Especialistas apontam estratégias que o Estado pode adotar para frear o crime organizado - Cidades - O Sol Diário

CONFLITO DE FACÇÕES27/04/2017 | 03h00Atualizada em 27/04/2017 | 03h00

Especialistas apontam estratégias que o Estado pode adotar para frear o crime organizado

Reportagem ouviu profissionais com experiência em importantes cargos de combate à violência dentro e fora de Santa Catarina

A sequência de ataques a prédios policiais, agências bancárias, além de incêndios em veículos e de confronto entre bandidos e militares, registrados entre a noite de terça-feira e a madrugada de quarta, foi interpretada pela cúpula da Secretaria do Estado da Segurança Pública como represália às operações realizadas nos últimos dias. 

Ao menos 11 ocorrências mobilizaram a polícia em um período de pouco mais de seis horas. Além de uma possível retaliação, internamente a polícia também considera outros fatores por trás dos atentados recentes. O mais contundente deles aponta para uma nova ofensiva da facção catarinense com o vácuo no controle do tráfico de drogas deixado na semana passada com as prisões de membros de outra facção na operação da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic).

A reportagem do Diário Catarinense ouviu especialistas com experiência em importantes cargos de combate à violência dentro e fora de Santa Catarina. Nomes que já ocuparam as principais funções de comando e de chefia nas polícias Civil e Militar catarinense são unânimes em afirmar que o cenário é preocupante. 

Outro entendimento em comum é de que o período de fortalecimento das facções não teve resposta à altura do Estado. Especialistas ouvidos ainda reforçam que a resposta à violência e à atuação das facções passa pelo fortalecimento dos setores de investigação da Polícia Civil, pela criação de forças-tarefas que integrem polícias e setores de inteligência, além de medidas preventivas que não fiquem restritas ao trabalho das tropas na repressão. 

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Criador da Delegacia de Homicídios vê perda de controle da violência

Luís Flávio Sapori
Especialista em segurança pública, ex-secretário estadual de Segurança em Minas Gerais e professor da PUC Minas

"Em SC, seria fundamental o Estado fortalecer a capacidade da Polícia Civil de investigar homicídios com mais delegados, equipes, escrivães. Aumentaria a taxa de esclarecimento em curto prazo, acelerando prisões. A Justiça local pode ajudar acelerando os julgamentos. Isto mandaria uma mensagem às facções de que a impunidade não vai prevalecer. Seria fundamental a criação de uma força-tarefa com grupos de inteligência das polícias Civil, Militar, Federal, Rodoviária, do sistema prisional para tentar enfraquecer as facções com trocas de informações, delineando alvos. A participação do Ministério Público é fundamental. Dadas as características desses homicídios, estamos falando de crime organizado. Para lidar com crime organizado, o Estado precisa se organizar. Não pode ser apenas um delegado, uma única equipe a cargo das investigações. O serviço público não pode assistir passivamente o fortalecimento dessas facções. Quanto mais assiste acreditando que elas estão se destruindo, elas estão na verdade se fortalecendo". 

Wálter Maierovitch 
Jurista, professor, ex-Secretário Nacional Anti-drogas no período FHC e ex-desembargador do TJ/SP

 "Não acompanho os fatos ocorridos em todos esses homicídios em SC, mas vejo um fenômeno quando ele ocorre e quebra a regra geral. Vejo não só o problema de que não se cria uma política criminal adequada ao fenômeno do crime organizado, que deve ser combatido com desfalque ao patrimônio dele. Existem outras linhas, mas esta é fundamental. E também, por outro lado, o Brasil usa de uma política inconstitucional de encaminhar o julgamento de crimes dolosos contra a vida ao tribunal popular. Isto é absolutamente equivocado. Não digo que não deva existir participação popular, mas os processos são muito vagarosos. E toda decisão tem de ser motivada. A população precisa saber o motivo da condenação ou da absolvição. No Tribunal do Júri, a votação é secreta. É uma falha que gera a impunidade muitas vezes. Quando a gente pensa em crime organizado, que tem poder de intimidação e difunde essa intimidação, o jurado nunca tem condições de estar isento porque tem medo" 

Juliano Keller do Valle
Mestre em ciência jurídica e professor no curso de direito da Univali

"Pelos últimos acontecimentos, a segurança pública em SC tomou uma frente. Tivemos uma série de operações, vários mandados de prisão cumpridos. Muitos já estavam presos, mas é bom que se diga que foi um trabalho de inteligência porque se conseguiu reunir indícios de crimes praticados dentro dos presídios, prenderam também pessoas fora, ligadas às facções criminosas. Para quem atua na área e estuda segurança pública, é muito claro que o que aconteceu terça-feira foi uma reação à boa ação praticada pela segurança pública a curto prazo, que foi de realmente medir forças com o crime organizado. Isto é significativo, ainda que seja dramático. Ninguém quer posto de polícia alvo de tiros, disputa. A longo prazo, precisamos de métodos para evitar que se chegue a essa situação, políticas gerais, de inclusão social. Que as polícias estejam presentes nessas comunidades não como mera repressão, mas como braço do Estado para que os moradores não se sintam desassistidos e que os adolescentes não venham a ser cooptados pelas facções, porque são os alvos mais fáceis." 

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