Santa Catarina tem baixa presença feminina na política, aponta ranking - Cidades - O Sol Diário

Representatividade06/04/2017 | 03h00Atualizada em 06/04/2017 | 14h57

Santa Catarina tem baixa presença feminina na política, aponta ranking

Eleitores catarinenses votam menos em mulheres do que a média dos brasileiros para cargos parlamentares, mostra levantamento feito entre 2014 e 2016

Os eleitores de Santa Catarina votam menos em mulheres do que a média dos eleitores brasileiros e do que a grande maioria dos outros Estados do país. E isso vale para todos os cargos eletivos, ou seja, candidatas ao Senado, à Câmara, à Assembleia Legislativa ou às Câmaras de Vereadores recebem menos votos válidos em SC. Para o Senado, por exemplo, enquanto na média do país candidatas receberam 8,14% dos votos válidos na última eleição, em Santa Catarina esse número não chega a 1%. O levantamento é do projeto Mulheres Inspiradoras.

Especialistas e parlamentares dizem que os números só traduzem a dificuldade das mulheres em conseguir ocupar cargos de liderança, não só na política, e a falta de credibilidade na execução de funções desempenhadas por elas. É o que diz a defensora pública Fernanda Mambrini Rudolfo, ao apontar que há uma visão diferente para homens e mulheres, mesmo que se comprove a mesma capacidade de execução para um determinado cargo. (o texto segue após o gráfico)

— A mulher ainda não é vista como líder na sociedade, e isso não é só na política. Uma candidata acaba não tendo o mesmo respeito e consideração, mesmo demonstrando a mesma competência que os homens. Santa Catarina ainda tem uma cultura muito machista, patriarcal e conservadora. Isso se reflete na representatividade — pondera a defensora.

Em 2014, a média de votos válidos para mulheres candidatas a deputada estadual no Brasil chegou a 12%, enquanto em SC ficou em 7,03%. A média se assemelha para deputadas federais, no mesmo ano (9,8% no Estado e 10% no Brasil).

Já em 2016, enquanto a média de votos para candidatas a vereadoras no Brasil foi de 16%, em Santa Catarina esse número ficou em 14,4%. E, ao todo, 219 candidatas (19% do total de mulheres que concorriam às Câmaras municipais no Estado) não receberam nem um voto sequer.

— É muito difícil uma mulher que não ocupou um espaço numa gestão municipal ou numa associação de moradores, por exemplo, que não é conhecida, ter coragem de colocar seu nome para disputar a eleição. A gente defende que as mulheres ocupem todos os espaços do poder — cita Carmen Zanotto (PPS-SC), que, antes de ser eleita em 2014 como deputada federal com 78,6 mil votos, foi suplente no mesmo cargo e vereadora na Câmara de Lajes pelo PDT. (o texto segue após o gráfico)

Brasil ocupa a 115ª posição entre 138 países pesquisados

A pesquisa do Mulheres Inspiradoras também compara a ocupação do Congresso brasileiro com outros parlamentos ao redor do mundo. Neste ponto, a participação feminina subiu de 5,3% para 9,9% no Brasil _ 6% acima da média de crescimento mundial no mesmo período. Atualmente, na classificação geral, o Brasil ocupa o 115º lugar entre outros 138 países. 

Apesar do salto ser classificado como positivo, o país estagnou entre 2010 e 2014 _ a participação feminina ficou em 8,6%. Para se ter ideia, até hoje o Brasil ainda não atingiu a média mundial de 1990, que era de 12,7%. Conforme as conclusões do estudo, a situação da mulher no parlamento brasileiro está 28 anos atrasada com relação à média mundial. 

No ritmo de renovação observado nos últimos anos, seriam necessárias ao menos 15 legislaturas para se equiparar à média em questão. Já para atingir a igualdade de gênero no parlamento federal, cita o levantamento, seriam necessários pelo menos 63 anos, ou seja, em 2080. 

