Os últimos colhedores de pinhão: atividade cai em desuso devido ao êxodo rural, risco e remuneração - Cidades - O Sol Diário
 
 

Tradição serrana30/05/2017 | 06h20Atualizada em 30/05/2017 | 10h26

Os últimos colhedores de pinhão: atividade cai em desuso devido ao êxodo rural, risco e remuneração

Falta de tecnologia capaz de garantir a colheita das sementes preocupa produtores

Os últimos colhedores de pinhão: atividade cai em desuso devido ao êxodo rural, risco e remuneração Betina Humeres/DC
José Natalino Ribeiro, 56 anos, tira as pinhas desde que era garoto e mantém a vitalidade Foto: Betina Humeres / DC

Quando caem de até 50 metros de altura, patamar que as florestas de araucária na região Sul do Brasil pode atingir, as pinhas são debulhadas pelo impacto com o chão graças à maturação e ao papel exercido pela gravidade. Os frutos, cuja semente é o pinhão, são catados e posteriormente transportados até feiras e supermercados de todo o país. Mas nem sempre esse alimento é consumido tão maduro assim. Por vezes, o processo é antecipado pela ação humana por meio do extrativismo. 

Na Serra de Santa Catarina, o pinhão só pode ser colhido a partir de 1º de abril. A colheita prolonga-se até meados de junho. Aqueles diretamente envolvidos com essa atividade sazonal costumam subir em média de três quartos da altura de um pinheiro, já que devem chegar até os galhos, sentar-se em um deles e cutucar as pinhas com uma vara. Antes, é preciso selecionar quais retirar — somente as de coloração amarronzada completaram o ciclo do cultivo.

Apesar de não haver um levantamento oficial acerca do número de colhedores de pinhão em Santa Catarina, quem trabalha no meio garante que esses profissionais estão desaparecendo. Ano a ano a tradição, que pode variar em formato, mas invariavelmente é passada de pai para filho e envolve o uso de uma espora para subir e descer, é extinta. Os fatores mais prováveis são o êxodo rural, o alto risco envolvido (há a possibilidade de queda da árvore ou de ser atingido por uma pinha) e a remuneração pouco atrativa (que varia de R$ 200 a R$ 400 por dia). Por outro lado, não há alternativa tecnológica imediata que substitua a mão de obra do povo serrano.

A fim de valorizar a atividade, que está presente em 66 municípios catarinenses, especialmente em Painel, São Joaquim e Urupema, o Diário Catarinense ouviu três colhedores de pinhão para entender a motivação de cada um deles em torno da continuidade da prática. Todos eles privilegiam a tradição, o incremento da renda mensal e também se preocupam com o meio ambiente e a própria segurança. Confira:

De 1º de abril até meados de junho, Adilson Paulo dos Santos, 22, abraça araucárias diariamente. Por carinho à árvore cuja semente lhe dá o sustento, mas também por segurança. 

Além das botas com esporas, que estão marcadas em todas as calças de tanto que as utiliza, o jovem faz questão de vestir um cinto. O material de couro tem circunferência cerca de cinco vezes superior à cintura do homem esguio. Por isso, garante que ele não seja mais uma vítima da colheita de pinhão, como as que ouve falar.

– Meu primo caiu no ano passado. Ele tinha experiência, mas aí foi muito para a frente de um galho e, como ele pesa uns 90 quilos, o galho quebrou e ele caiu. Mas isso não me assusta nem um pouquinho. Com o cinto, posso subir sem medo – garante.

Esse não é o pensamento da maioria dos jovens da região serrana, segundo o engenheiro agrônomo da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Raul Cerqueira. A partir de Painel, cidade catarinense com maior volume de produção, observa a redução progressiva da mão de obra e enumera possíveis justificativas.

– O risco envolvido faz com que a pessoa comece a sair da atividade. Alguns jovens que eram tradicionais colhedores já percebem mais o perigo e não se arriscam tanto. Também há um envelhecimento no meio rural. Atraído por outros serviços e por estudo, o pessoal mais novo vai para cidades maiores e às vezes não volta.

Adilson Paulo dos Santos, 22, tem larga experiência na colheita do pinhão Foto: Betina Humeres / DC

Do clarear do dia até o anoitecer

Cerqueira diz que até o momento não há alternativa que substitua ou facilite este trabalho.

— Alguns estão começando a usar escada de alumínio. O que vai vir depois dessa escolha, não sei. Teria que tecnificar a colheita, mas não sabemos como – afirma.

A coragem de Adilson talvez resida na experiência. Depois que o pai o ensinou a subir em araucárias para tirar pinhão, aos 14 anos, passou a anotar a quantidade de pinhas colhidas em um caderninho de papel. São cerca de mil recolhidas diariamente durante a temporada.

– Até agora [final de abril], foram 15 mil pinhas. Ainda falta tirar muito mais. O recorde foi de 27 mil, totalizando 400 sacos. Tudo isso começa no clarear do dia e vai até quando não estiver se enxergando mais – diz.

Quem se alegra é o dono de uma das propriedades para onde trabalha, o fazendeiro Erionei Mathias, que vende pinhão para todo o Estado e até para o Paraná.

– Não há fiscalização de segurança, mas eu sempre peço para quem trabalha aqui que use o cinto e se cuide. Tem que fazer do jeito certo.

