmãos que vivem na capital Damasco. Sulemen Hassan, 26 anos, atendeu a ligação, para alívio de Ahmad. Informou que estavam acontecendo ataques na cidade, mas que estava bem. A mãe, agricultora de 69 anos, estava em uma cidade do litoral, distante dos ataques. 

– Estamos todos muito assustados. Não se sabe o que pode acontecer a qualquer momento – disse.

A conversa entre os irmãos ocorreu no primeiro final de semana após o ataque americano à Síria. Também do uso de gás venenoso que na terça-feira matou dezenas de civis, inclusive crianças e que teria motivado o bombardeio com 59 mísseis lançados pelos Estados Unidos. Até agora não há conclusão sobre responsabilidades do uso do gás químico. Após a ligação, Ahmad atendeu ao pedido da reportagem para uma foto. Aproximou um prato decorado com o  mapa da Síria do rosto e disse:

– Não vou sorrir. Faz tempo que nosso povo não sorri.

Leia os principais trechos da entrevista:

Cidades destruídas

"Aleppo e Damasco ficam a 400 quilômetros de distância. Aleppo era linda, uma cidade muito importante, hoje toda destruída. Damasco também está assim, cada vez mais dominada."

Ninguém escapa

"Em todas as famílias, em todas as casas existe um parente, um amigo, um conhecido vítima da guerra. Eu perdi muita gente. Primos meus morreram na fronteira com o Líbano, num ataque ao aeroporto de Damasco, dois parentes e quatro amigos em Aleppo. Em Homs, cinco amigos e alguns conhecidos. Dentro de Damasco foram mortas duas netas de minha tia."

Papel das redes

"A gente recebe as notícias pelas redes sociais. A internet ainda funciona bem lá e temos grupos para trocar informação. Nem sempre dá para falar, então a gente escreve. Muitas vezes a conversa é rápida. Só para saber como estão e desliga."

Não tem como prever

"Antes da guerra a Síria era como uma família: a gente tomava café numa cidade, almoçava noutro e dormia numa terceira. Não se falava em assalto, sequestro, estupros. Hoje as pessoas estão com muito medo. Há medo de novos ataques e do que pode acontecer."

Economia ruiu

"São muitas as dificuldades. A inflação está muito alta. Faltam combustível, alimentos, diesel para aquecer as casas. O navio atraca no porto, mas não consegue fazer com que a carga chegue às cidades já que as estradas estão cortadas." 

Criança-bombas

"A guerra é feia, é feia. São cinco anos e ninguém sabe como será. Todo o golfo árabe está envolvido. Assim como o resto do mundo, pois há a presença de jovens da Europa que se juntaram aos terroristas. Fazem lavagem cerebral nas pessoas. Usam crianças, como os pais das meninas de 7 e 9 anos que as usaram como bombas para explodir um posto da Policia Civil. Foram convencidos sobre o Paraíso."

Herança antiga

"A Síria era um país maravilhoso, o mais antigo do mundo, onde nasceu o primeiro grão de trigo, o primeiro pão, a contabilidade, a primeira ovelha. Mas a guerra destruiu e ameaça tudo. Do que deixaram os fenícios (antiga civilização de marinheiros e comerciantes), só resta alguma coisa no litoral do país."

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