— É urgente o debate a respeito de uma participação feminina nas Casas de Lei e não só à representatividade populacional feminina. Mais do que o gênero, o ativismo pela inserção da mulher na política deve centrar-se na produção de informações e para motivar a qualificação, a competência e a vocação – defende a administradora e empresária Marlene Campos Machado, porta-voz do projeto Mulheres Inspiradoras. (o texto segue após o gráfico)

Município catarinense ocupa 2º lugar no ranking de eleitas

Em meio a dados que demonstram a baixa participação da mulher na política catarinense, um dado chama atenção. No ranking de eleitas no âmbito municipal, a cidade de Planalto Alegre, no Oeste do Estado, ocupa a 2ª colocação, atrás apenas de Lucrécia, no Rio Grande do Sul. Por lá, as três candidatas que disputavam uma vaga na Câmara foram eleitas e compõem o legislativo municipal ao lado de sete homens. Segundo o levantamento feito pelo Mulheres Inspiradoras, as candidatas do município com cerca de 2,8 mil habitantes receberam 676 votos juntas, o equivalente a 26,9% dos votos válidos. 

O caso de Planalto Alegre, no entanto, é uma exceção. Joinville, a mais populosa cidade catarinense, ocupa a posição de número 4.127, com apenas duas mulheres eleitas no último pleito. Já Blumenau, no Vale do Itajaí, não elegeu representantes femininas na última eleição e está no 4.420º lugar da lista. A Capital de SC, com apenas uma mulher eleita no legislativo municipal, amarga o posto 4.254 da lista. 

— Antigamente, acho que se tinha mais mulheres do que hoje, mas demos para trás, apesar de existir a cota de 30% para as mulheres. Mesmo com essa porcentagem, a cada eleição há dificuldade de preencher esse percentual. A mulher não é protagonista nos partidos. Na época da eleição, se luta para preencher a cota, mas nem todas, de fato, disputam a eleição. Na legislatura passada, não tivemos mulheres (eleitas), a Maria da Graça (Dutra, eleita em 2016 pelo PMDB) entrou como suplente. Agora, mesmo eleita, ela não quis ser presidente da comissão (de Defesa dos Diretos da Mulher) — lamenta o atual presidente da comissão e vereador de Florianópolis, Lino Peres (PT). 

Em contato com a reportagem na tarde desta quinta-feira, a vereadora Maria da Graça esclareceu que não aceitou ser presidente da comissão em questão pois acredita que a comissão é desnecessária, já que as mulheres tem seus direitos assegurados por lei. 

— Essa comissão é uma manobra masculina e opressora, uma comissão que faz o jogo do opressor. Oprime para depois conceder. Tudo isso de cotas e comissão especial só serve para inferiorizar as mulheres — defendeu ao pontuar que até hoje nenhum projeto de lei passou por análise da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.

Segundo a parlamentar, os projetos que impactam na vida das mulheres geralmente são discutidos em comissões como trabalho, educação e saúde. Já sobre a representatividade feminina nos parlamentos, Maria da Graça afirmou que, em sua opinião, o que afasta as mulheres dos cargos eletivos é o mau exemplo dos homens.

— Política se tornou uma coisa negativa, não é atrativo. Sou uma idealista, que luta por um mundo mais justo, e eu não teria entrado nesse meio se a minha causa não fosse difícil — ressalta ao explicar que sua bandeira é a defesa dos animais. (o texto segue após o gráfico)

PEC pede aumento gradual de cotas de gênero

A aprovação em segunda votação no Senado, em setembro de 2015, da proposta de emenda à constituição (PEC 98/2015) que pede o aumento gradual das cotas de gênero em todos os níveis federativos _ Senado, Câmara dos Deputados, assembleias e câmaras municipais _ é comemorado pela deputada federal Carmen Zanotto (PPS-SC). A parlamentar conta que a proposta já está na Câmara e, inclusive, já passou pela comissão especial, criada justamente para discutir o texto da matéria, e que, em breve, deve ser liberada para ir ao plenário. 

A PEC, conforme a assessoria do Senado, assegura que cada gênero tenha um percentual mínimo de representação nas três próximas legislaturas: 10% das cadeiras na primeira legislatura, 12% na segunda legislatura e 16% na terceira, a partir da data de aprovação. Caso, por exemplo, as candidatas mulheres não atinjam esse percentual, as vagas serão preenchidas pelas que tiverem a maior votação nominal individual entre os partidos que atingiram o quociente eleitoral.

— A gente luta por um lugar na mesa (diretora), busca ocupar presidências nas comissões e, mesmo nos próprios conselhos que a gente faz parte, ainda estamos muito aquém do desejado. É só comparar o número de eleitoras com o número de eleitas, se nós votássemos em mulheres, sabendo da importância de estarmos aqui representando. Ainda precisamos caminhar e lutar muito. É uma ocupação que anda a passos lentos — analisa a deputada federal Geovania de Sá (PSDB-SC).

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