Educadores dizem que violência na escola é comum, mas Estado não tem registros - Cidades - O Sol Diário

Violência na escola26/08/2017 | 03h01Atualizada em 29/08/2017 | 14h27

Educadores dizem que violência na escola é comum, mas Estado não tem registros

Episódio que envolveu professora agredida em Indaial, resultou em boletim de ocorrência e pedido de internação provisório do agressor, é exceção à regra 

Educadores dizem que violência na escola é comum, mas Estado não tem registros Betina Humeres/Diário Catarinense
Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense

O episódio que envolveu a professora de língua portuguesa Marcia Friggi, 51 anos, em Indaial, na última semana é exceção à regra, quando se fala de violência no ambiente escolar. Após ser acertada no rosto pelo soco de um estudante de 15 anos no Centro de Educação de Jovens e Adultos, Marcia foi para a delegacia de Polícia Civil da cidade do Vale do Itajaí. Paralelamente ao registro do boletim de ocorrência _ que resultou no pedido de internação provisória do adolescente por 45 dias em um centro especializado para menores de idade e na continuidade da representação criminal do ato infracional _, ela compartilhou a própria história nas redes sociais, o que bastou para que o caso tivesse repercussão nacional.

Apesar de não haver estatísticas oficiais e, muitas vezes, ser invisível, esse tipo de conflito ocorre mais do que se imagina, afirmam educadores, mas raramente ultrapassa os muros das unidades de ensino. Nem mesmo quando o fluxo se dá de professor para aluno ou entre estudantes. Secretaria de Estado da Educação (SED), Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Estadual (Sinte-SC), Sindicato das Escolas Particulares de SC (Sinepe-SC) e Polícia Civil afirmam não dispor de números. A violência escolar é, portanto, um crime sem tamanho no Estado.

Estrutura precária favorece cenário

A menos de 100 quilômetros de onde Marcia foi agredida, o professor de história da rede estadual Jardel Gores, 32 anos, também comprovou há pouco mais de um mês a ocorrência de conflitos violentos em sala de aula. Após uma sequência de xingamentos lançados contra ele por um grupo de três alunos do 7º ano do ensino fundamental em Rio do Sul, o professor foi ameaçado de morte.

— A sociedade e a categoria dos professores estão tão fragmentadas que esse tipo de violência, na maioria das vezes, tende a ser amenizada. Mas, hoje em dia, é comum ver um professor chorando ao sair da sala de aula. Por muitos momentos, tenta-se remediar a situação na escola, conversar com pai ou aluno, mas há casos que a gente não consegue — analisa.

Antes de ter a vida ameaçada pelos estudantes, assim como a colega de Indaial, o professor tentou encaminhar os alunos à direção. Ao enxergar a fúria no olhar dos alunos, foi à polícia registrar o caso. Os envolvidos aguardam a audiência marcada para setembro, enquanto frequentam o mesmo espaço. Em vez de culpar os estudantes, Gores volta a crítica à precariedade estrutural das escolas catarinenses que, segundo o professor, propiciam esse ambiente hostil.

— A escola onde eu trabalho e outras da região sofreram enchentes nesses últimos anos. E a estrutura ficou muito complicada. Entendo que o aluno, nesse caso, é um problema, mas tão ou maior do que isso é o descaso com que a gente convive. Se a escola pública pudesse oferecer diferentes caminhos, talvez não se teria chegado a esse ponto — desabafa.

Ofensas verbais costumam preceder casos similares

O Sinte-SC corrobora com a visão do professor de Rio do Sul. Os representantes sindicais do magistério acreditam que a precarização do ensino, aliada à baixa remuneração dos docentes, está diretamente relacionada à violência no ambiente escolar. Como exemplo, citam a retirada de vigilantes de algumas unidades do Estado, além da pouca manutenção das câmeras de segurança.

Apesar de avaliar que os conflitos em sala de aula são frequentes e variados, o Sinte-SC acredita que o tipo de ocorrência mais comum relacionado a esse cenário seja a agressão verbal. Para que a violência não evolua para a agressão física, a recomendação é de que os professores registrem _ em diários de classe e em boletins de ocorrência na polícia _ a situação sofrida.

— Os professores sentem a necessidade que o poder público faça uma mediação, tenha profissionais capazes para lidar com esses jovens com problemas na família, problemas sociais anteriores. E eles recebem esses jovens assim, completamente despreparados, surpreendidos, porque não têm a formação de psicólogos, médicos ou assistentes sociais. Todo o problema social que existe é colocado para eles sem ter meios para contornar esses conflitos — afirma o advogado da professora Marcia Friggi, Marcos Palmeira.

Hoje, se um professor se sente lesado por uma situação de violência em sala de aula na rede estadual, restam duas opções: ser transferido para outra escola ou ser afastado por tempo indeterminado sem prejuízo salarial. No ano passado, 298 professores tiveram pedidos de remoção aceitos pela SED, que não sabe especificar os motivos dos remanejamentos.

A expulsão ou suspensão de alunos envolvidos em situações de violência na escola carecem de registro pela secretaria. Já o sindicato das escolas particulares acrescenta que "alunos indisciplinados não permanecem na escola particular". O Sinepe-SC não revela se houve demissões de professores que se envolveram em conflitos.

Leia também:
Secretaria de educação prevê implantação de sistema de registros de ocorrências online

Justiça determina internação de adolescente que agrediu professora em Indaial

"Quero mostrar para as pessoas que eu não sou um monstro", diz jovem que agrediu professora em SC

O Sol Diário
Busca
clicRBS
Nova busca - outros