No alto dos 56 anos de idade e dos pinheiros que dá conta de subir anualmente, José Natalino Ribeiro derruba as pinhas como se ainda fosse jovem. Para a função, que exige o auxílio de outra pessoa para debulhar e ensacar as sementes em terra firme, o homem natural de Urubici geralmente conta com a ajuda de amigos. A extração do pinhão não faz mais parte da rotina dos filhos, que deixaram o sítio para viver na cidade.

Natalino, no entanto, não deixa a tradição que aprendeu aos 10 anos morrer por conta do êxodo rural, uma vez que permanece no campo e, principalmente, é apaixonado pela função. O aprendizado da atividade deu-se por observação da própria prole da família Ribeiro, na qual é o caçula de nove irmãos.

— Os irmãos mais velhos subiam na araucária e eu olhava. Depois, também comecei a subir. Naquela época, não tinha isso aqui — diz, apontando para a espora adaptada à bota que utiliza para fincar no tronco e ter firmeza na ascensão até os galhos.

Em uma ida ao Centro da cidade, quando tinha 12 anos, José Natalino viu funcionários das Centrais Elétricas de Santa Catarina arrumarem um poste de luz, na época de madeira. Para ficarem suspensos, eles utilizavam um ferrão nas botas. Pensou em adaptar a tecnologia para garantir a colheita do pinhão, que ainda é fonte de renda para a família.

– Todo mundo catava pinhão, do mais velho ao mais novo. Quando não era para vender, era para engordar o porco. E também para alimentar. Hoje, nós vendemos o pinhão selecionado a R$ 8 o quilo. Se descascamos e moemos, vai para R$ 15, porque aí ele já fica pronto para a paçoca [receita tradicional de pinhão e carne moída refogados] – garante.

Padrão sustentável de produção

A propriedade é uma das 12 integrantes do projeto Araucária +, idealizado desde 2011 pelas fundações Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras e Grupo Boticário, que valorizam pequenos agricultores ao comprar o pinhão processado diretamente deles.

– Prezamos por um padrão sustentável de produção junto aos produtores rurais, que devem respeitar a época de colheita, deixar 20% do pinhão e garantir que o gado não invada a floresta. Estamos na terceira operação comercial. O que eles produzem está servindo de matéria-prima para a cervejaria Insana, que tem um rótulo especial de pinhão no inverno – diz o gerente do Grupo Boticário, Guilherme Karam.

Em contrapartida, há a cobrança por preservação ambiental, já que só restam 3% da área original das florestas com araucárias.

Não ter medo de altura é o pré-requisito que Mário Iozan, 37, define para a colheita de pinhão. Para ter esse pensamento, ele soma uma corda à espora e ao cinto que também utiliza. Em vez de descer fincando o ferro na árvore, o que exige bastante esforço físico, ele faz uma espécie de rapel: joga a corda em um galho e desce pendurado até o solo. Assim, a função ganha todo um contorno de lazer para ele.

– Acabo aliando [a tarefa] a outras atividades porque tenho serviço na cidade. Por sorte, sempre consigo tirar férias no inverno, aí aproveito para tirar pinhão. Às vezes, quando a gente está no alto, se desliga daquilo que está fazendo e vê toda a beleza serrana. É aí que começa a dar valor para a região onde vive – destaca.

Por mais prazer que lhe dê, a colheita do pinhão também incrementa a própria renda. Conforme Mário, independentemente de como é feito o acordo entre o dono da terra e o colhedor, é possível arrecadar até R$ 400 na diária do serviço.

– Geralmente, o pinhão é repartido. Ou eles dão metade para o dono da terra ou repartem em um terço, porque normalmente vão em duas pessoas: um para tirar em cima e outro para catar no chão, além do proprietário. Nessa repartição, se consegue tirar um bom valor, desde que a safra ajude.

Mário Iozan, 32, enxerga a atividade como um hobby e não deixa de proteger-se Foto: Betina Humeres / DC

"É preciso repensar forma de plantio", diz pesquisador

O engenheiro agrônomo de Painel, Raul Cerqueira, no entanto, acredita que a remuneração não seja tão elevada. Ele diz que, geralmente, o valor pago por uma diária de colheita é o mesmo de um saco de pinhão que seria comercializado.

– Acredito que [o pagamento] esteja em torno de R$ 200 por dia. Como não é uma atividade tão técnica, só se cobra o risco – explica.

O extensionista lembra que também existe a situação em que o tirador de pinhão chega a uma propriedade, avalia os pinheiros e oferece um valor ao dono que, por vezes, foca somente no extrativismo da madeira. Nesse modelo, é comum o desrespeito ao ciclo do pinhão, que deve completar dois anos. Por esse motivo, o consumidor percebe, em casa, que o pinhão comprado ainda não estava maduro.

Um dos grandes estudiosos da temática, o pesquisador da Universidade Federal do Paraná, Flávio Zanette, explica o processo. Ele defende um modelo de pomar de araucária com mais espaço entre cada árvore, além de pinheiros selecionados e enxertados. Assim, o especialista acredita no aumento da produtividade em número e, principalmente, em qualidade.

– A distância entre as plantas permitirá a entrada de equipamentos para a colheita. No entanto, a boa colheita é feita quando o pinhão cai. Sobem no pinheiro porque o chão não é limpo e, muitas vezes, colhem pinhas verdes. Nossos pinheiros estão ficando cada vez mais velhos e menos produtivos. Há grande diferença de preço entre o extrativista que arrisca a vida e o consumidor. Se quisermos comer pinhões no futuro, devemos alterar o plantio. Só proibir a derrubada, não resolve, um dia eles morrerão de pé – alerta.

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