Fabrício Cardoso: Pelo menos já era dia - Cidades - O Sol Diário

Opinião15/05/2017 | 19h31Atualizada em 15/05/2017 | 19h32

Fabrício Cardoso: Pelo menos já era dia

"A potência do amor é proporcional à tolice que ele nos rebaixa"

Ouvi a chave girar na porta. Veio então o sorriso que me faz querer viver para sempre, só pelo prazer de testemunhá-lo. O abraço, demorado, termicamente perfeito, interrompeu uma madrugada asfixiante. Insone, havia perambulado pela casa com uma dor naquele ossinho que funde as costelas e se expandia como o universo, a ponto de me curvar. Custava-me acertar a respiração na cama vazia. Creio ter esculpido um sulco no corredor de acesso à sala. Havia enfrentado 10 horas de ônibus só para estancar minha solidão cortante, mais um gesto de amor dentre tantos que recebo desde que ela tinha 21 anos. Fiquei viciado nisto. No sofá, abraçado, exausto pela dor, adormeço ao ritmo do coração dela.

À exceção da dor naquele ossinho que funde as costelas e se expande como o universo, tudo o que contei ali acima foi obra da solidificação de um desejo na forma de sonho. Depois de quase 6 mil dias, por razões justas e legítimas, minha mina foi morar longe. São 805 quilômetros em linha reta, me afirma o Waze. Mas não há justiça e legitimidade capazes de emagrecer o peso de uma ausência.

A gente se socorre na ideia do temporário, mas a alma interpreta como eterno qualquer temporário sem data certa para acabar. A solidão tem este poder de realçar nosso egoísmo: a gente percebe que o outro está bem, excitado para a vida, mas ainda assim se advoga o direito de sofrer com estardalhaço. A potência do amor é proporcional à tolice que ele nos rebaixa.

A rotina é um veneno, reconheço. Mas há uma beleza sublime neste fardo. Passamos café todo dia, mas só se tem a exata dimensão da importância disto quando se reduz a quantidade de pó no filtro. Ou quando, ao montar a mesa, pega-se talheres a menos. Gestos quase mecânicos que, a rigor, simbolizam a presença essencial do outro. Eu odeio esta capacidade humana de reduzir a relevância das coisas pela repetição. Repetição é oportunidade. Um preço barato demais pelo privilégio de ter quem se ama por perto.

Bem, depois deste cochilo enternecido ao ritmo da pulsação dela, descerro as pálpebras e preciso lidar com a ideia de que tudo havia sido um sonho. A sala enorme, que nos encantou quando escolhemos o apartamento, estava impregnada do mesmo ar rarefeito. Exausto por errar a madrugada inteira, adormeço de novo, a despeito da dor naquele ossinho que funde as costelas e se expande como o universo me futucando sem parar.

Uns minutos depois, talvez, ouço passos no corredor. Vinha ela com os cabelos úmidos, acabara de sair do banho, besuntada dos cremes que dividem a bancada da pia com meu balm pós-barba. Volto a abraçá-la, aspiro fundo o pescoço, cujos aromas naturais haviam sido sabotados pelos cosméticos. Esta, aliás, é outra coisa bacana da rotina normalmente subestimada: o olfato como indicador do outro.

Aquecido pelo segundo abraço, com as costas arqueadas pelo cochilo no sofá, rumo ao quarto. Mas o arsenal de cremes não estava na bancada da pia. Meu balm estava ali, com a minha escova de dentes azul, cor que somos treinados para atribuir aos meninos. Nos servíamos desta bobagem como artifício para evitar confusão.

O universo onírico tem um senso de humor leviano. Me pregou duas peças numa das mais longas madrugadas da minha vida.

Pelo menos já era dia lá fora. A solidão no escuro é mais cruel.

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