"Combater a mortalidade violenta não é uma missão só da polícia", diz subcomandante-geral da PM em SC - Cidades - O Sol Diário

Dia S22/08/2017 | 21h36Atualizada em 23/08/2017 | 14h06

"Combater a mortalidade violenta não é uma missão só da polícia", diz subcomandante-geral da PM em SC

Coronel diz que homicídios e roubos têm prioridade no planejamento

"Combater a mortalidade violenta não é uma missão só da polícia", diz subcomandante-geral da PM em SC Marco Favero/Diário Catarinense
Coronel Araújo Gomes representou a SSP/SC em entrevista para o Dia S Foto: Marco Favero / Diário Catarinense
Roelton Maciel, Diogo Vargas, Talita Rosa, Anderson Silva e Mariana de Ávila Faria

roelton.maciel@diariocatarinense.com.br;diogo.vargas@somosnsc.com.br;talita.rosa@rbstv.com.br;anderson.silva@diario.com.br

Subcomandante-geral da Polícia Militar no Estado, o coronel Araújo Gomes falou em nome da Secretaria do Estado da Segurança Pública para o Dia S. Araújo reconheceu que as atuais taxas de homicídios preocupam, especialmente em Joinville e Florianópolis, e apontou o índice de 10 mortes para cada 100 mil habitantes como uma meta a ser buscada. Hoje, Florianópolis, Joinville e Itajaí têm números acima desse patamar. A estratégia da polícia, destacou o coronel, é aperfeiçoar atividades de inteligência para se antecipar às ações criminosas, especialmente casos de vingança ligados ao tráfico. O combate a homicídios e roubos foi destacado como prioridade.   

A SSP/SC faz segurança para todas as cidades de SC?

Com certeza. A distribuição do efetivo, de recursos, é a primeira camada desta igualdade de tratamento. São distribuídos não só de acordo com a população, mas com o risco de cada lugar. E a malha de cobertura não é apenas a local. Muitas vezes uma cidade pequena tem a sensação de que está descoberta porque só tem dois ou três policiais, mas ela faz parte de sucessivas malhas de cobertura. Há pouco menos de dois meses uma quadrilha bateu de frente com um tático nosso em Major Vieira para fazer um assalto. Rapidamente, em menos de quatro horas nós tínhamos helicóptero, táticos, cães no local fazendo a cobertura da região. Há anseio por mais policiais em todas as cidades, mas entretanto no quadro atual de efetivo, que está longe de ser solucionado, precisamos priorizar onde os índices são maiores.

Conversamos com idosos, adolescentes, mães, líderes comunitários da favela do Siri (Florianópolis) e todos criticaram a repressão policial. Qual é a visão dos policiais do trabalho deles?

A preocupação da legitimidade no relacionamento das polícias com as comunidades mais empobrecidas é um grande desafio das polícias brasileiras. A visibilidade destas comunidades é um fato recente no Brasil. Nesses lugares as pessoas morrem. Temos a preocupação de garantir a segurança delas. Na Vila União (Norte da Ilha), por exemplo, pegamos quase 10 armas numa tacada só. Quantas vidas aquela ação salvou? Entretanto, só isso não resolve. É preciso estreitar relações com a comunidade. Estamos investindo nesse momento em um projeto das câmeras pessoais para os policiais. Aguardamos só a autorização, será comprado junto de uma universidade americana, uma universidade inglesa e uma ONG do Rio de Janeiro, um conjunto de quase 130 câmeras corporais. Serão estudadas durante seis meses, principalmente no seu impacto no relacionamento com o cidadão, para aumentar a legitimidade e a transparência do trabalho policial. É preciso lembrar que, em muitas dessas comunidades, os jovens viveram um longo ciclo de amadurecimento vendo apenas a realidade do tráfico, sem ver outras frentes do Estado. Sem ver a polícia a não ser pela via repressiva. Quebrar essas barreiras é um dos nossos desafios.

