O ciclo vicioso da droga em Santa Catarina - Cidades - O Sol Diário

Dia S22/08/2017 | 03h00Atualizada em 22/08/2017 | 03h00

O ciclo vicioso da droga em Santa Catarina

Quando um usuário compra o produto, dá início às fases do tráfico, que empodera criminosos, financia venda de armas e influencia no sistema prisional 

Diferentemente de uma cadeia produtiva tradicional, a de drogas envolve uma engrenagem criminosa na maioria das vezes puxada pelo maior financiador do tráfico: o usuário. Os R$ 50 usados para comprar 10 gramas de maconha se tornam R$ 200 em quatro vendas para financiar mais um quilo no Paraguai, maior fonte do produto trazido para Santa Catarina. Aqui, o quilo é vendido por até R$ 2 mil, conforme a disponibilidade ou composição do produto. 

O fluxo intenso de compra e venda de entorpecentes no Estado está representada nas apreensões ocorridas somente nos primeiros seis meses de 2017. Foram 42 toneladas de maconha, cocaína, crack e outros tipos retirados de circulação nas estradas federais catarinenses. O destino principal era o litoral. Somente de maconha foram 32 toneladas, o que representa R$ 32 milhões que deixaram de ser arrecadados por traficantes.

— O usuário financia todo esse sistema. É a lei da oferta e da procura: enquanto tiver gente para comprar, terá para vender — explica o delegado responsável pela Divisão Especializada de Combate ao Narcotráfico (Denarc) da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic), Pedro Henrique Mendes.

Antes desorganizado, o transporte de entorpecentes de países como Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia para Santa Catarina passou a ser sofisticado nos últimos anos. Os pequenos carros com 200 kg de droga foram substituídos por caminhões com toneladas e veículos batedores para burlar a fiscalização. E isso se deve ao envolvimento do crime organizado. 

Em SC, duas facções criminosas disputam espaço no tráfico, produto que financia as ações dos grupos. Responsável pela Delegacia de Combate às Drogas (Decod) da Capital, Attilio Guaspari Filho revela que com o lucro do comércio de entorpecentes são comprados diversos armamentos usados para proteger os pontos de venda, praticar assaltos e promover confrontos com facções rivais. O resultado está nas estatísticas da segurança pública catarinense: a apreensão de armas aumentou 132% entre 2010 e 2017. 

Entre janeiro e junho de 2010, foram apreendidas 76 pistolas. Este ano, no mesmo período, foram 389. No mercado negro, uma arma deste porte gira em torno de R$ 2,5 mil. Enquanto o fuzil, que teve 10 exemplares apreendidos no Estado neste ano, custa R$ 50 mil. 

O delegado da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Draco) da Deic, Antonio Claudio Seixas Joca, diz que há sete anos era apreendida uma pistola por mês no norte da Ilha. A quantidade cresceu consideravelmente: 

— O mercado da droga é rentável. Com isso, os traficantes comparam armas para fortalecer o poderio bélico e se defender com medo de perderem o ponto de venda.

Com os números do tráfico de drogas crescendo, o impacto atinge diretamente o sistema prisional. Estima-se que 75% do atual número de detentos de SC tenham sido presos por crimes ligados a entorpecentes. O secretário-adjunto de Justiça e Cidadania, Leandro Soares Lima, relata que esse perfil mudou. Na década de 1980, o maior percentual era ligado a assassinatos. Depois disso, os apenados que furtaram ou roubaram passaram a dominar o sistema, até serem ultrapassados pelos casos envolvendo tráfico.

Descriminalização da droga e consumo como problema de saúde pública

Com o consumo e tráfico enraizados na sociedade, o integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Elisandro Lotin, defende o tratamento como uma necessidade relacionada à saúde pública. O problema se torna de segurança, argumenta, quando é gerado o ciclo do crime:

— Precisamos mudar a visão e não só atuar com a repressão como forma de enfrentar esse problema. Droga é um problema de saúde pública, e é assim que o usuário precisa ser tratado. Há casos pelo mundo de redução de 30% no consumo quando os países começaram a cuidar como saúde pública.

Lotin acredita que o consumo deve ser regulamentado no Brasil. Com uma regulação, os traficantes deixam de existir, segundo ele. Enquanto isso não acontece, o integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública diz que quem paga o preço são policiais por enfrentarem a guerra diária nas ruas.

O coordenador estadual do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) da Polícia Militar (PM), major Reginaldo Rocha, concorda que o consumo deveria ser tratado como saúde pública. No entanto, é contra a regulamentação:

— Pouco se fala sobre prevenção e o que leva uma pessoa a usar entorpecentes. Para o usuário, a droga não faz mal, porque naquele momento ele vai preencher um vazio que tem nada vida. A droga sempre existiu e não vai ser a liberação que vai mudar alguma coisa.

Mesmo com a regulamentação, o major acredita que o traficante continuará existindo, como é atualmente com o cigarro, por exemplo, em que o contrabando existe para burlar produtos legalmente vendidos, com preços maiores. 

Foto: Arte / Diário Catarinense

Confira os gráficos sobre apreensão de armas, munições, drogas e drogas sintéticas em SC de 2010 a 2017


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