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Fasmando11/04/2013 | 16h45

Os três efes e as lições de Aníbal Damasceno Ferreira

Jornalista, roteirista e professor de cinema que morreu nesta quinta-feira concedeu raro depoimento a ZH em 2007

Os três efes e as lições de Aníbal Damasceno Ferreira Genaro Joner/Agencia RBS
Aníbal Damasceno Ferreira Foto: Genaro Joner / Agencia RBS

O texto abaixo foi publicado junto ao material sobre o longa-metragem gaúcho 3 Efes (2007), quando da sua estreia. Dirigido por Carlos Gerbase, o filme foi inspirado em uma teoria do professor Aníbal Damasceno Ferreira, que morreu nesta quinta-feira aos 80 anos. Foi uma das raras ocasiões em que Aníbal concedeu entrevista – de maneira um tanto relutante, como você pode ler abaixo:

A volta do diretor Carlos Gerbase às origens – ou aos longas de baixo orçamento como Inverno (1983) e Verdes Anos (1984) – implicou em seu retorno aos filmes sem grandes estrelas. Mas seria incorreto dizer que em 3 Efes, em cartaz a partir de amanhã, não desponta um astro do cinema local. E isso que ele só aparece na primeira cena do filme. Na qual entra calado e da qual sai sem dizer sequer uma palavra.

Aníbal Damasceno Ferreira é jornalista, roteirista e professor de cinema aposentado. Em suas aulas na PUCRS, passou décadas transmitindo aos alunos, Gerbase entre eles, uma tese segundo a qual as pessoas são instigadas por três apetites básicos: a fome, o sexo e o fasma – sendo essa última uma palavra de origem grega que quer dizer representação. Até que, certa vez, um gaiato sugeriu, lá do fundo da sala de aula, que se substituísse o sexo por aquele sinônimo que começa com a letra efe, podendo assim chamar a tal tese de “teoria dos três efes”.

A história virou anedota e, na forma de homenagem ao mestre, o ponto de partida do novo filme do cineasta. Aníbal é como o professor Valadares, nome do personagem que aparece no início de 3 Efes: tranquilo, discreto e um sujeito de largo conhecimento – não por acaso ele surge numa biblioteca. Natural de Erechim, apaixonado por cinema desde criança, chegou a construir um projetor com o qual fazia a diversão de amigos e familiares.

– Isso era coisa do meu irmão, que gostava de construir coisas – ele desconversa. – Um funileiro nos ajudou – prossegue, já voltando a usar a primeira pessoa do plural. – O projetor era feito com um cilindro de lata e lupas daquelas que vinham de brinde quando a gente comprava medicamentos nas farmácias de antigamente, sabe?

Em Porto Alegre, além de se dedicar a escrever, Aníbal exercitou outra de suas paixões: o trabalho no rádio. Queria fazer reportagens, ser locutor. Mas não tinha a voz aveludada que noutros tempos era requisito mínimo para isso. Acabou, então, iniciando a carreira como operador da rádio da UFRGS. Não demorou muito, porém, e ele já estava na Farroupilha. E no Clarín, depois na Folha da Tarde e n’A Hora, escrevendo colunas como Idioms Are a Pushover (algo como “expressões idiomáticas são uma barbada”), em que usava notícias do dia para explicar o significado de determinadas expressões.

– Essa coluna, como algumas outras, era escrita sob pseudônimo. Nesse caso, achei que, se não assinasse com um nome inglês, não transmitiria credibilidade – explica.

Mary Parker foi outra pequena lenda de Aníbal. Por anos circulou em rodas de conversa boatos de quem seria a tal colunista e, mais importante que isso, quem, entre seus colegas de redação, teria conseguido conquistá-la. Daí a roteirizar documentários e cinejornais de produtoras como a Leopoldis Som e a Interfilms também foi rápido.

No início da década de 1970, época de ouro do chamado “ciclo do cinema de bombachas”, Aníbal escreveu três longas, Motorista sem Limites e Teixeirinha a Sete Provas, ambos estrelados pelo autor de Gaúcho de Passo Fundo, e Gaudêncio – Centauro dos Pampas, com Paulo José, Dina Sfat e José Lewgoy. Mas o feito do qual ele mais se orgulha, ainda que daquele seu jeito quieto, sem alarde, foi um episódio envolvendo Qorpo Santo.

– Poucos sabiam quem ele era. Até que, numa época em que passei longo tempo no hospital, lendo muito, deparei com um artigo que o citava. Fui atrás da obra dele e dei de cara com algo impactante. E resolvi propor ao Antônio Carlos Senna, com quem eu já havia trabalhado, que montasse seus espetáculos. Fizemos, juntos, três peças. Quando as levamos ao Rio, o crítico Yan Michalski assistiu e escreveu algo como: os compêndios sobre a história do teatro brasileiro, que em sua grande maioria ignoram Qorpo Santo, um dos precursores do teatro do absurdo, justamente por isso, estão todos obsoletos.

Discretamente, como não podia ser diferente, depois de conceder esta entrevista, Aníbal voltou e pediu para que a matéria citasse aquilo que o repórter bem entendesse. Mas nada entre aspas, como se estivesse saindo de sua boca. Disse preferir que, em vez dele, os outros falassem.

– 3 Efes, o filme, nem é meu. Deixa o Gerbase e o restante do pessoal falar. Fico muito honrado com tudo, mas o longa é deles. Deixa eles falarem.

O autor do texto, no entanto, como seu ex-aluno e verdadeiro discípulo, resolveu fasmar.

SEGUNDO CADERNO

 

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