A polícia também é refém da ausência de uma política intersetorial que envolva outras frentes do Estado além da Segurança Pública. O que falta para a PM ter poder de voz e trazer outras pastas na mesma causa?

Vou citar uma parceria muito forte que temos com o Ministério Público. A visibilidade das nossas informações em um software permite criar as manchas de violência, de criminalidade, cruzá-las com indicadores sociais. Isto permitirá que o MP, com as nossas informações, possa de uma maneira privilegiada ir atrás disso. E vou além: cobrar o papel das ONGs. A quantidade de subsídios, de rótulos, de projetistas sociais nessas comunidades é gigantesca e muitas vezes não vemos o resultado acontecer. Nós que estamos no dia a dia nessas comunidades não vemos muitas delas atuando de maneira significativa nem o impacto delas sobre a violência de maneira transparente, uma vez que muitas usam recursos públicos.

Quais as medidas que podem ser feitas para que 2017 não termine como o ano mais trágico da história de Florianópolis? 

 Nenhuma instituição sozinha é capaz de conter uma crise como a que a gente viveu no primeiro trimestre, de elevação súbita e bastante crítica dos índices de mortes violentas. A maneira como atuamos foi estabelecer estratégias integradas com as demais polícias, nos aproximarmos do Judiciário, do Ministério Público, e monitorarmos de maneira mais precisa o fenômeno. Se você observar, os dois pontos quentes desse ano em Florianópolis tiveram um primeiro trimestre bem crítico. As medidas foram tomadas e foram estabilizando. Tínhamos uma frequência de quase uma morte a cada 1,3 dias no primeiro trimestre em Joinville e Florianópolis. Agora, praticamente uma morte a cada seis ou oito dias, sendo que Joinville chegou a passar 30 dias com apenas um latrocínio. Em termos de frequência estatística revela mudança de comportamento. O que é preciso fazer? Continuar o que tem sido feito. Integração das forças que atuam sobre isso, aperfeiçoar inteligência visando antecipar principalmente as vinganças ligadas ao tráfico. E monitorar mudanças no procedimento dos criminosos.

Em relação aos homicídios, qual é a meta da secretaria até o final do ano? Existe uma meta de trabalho?

Combater a mortalidade violenta não é uma missão só da polícia. O papel do Instituto Geral de Perícias é fundamental porque não basta prender. É preciso prender bem juntar boas provas para que a condenação aconteça. A investigação em Santa Catarina tem uma característica que leva a altos índices de esclarecimento. Para padrões nacionais, é dos mais elevados. Estamos diversificando estratégias preventivas. A Rede de Vizinhos faz mais do que vigiar as ruas. Mobiliza as pessoas, cria redes de colaboração que tornam as comunidades menos vulneráveis. Há dificuldade de entrar nas comunidades mais empobrecidas e violentas. Temos a Rede Catarina de Proteção à Mulher focando numa vitimização específica, que é a da mulher. A PM junto do Judiciário e o MP está ajudando a comunicar situação de risco, a fiscalizar medidas protetivas e gerando vínculo com as famílias de tal maneira que a gente consiga reduzir essa vitimização. A Rede de Proteção Escolar é outro programa. Muitos desses jovens que morrem ou que matam estão ou deveriam estar na escola. Se olhar só esses três programas, vai ver que a PM está dedicada a intervir de forma protetiva em três grandes espaços. De um modo geral, a meta é puxar para próximo de dez mortes para cada 100 mil habitantes.

Que compromissos a SSP pode assumir?

Temos dois focos bem específicos. Homicídios e roubos. Essa articulação da qual falamos vem se construindo. Teremos um grande reforço no final do ano, com aumento de efetivo que será distribuído com critérios técnicos para fazer com que esses índices baixem onde são mais destacados. Acreditamos que esses policiais, distribuídos adequadamente, vão permitir que a gente traga esses crimes a patamares aceitáveis.

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