"A sensação de impunidade começa quando você liga no 190 e não tem viatura para atender", diz Beltrame - Cidades - O Sol Diário
 
 

Entrevista02/08/2017 | 21h35Atualizada em 02/08/2017 | 21h35

"A sensação de impunidade começa quando você liga no 190 e não tem viatura para atender", diz Beltrame

Em Florianópolis para palestra na Alesc, responsável pela implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no RJ falou ao DC

"A sensação de impunidade começa quando você liga no 190 e não tem viatura para atender", diz Beltrame Guto Kuerten/Agência ALESC
Foto: Guto Kuerten / Agência ALESC

Principal responsável pela implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro, o delegado federal aposentado e ex-secretário da Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, esteve em Florianópolis nesta quarta-feira para palestra na Assembleia Legislativa. 

Em entrevista exclusiva ao DC antes de falar ao público, ele enalteceu a experiência das UPPs, embora reconheça que o mesmo modelo talvez não seja adequado para Santa Catarina. 

Apesar de destacar uma política de integração que vá além das ações em segurança, o ex-secretário do Rio defendeu o uso da força das tropas no enfrentamento do conflito armado, cenário que ocorre em meio à guerra entre facções em solo catarinense.

Santa Catarina vive um crescimento na criminalidade. Florianópolis soma mais de cem homicídios. Qual sua impressão sobre o cenário?

Dentro do contexto brasileiro, Florianópolis está no limite, mas na faixa dos 10 ou nove homicídios por 100 mil habitantes...

Passou, já está em 12...

Então aí já está fora. Mas acho que a situação no país contribui muito para isso. Obviamente tem de haver medidas locais para essas questões, mas, sem dúvida, a realidade brasileira, assim como a população, sente a defasagem do serviço público, a criminalidade também sente isso. Ela se locupleta desse "gap". Existe muito problema financeiro onde a polícia não se faz presente, não está na rua, ou os inquéritos e as investigações não conseguem ter o desdobramento rápido e efetivo que precisam ter. Isto traz problemas sérios, principalmente o crime contra a vida.

Os homicídios em Santa Catarina têm se concentrado em áreas específicas de Joinville e Florianópolis. São áreas tomadas pelo crime organizado. Como lidar nesse cenário?

A fórmula que nós aplicamos no Rio de Janeiro e que deu muito certo foram as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Elas foram acionadas muito bem. Tínhamos 43 homicídios por 100 mil habitantes. No ano passado entreguei o cargo com 19. É um número alto, mas fica muito claro que teve um projeto onde se media esses resultados e ficava-se muito atento, com muito controle nessas ações. E paralelamente você tem que ter, o que se fez na parte urbana da cidade, também um programa chamado Regiões Integradas de Segurança Pública, onde se atribuiu metas à resolução de inquéritos relatados com autoria. Agora temos que ter um olhar mais largo sobre segurança pública. No Brasil as pessoas acham que segurança pública é sinônimo de polícia. Isso é um erro muito grande.

Significa que Santa Catarina e outros Estados têm falhado em atender essas demais carências?

Essa é uma falha nacional. Você tem que procurar dar perspectiva para as pessoas. Tem que mostrar que é melhor estar ao lado do Estado do que do crime. No Rio de Janeiro, crianças e jovens nunca atravessaram o muro da favela. Não sabem que existe uma praia, outras coisas a se fazer. Viveram sempre naquele lugar e esses lugares normalmente são tratados como guetos. As pessoas querem a favela para arrumar cozinheira, empregada doméstica em vez de levar prosperidade. Não vou dizer que a UPP cabe a Santa Catarina, a Florianópolis. Ela cabe numa situação muito clara do Rio de Janeiro. A criminalidade você controla, usando um termo chulo, dando um banho de loja nesses lugares. Através de cidadania, de ordem pública, gerando alternativas. O problema é que o Brasil não está acostumado a planejar a curto, médio e longo prazo. E não está acostumado a planejar de forma integrada. 

Não existe um plano macro de segurança. É isso o que o senhor quer dizer?

Falta no Brasil inteiro. E não só de segurança, mas de infraestrutura, de muita coisa. Muitos planejamentos ficam ao longo de políticos e eles querem pressa, quer estar todo dia na primeira página do jornal. Precisamos de planos integrados com outros setores do Estado, da sociedade, de curto, médio e longo prazo.

Santa Catarina já tem uma facção local e agora uma facção paulista também age aqui. Onde o Estado está falhando?

As falhas são multifacetadas. Vai desde a sensação de impunidade, e a sensação de impunidade começa quando você liga para o 190 e não há uma viatura para lheatender, e vai até uma sentença judicial que não representa aquilo que a sociedade esperava, é desprovida de um caráter exemplar. Não que eu queira deixar as pessoas presas, quando comete um crime ela precisa saber que não vale a pena. O sistema judiciário brasileiro é responsável sim, como outras instituições, como um ente regulador e acho que isso se perdeu. Somado a isso, as questões de cidadania e valorização da vida.  Também percebo viajando, principalmente para o Norte do país, é a ordem pública. As pessoas invadem o que bem entendem, ninguém vai lá tomar providência. O Estado, o município tem que ter uma política habitacional.  Você não pode deixar que a desordem cresça porque onde tem desordem, ela é diretamente proporcional à insegurança. 

Mas, em curto prazo, como responder a um conflito armado entre duas facções como acontece em Santa Catarina?

Quando você tem uma situação em que a vida de pessoas está em risco, onde há armas automáticas, onde há pessoas praticamente exercendo o Estado democrático de direito – no Rio de Janeiro, onde ocupamos, eles faziam a lei, faziam o papel do Judiciário, do Legislativo –, aí você tem que ir com uma massa de policiais importante, operações planejadas, entrar, desarmar, prender essas pessoas e permanecer ali por tempo suficiente para que eles se desinteressem por esse local. Isto é difícil? Precisa de gente? Sim, mas nós temos uma série de forças amigas, como usei no Rio de Janeiro. Não vou dizer Exército, Marinha, Aeronáutica, mas isto tem de ser feito. Se as forças locais não conseguem, talvez aqui em Florianópolis, Santa Catarina consigam porque agora é o momento.

Se não fosse UPP, que alternativa Santa Catarina poderia adotar de presença permanente?

Fica difícil de falar, mas pelo que vejo no Brasil você oferecendo possibilidades de prosperidade, situações onde as pessoas veem que o Estado está preocupado com elas, isto já ajuda muito porque o crime normalmente está aonde o Estado não está. O crime normalmente está onde tem desordem.

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