Daniela Matthes: Cuca - parte 2 - Cidades - O Sol Diário

Coluna28/08/2017 | 07h01

Daniela Matthes: Cuca - parte 2

Confira a coluna desta segunda-feira



Numa região em que ainda é comum encontrar pessoas falando alemão ou algum dialeto dele pelas ruas, talvez não traga muita novidade, mas, ainda assim, vale a nota. Nem sempre conseguimos afirmar com absoluta certeza fatos passados. A história, seja a oficial ou a que está na memória das pessoas, conduz a alguns entendimentos e parece ser esse o caso da explicação de como chegamos à palavra cuca.

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Kuchen, em alemão, é bolo. Na Alemanha, para pedir uma cuca é preciso usar a palavra Streuselkuchen. Streusel pode ser traduzido como a farofa que vai na cobertura. Como contou em sua coluna no Santa a colega jornalista blumenauense Ivana Ebel, que morou na Alemanha, as cucas de lá têm coberturas de ameixa, creme, queijo, damascos, pêssego, mirtilo, framboesa ou morango. Dizem ainda que por lá a cuca também é Blechkuchen, e que esta seria mais parecida com a que temos por aqui. Fato é que a cuca está aberta a mudanças e adaptações, como já percebemos.
De Kuchen ou Streuselkuchen até cuca foi um longo caminho. Possivelmente as corruptelas da língua levaram os descendentes das gerações seguintes dos imigrantes a mudarem, pouco a pouco, o jeito de pronunciar a palavra. O contato com brasileiros e pessoas de diferentes origens étnicas, o casamento e a junção de famílias de distintas ascendências também contribuíram para a formação do que se denomina Brasildeustch, o dialeto utilizado pelos descendentes brasileiros de imigrantes alemães. A cuca está presente em praticamente todas as regiões onde houve imigração alemã. Como aconteceu no Vale do Itajaí, a receita nestes lugares também passou por adaptações em vários sentidos, inclusive na designação. Em Curitiba e parte do Paraná, por exemplo, Streuselkuchen virou cuque.

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Até quase o fim da década de 1930 o ensino do alemão era regular nas escolas de Blumenau. Com o processo de nacionalização ocorrido entre o fim da década de 1930 até meados de 1940, muita coisa precisou mudar. A principal foi a suspensão do uso de outra língua que não fosse a portuguesa. Caso alguém fosse flagrado falando alemão, era considerado criminoso. Não são poucas as histórias de pessoas presas por falarem a única língua que sabiam. Oficialmente não há confirmação, mas é provável que este trecho da história tenha influenciado para que hoje cheguemos nas feiras e padarias em busca da cuca e não de uma Streuselkuchen. Este também é um fato que sofreu mudanças: quando se come a cuca.

Até meados das primeiras décadas do século 20, comer cuca era coisa para pouquíssimas vezes ao ano. Caso a família fosse residente da área rural e com menos recursos financeiros, o preparo e a degustação ficavam restritos ao dia de Natal. Em casos específicos também era possível tê-la à mesa, como no aniversário do patriarca ou alguma celebração religiosa. À medida em que a região foi mudando de perfil, como vimos no texto da semana passada, o consumo da cuca foi se tornando comum e habitual, do velório à festa de aniversário passando pelo coffee break na empresa. O que parece ter se mantido em relação à cuca, além do modo de fazer, é a coletividade em torno dela. Cuca não se come sozinho. Seja comendo com sorriso no rosto, empurrando alguma lágrima ou sujando a gravata. (Continua)

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