Neto de Joan Miró fala da magia de um dos artistas mais influentes do século 20 - Diversão & Estilo - O Sol Diário
 
 

Miró em Florianópolis11/09/2015 | 10h28Atualizada em 11/09/2015 | 13h23

Neto de Joan Miró fala da magia de um dos artistas mais influentes do século 20

Joan Punyet Miró veio a Florianópolis para abertura da exposição "A Força da Magia", no Masc. Em entrevista, contou da relação do catalão com o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto

Neto de Joan Miró fala da magia de um dos artistas mais influentes do século 20 DIORGENES PANDINI/AGENCIA RBS
Memória - Neto de Miró conta que na intimidade seu avô era introspectivo Foto: DIORGENES PANDINI / AGENCIA RBS

O poeta João Cabral de Melo Neto dizia que a arte de Miró (1893 - 1983) era viva e mágica. A relação do brasileiro com o catalão foi lembrada pelo neto do artista, Joan Punyet Miró, que fez questão de vir a Florianópolis para a exposição Joan Miró - A Força da Matéria, cuja abertura ocorre sexta (11) para convidados e sábado (12) para visitação pública no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc). É a maior mostra no Brasil dedicada ao surrealista.

Sete falas do neto de Miró que ajudam a entender a obra do artista
Exposição é gratuita, com distribuição de senhas 

Ele tinha 15 anos quando o avô morreu e desde então dedica-se a estudar, divulgar e escrever sobre sua obra. É uma figura bem humorada e performática, que fala com paixão do legado de Miró. Tem intimidade com cada trabalho, inclusive aqueles que de certa forma contribuiu, como esculturas em bronze feitas a partir de seus brinquedos.

- Quando falo do meu avô, falo de magia, de luz e de surrealismo. Ele me ensinou sobre pinturas, esculturas e desenhos. Mas sobretudo mostrou, através de seu coração, a magia do mundo - diz.

Confira trechos da entrevista:

VOCAÇÃO ESPIRITUAL PARA A ARTE

Quando vivo, meu avô me mostrava seu ateliê, os livros de poesia francesa que lia, a música que escutava, como trabalhava. Acima de tudo me ensinava a ser uma pessoa boa. Ele explicava as coisas com muita pureza e certeza. Como neto dele, entendo a importância de um artista. Um artista não é um banqueiro ou um médico. Um artista é especial porque nasce para morrer pintando. A única coisa que importava para meu avô era trabalhar. Ele nunca quis parar, porque senão morreria. Era uma espécie de vocação espiritual para fazer arte.

DESENHOS DE CRIANÇA

Ele não me ensinou a pintar, mas gostava dos meus desenhos. Porque eram de criança, não educada na academia. As crianças desenham com o coração e a alma, com o instinto básico, puro e primitivo. E isso era o que mais ele gostava.

GÊNIO DA PINTURA EM CASA

Uma vez o rei da Espanha, João Carlos I, foi visitar meu avô em seu ateliê em Maiorca. E depois vi fotos deles em toda a imprensa. Comecei a entender a importância dele. Eu via fotografado com as pessoas mais importantes do momento, além de sua relação com o mundo inteiro, porque Miró é um pintor universal. Para mim foi uma revolução pessoal entender a importância dele.

ARTISTA CALADO

Muita gente acha que Miró bebia, fumava maconha ou usava mescalina. Não, nada disso. Ele era uma pessoa calada. Não estava nunca em seu lugar, mas sempre viajando nas nuvens. Quando se estava com ele, era impossível saber se ele escutava ou não. Buscava a criatividade no silêncio e na introspecção. Não tinha muitas mulheres, como Picasso. Só teve uma filha e quatro netos. E lembro de estar sempre com a gente e com minha avó. Todo o erotismo que se vê em suas obras, como falos de homens e seios de mulheres, talvez fosse uma forma inconsciente de suprir o que não tinha.

MIRÓ E JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Miró nunca veio ao Brasil, mas tinha uma relação de amizade com João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999). Em 1950, o brasileiro publicou livro sobre ele e a partir daí entendi a ligação entre os dois, inclusive geográfica: João Cabral era de Pernambuco, Miró de Tarragona, na Catalunha, uma terra muito parecida com a do Estado nordestino. E aí se vê a ligação entre Brasil e Espanha. Os textos de João Cabral sobre Miró falam da magia do surrealismo, e também como Miró rompeu com os cânones de beleza do renascimento italiano, fazendo uma pintura antigramatical e revolucionária ao buscar a pureza do homem primitivo, das cavernas.

SÍMBOLOS MÁGICOS E A MULHER

Para Miró, a mulher é uma figura fundamental em toda a sua obra. Está refletida como a deusa da fertilidade, da vida. A um nível mais universal e também do ponto de vista plástico, Miró a define como um ser-talismã. Por isso o sexo da mulher aparece em toda a sua obra, por toda a vida. E aparece como uma flor aberta que se aproxima ao mundo da criação e da fertilidade. Essa crença de Miró é mística e totalmente poética também, vendo a mulher como um ícone universal da vida e da morte, do dia e da noite, do sol e da lua. Com todos os seus fatores positivos e negativos.

PINTOR DOS SONHOS

A luz da noite para Miró era fundamental. Por que pintava tantas estrelas? Porque era um pintor de sonhos, do mundo onírico. Ele dizia que trabalhava mais dormindo na cama do que acordado. Porque à noite viajava em seu mundo dos sonhos e via formas, mulheres, estrelas, sóis e luas. Quando acordava, como dizia João Cabral de Melo Neto, Miró não pintava quadros. Ele pintava. Ponto final. A mão era livre, emancipada do pintor, autônoma. E através do surrealismo puro, da autonomia, podia exercer uma liberdade máxima. A pintura era direta do coração, não passava pela cabeça.

ARTISTA PANTEÍSTA

Miró era conectado com o céu e a terra. Tinha uma religião universal, influenciado pelo budismo japonês e o cristianismo. Sobretudo, tinha a crença da poética universal, em que todos os seres do universo eram iguais.

O LEGADO DE MIRÓ

Mais que um artista, Miró era um cidadão do mundo. Nasceu pobre e depois seus quadros valiam milhares de euros. Esse dinheiro foi usado para criar a Fundação Miró de Barcelona, a Fundação Miró de Maiorca e a dar toda a sua obra a museus. Ele entendia que um homem não é nada, mas a obra é tudo. Por isso Miró está vivo em todo o mundo.

AGENDE-SE

O quê
: exposição Joan Miró - A Força da Matéria
Quando: quarta e quinta, às 19h, apenas para convidados. Visitação do dia 12/9 a 15/11, de terça sábado, das 10h às 20h30min; domingos e feriados, das 10h às 19h30min
Onde: Museu de Arte de Santa Catarina - Masc, no CIC (Avenida Gov. Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Florianópolis)
Quanto: gratuito (distribuição de senhas diariamente 30 minutos antes de cada turno de visitação)

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