"Meu plano de ensino é elaborado com os alunos; eles têm voz", diz um dos melhores professores do mundo - Cidades - O Sol Diário

Lições em sala de aula04/05/2017 | 06h01Atualizada em 04/05/2017 | 10h58

"Meu plano de ensino é elaborado com os alunos; eles têm voz", diz um dos melhores professores do mundo

Wemerson da Silva Nogueira, do Espírito Santo, foi um dos finalistas do Global Teacher Prize, espécie de Nobel dedicado à categoria

"Meu plano de ensino é elaborado com os alunos; eles têm voz", diz um dos melhores professores do mundo Felipe Carneiro/Agencia RBS
Nogueira, 26 anos, esteve em Florianópolis em abril  Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Aos 26 anos, o professor Wemerson da Silva Nogueira, do Espírito Santo, acumula reconhecimentos importantes na carreira ainda curta em salas de aula. Neste ano foi um dos finalistas do Global Teacher Prize, espécie de Nobel dedicado à categoria, e no ano passado ficou entre os 10 ganhadores da 19o edição do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.

As premiações são resultados de projetos nos últimos cinco anos com alunos de ensino fundamental e médio de escolas públicas capixabas e que renderam frutos importantes, inclusive nas comunidades. Em um deles, o biólogo, com ajuda dos alunos, analisou a qualidade da água do Rio Doce, atingido pelo rompimento da barragem em Mariana (MG), e desenvolveu um filtro reciclável de água à base de areia.

Atualmente, são 17 mil filtros espalhados e 70 mil pessoas beneficiadas. Em outro, combateu a evasão de uma escola – que chegava a 50% – em uma das comunidades mais violentas no Espírito Santo. Trabalhou a conscientização sobre o uso de drogas, principalmente fora da sala de aula e conseguiu parcerias para construir um laboratório de ciências. A evasão caiu para 0 e hoje a unidade está entre as melhores do Estado.

O professor esteve em Florianópolis em abril deste ano para uma palestra no lançamento do Conselho Consultivo Família pela Educação (CFE), que irá reunir periodicamente representantes de escolas e o secretário de Educação do município, Mauricio Fernandes Pereira. Em entrevista ao Diário Catarinense, Nogueira abordou como os professores podem inovar e atrair os alunos em sala de aula. O caminho passa por ouvir mais os estudantes, aproximar escola e comunidade e buscar parcerias. Além, é claro, de uma boa dose de esperança.

Como é possível inovar em sala de aula e atrair os alunos?
Eu daria as mesmas dicas que eu utilizo em sala de aula. Primeiro, entenda sempre que nós, professores, por mais que tenhamos todas as formações possíveis e títulos, em salas de aula somos meros aprendizes e estamos aprendendo também com nossos alunos. Então permita que os alunos abram a caixinha de surpresa que existe na sua mente e aí pode nascer ideias grandes que possam contribuir para uma nova metodologia na educação. Reconhecer isso através da humildade e simplicidade abre seus ouvidos para ouvir conselhos, compartilhar dicas. Pergunte aos seus alunos como eles gostariam de aprender. Todos os meus projetos que me trouxeram grandes conquistas nasceram primeiro dos meus alunos e depois foram aprimorados. 

Como fazer isso na prática?
A primeira coisa que faço no primeiro dia de aula é listar no quadro todos os conteúdos que a gente vai abordar naquele primeiro semestre. Ali começo a ouvir os questionamentos enquanto estou escrevendo. Por exemplo, coloco tabela periódica, aí já começo a ouvir os murmúrios que é complicado. Vou ouvindo e absorvendo. O meu plano de ensino é elaborado junto com meus alunos, eles têm voz, têm oportunidade de dizer como eles gostariam de aprender. Faço uma mesa redonda e crio uma discussão para ver se tem como aplicar a ideia. E muitas vezes faço alterações na minha grande de ensino.

O que falta para que professores comecem a inovar?
Acredito que o que falta é acreditar. Eu sempre uso essa palavra porque é a base para qualquer transformação. Depois disso, precisa delimitar seu foco e objetivo final. O que você quer neste caminho? A partir daí começar a planejar as metodologias e começar a trabalhar de forma simples, sem pensar em coisas grandes. Costumo dizer que seu objetivo só vai se realizar se pensar pequeno e lá no final terá grandes conquistas e resultados. 

Mas como driblar a falta de recursos?
Todos os meus projetos foram desenvolvidos em escolas públicas e não precisaram de nenhum recurso financeiro do governo. Eu sempre soube que para demandar verba pública tem uma série de burocracia, que é longo. Sempre procurei parceiros, existem muitos empresários, tanto pequenos como grandes, que querem fazer trabalhos sociais. Procure parcerias com essas pessoas. Nunca chegue pedindo dinheiro, às vezes apoio ético, político e moral é muito mais importante. Um exemplo é o projeto do Rio Doce. Hoje estão implantados mais de 17 mil filtros, sendo que cada um custa R$ 67 e não tirei nenhum centavo do meu bolso e nem da escola ou governo. Tudo foi investido pelos empresários. 

E como diminuir a evasão escolar?
A gente precisa do apoio da família. As escolas precisam trazer as famílias. Não tragam a família apenas para ouvir, ser criticada. Traga a família para participar de uma aula, faça algo diferente. Eu não vou fazer uma reunião, por exemplo, faça uma atividade dinâmica pais e filhos. Em uma das primeiras ações que fiz com famílias foi convidá-los para uma feira científica. Para os alunos serem avaliados, os pais precisam vir à feira de ciências, onde os alunos iriam fazer experiências. O pai tinha que vir ao estande do filho, ver e participar. O aluno gravava em vídeo e apresentava para mim. Foi o momento que aproximei a família da escola. 

Então esse envolvimento da família e comunidade é fundamental?
Todos os meus projetos têm sempre envolvimento da comunidade. Percebi que os melhores resultados ocorrem quando você envolve a comunidade, por mais minúscula que seja. Porque você tira o aluno e leva para fora, para o espaço não formal. Ele acaba ouvindo histórias de moradores que inspiram o aluno. Por exemplo, o projeto do Rio Doce foi inspirado nos moradores que estavam sofrendo com a tragédia.  

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