Perfil: Julian Gallasch, a revelação da arte catarinense  - Diversão & Estilo - O Sol Diário
 
 

Donna+11/03/2016 | 15h54Atualizada em 11/03/2016 | 16h55

Perfil: Julian Gallasch, a revelação da arte catarinense 

Como o artista conquista marcas e o público com seus traços brutos e formas geométricas

Por Fernanda Volkerling

Foto: Felipe Carneiro / Agência RBS

Na vida de Julian Gallasch, a arte representa uma atividade profissional no sentido menos romântico, e mais mercadológico, do termo: se a demanda impulsiona a oferta, a oferta também precisa atender à demanda; prazos devem ser cumpridos e o preço do produto serve não apenas ao lucro, mas também à função de regular o volume de encomendas. É esta lógica, aplicada à porção criativa do trabalho, que ele utiliza para tocar sua produção de pinturas e desenhos quase como uma pequena empresa – e, se este fosse um caderno de economia, os resultados poderiam virar case de sucesso. 

Foto: Arquivo Pessoal / Julian Gallasch

Há alguns meses, Julian largou o emprego de ilustrador na Dudalina, em Blumenau, onde já estava há oito anos, para viver exclusivamente das pinturas, que até então dividiam seu tempo com o emprego formal na camisaria. Neste curto período de tempo, ele já mal consegue dar conta dos pedidos que se acumulam: no momento, são 21 telas na fila para serem produzidas, emolduradas e entregues, ao preço de R$ 2 mil o metro quadrado. 

Leia também:
Roteiro mapeia arte de rua em Paris  
Ícone da arquitetura modernista, Gaudí terá obras expostas em SC    

O contato com o universo da arquitetura e da decoração foi a chave para que Julian caísse nas graças de um público disposto a investir em peças únicas para ornamentar residências e escritórios. Com algumas exposições realizadas em espaços mais voltados ao lado pop da arte, como shopping centers, e participação em importantes eventos de design de interiores, como a Casa Cor São Paulo, o artista foi parar em dezenas de apartamentos, com cerca de 60 telas vendidas até o momento. 

– O mercado de arte voltado para a decoração é muito limitado, no sentido do que está disponível hoje. Você vai na loja e encontra uma impressão que custa uma fortuna, e os arquitetos querem novidade. Então se você oferece uma tela sob medida, com um estilo mais moderno, os profissionais querem usar, até para agregar valor – afirma Gallasch. 

Fora do design de interiores, seu nome já esteve ao lado de grandes marcas e estilistas internacionalmente conhecidos como Diesel, Jum Nakao, Mario Queiroz e Sommer, com quem realizou parcerias profissionais. Também teve seus trabalhos publicados nas revistas Rolling Stone e Época, e já realizou mais de 10 exposições de obras. Atualmente ele recebe em média cinco novos contatos todos os dias de pessoas pedindo orçamentos e informações sobre as telas – nem todos chegam a concluir a compra, claro, mas a tendência é que esse número aumente bastante até o final do ano.

Artista da Moda

Foto: Arquivo Pessoal / Julian Gallasch

– Foi bom ter marcado a conversa aqui em casa, porque assim pelo menos eu me obriguei a dar uma ajeitada nas coisas – revela Julian, rindo. 

Mas a imagem estereotipada do artista como uma pessoa excêntrica que habita ambientes caóticos e se dedica a criar em momentos de inspiração quase hipnótica não tem nada a ver com o Julian que abre a porta de um apartamento novo em folha no bairro do Itacorubi, em Florianópolis, para onde se mudou recentemente com a mulher, Lilia Trizotto, formada em moda e também artista visual. 

Na verdade, Julian chega a transparecer algo de tímido e quase desconfortável em ter que responder a tantas perguntas sobre si – bem diferente de alguns personagens midiáticos, que costumam chegar às entrevistas com uma narrativa pré-moldada. 

Foto: Julian Gallasch / Arquivo Pessoal

No ambiente da residência reservado para produzir as telas, um aglomerado de latas coloridas e alguns borrões de tinta na parede são tudo o que se pode notar de inusitado. A sala do apartamento também contém poucos indícios de que ali viva um artista, a não ser por três quadros encostados na parede atrás do sofá: uma colagem feita durante uma visita recente aos pais, na Alemanha, usando recortes de materiais que ele recolheu naquele país; uma pintura de flores, de autoria da esposa; e um retrato em tinta que poderia ser o próprio Julian e que ele não pretende vender. 

Na rotina de produção, cada cliente que encomenda uma tela ganha uma pasta no computador de Gallasch, onde ele guarda a foto que servirá de modelo para o retrato, os dados do comprador e algumas anotações sobre o pedido. Seu horário preferido para pintar é durante a manhã, e cada tela leva cerca de dois dias para ficar pronta. 

Foto: Felipe Carneiro / Agência RBS

Foram duas experiências marcantes no mundo da moda que renderam a Julian um senso estético expressivo mas também atrelado a uma rotina bastante realista, e até mesmo metódica, no que diz respeito à produção. Uma delas foi a passagem pela Dudalina, onde aprendeu a entender o público-alvo de um trabalho, a organização de uma empresa e a execução dos produtos. A outra foi há mais de 10 anos, na marca de roupas Guga Kuerten. 

– Houve um investimento gigante na marca, estávamos fazendo roupas maravilhosas, mas muito caras e que se dirigiam a 5% do público. Não deu certo. A Dudalina agrada 95% do público – compara ele.

Os dois lados da moeda

Como acontece com todo artista de foco mais comercial que começa a despontar no mercado – e ele não se esquiva de assumir tal característica, pelo menos por enquanto – o trabalho de Julian também começa a ganhar ares de ¿marca registrada¿. 

Foto: Reprodução

No caso dele, apesar de também desenvolver desenhos com caneta e trabalhados em madeira recortada a laser, são os retratos com pinceladas longas e formas geométricas, em cores vivas ou em tons de cinza, que já se tornam os mais associados ao seu nome – e também os mais pedidos pelos clientes. Basta colocar o nome do artista no Google para ver surgirem centenas de imagens características dessa mesma série. Para o designer Sávio Abi-Zaid, amigo de Julian e admirador de seu trabalho há pelo menos três anos, o que chama a atenção são as formas quase brutas que acabam por formar retratos cheios de expressividade. 

– Ele constrói os rostos com espatuladas, manchas, pequenos traços. Particularmente prefiro as versões monocromáticas, com preto, branco e cinza. Acho que, tirando a cor, o retrato ganha um peso extra, uma outra força – descreve Abi-Zaid, que possui uma obra de Gallasch em casa. 

Foto: Arquivo Pessoal

A técnica e o resultado gráfico final desses retratos são uma mistura de influências: do grafite às ilustrações de moda, passando pelo design e pela própria pintura. Gallasch, no entanto, tem receio de que o sucesso de uma fórmula hoje se torne a prisão do artista amanhã.

– Estou querendo ver se ainda esse ano começo a parar de produzir tanto sob encomenda e dedico um tempo para criar algo novo para as pessoas perceberem que talvez queiram aquela novidade.

O Sol Diário
Busca