Amor em dobro: O Dia dos Pais das crianças que vivem em lares homoafetivos - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Data especial13/08/2016 | 08h04

Amor em dobro: O Dia dos Pais das crianças que vivem em lares homoafetivos

Entre histórias de lutas e perdas, eles comemoram a formação de famílias completas

Amor em dobro: O Dia dos Pais das crianças que vivem em lares homoafetivos Maykon Lammerhirt/Agencia RBS
Valentina e Isabel ganharam uma família com Norberto e Roberto Foto: Maykon Lammerhirt / Agencia RBS
Cláudia Morriesen

claudia.morriesen@an.com.br

Neste fim de semana, quando milhares de famílias estarão celebrando o Dia dos Pais, diferentes histórias estarão vivendo mais um capítulo de amor e companheirismo. Na casa das família Raitz Martins e Rovigo Rios estão algumas delas, com uma conta a mais: um pai mais um pai é igual a carinho duplicado.   

A primeira história começou com Morgana. Foi ela quem, em 2006, gerou e carregou no ventre um menino que viria ao mundo nos primeiros dias do ano seguinte. Ainda não era hora, mas Nérfen precisava deixar o corpo da mãe para que ela, enfraquecida por um Linfoma de Hodgkin, desse início às sessões de quimioterapia. Elas durariam todo o primeiro ano do bebê que, passou os primeiros 22 dias de vida na UTI neonatal.

No 21º dia, com a autorização do hospital, Morgana pode levar o menino até a porta da UTI para que a família o visse pela primeira vez. Foi quando ele abriu os olhos, apenas uma vez, antes de voltar a dormir, e encarou Jonas Raitz.

Jonas não entrava na história ali. Durante toda a gravidez da irmã mais nova, ele havia participado ativamente de exames e planos.

— Morgana engravidou em meio à efervescência artística em que viviamos. Nós sempre fomos muito próximos e eu fiquei "grávido" junto — recorda ele — Mas quando o Néfer abriu aquele olhão escuro pra mim, foi estabelecida nossa conexão.

Dramaturga, diretora e atriz, Morgana era referência nas artes cênicas de Joinville, apesar da juventude. Jonas dividia com ela a paixão pelas artes, atuando também como produtor e ator. Por isso, mesmo que naquele primeiro ano o pai biológico de Nérfen ainda vivesse com a família Raitz, Jonas assumiu o papel com mais intensidade.

Era no peito dele que o menino dormia, na posição canguru, e era ali que crescia na mesma proporção do amor. Quando aprendeu as primeiras palavras, já com os pais vivendo separadamente, Jonas não era mais tio: o título de pai partiu do pequeno, que nunca o chamou de outro jeito.

— Eu sempre tive vontade de ser pai, mas desde cedo sabia que nunca casaria com uma mulher e que não poderia ter um filho biológico. Mas já tinha esse sentimento de paternidade mesmo com a Morgana, de cuidar dela assim — afirma ele.

O primeiro diagnóstico de câncer da irmã veio depois que Jonas estranhou um inchaço na coluna da única menina da família. Ela tinha 17 anos e, nos 12 anos seguintes, vivenciaria outros diagnósticos, até que a leucemia a levou para o céu. É assim que Nérfen explica o lugar onde a mãe está, "vivendo entre as estrelas", como ela mesma ensinou a ele, e que agora ele tem dois pais. Morgana refletiu a luz, e Jonas se encarregou de continuar mantendo.

— Minha irmã conversava muito com ele sobre a morte, o que me deixava bravo, porque eu não queria aceitar que aconteceria. Quando ela morreu, foi ele que me disse que estaria bem, porque foi assim que ela ensinou pra ele.

Há dois anos, Telmo Martins entrou na história. Foi aos poucos, à medida que namorava Jonas, que também conhecia o amor de pai. Como uma grande família, Nérfen, Jonas e Telmo agora moram com os pais de Jonas, e dividem os cuidados com o garoto de nove anos. Enquanto Jonas geralmente tem as manhãs livres, almoça com o filho e o prepara para a escola; à noite, quando vai para a faculdade, é Telmo quem fica responsável pelas tarefas escolares e a preparação para dormir. Em meio a tudo isso, de vez em quando o menino traz recordações da vida da mãe.

— Nós estamos sempre estimulando as lembranças, para que não se percam. E, às vezes, é ele quem as traz, garantindo que elas fiquem na nossa memória também — diz Jonas.

Longo caminho para casa

— Vocês é que serão nossos dois pais?

A frase, dita com a espontaneidade de quem ainda não havia tido contato com as convenções da sociedade, representa o início da família Rovigo Rios. Agarrada ao trinco da porta, Isabel não passava de um bebê que ainda aprendia a falar quando viu chegar, ansiosa, Norberto Rios e Roberto Rovigo.

Era a primeira vez que um casal formado por pai e pai chegava ao abrigo de Jaraguá do Sul para dar início a um processo de adoção. Quase sete anos depois, a caçula da família abraça Norberto e o olha com carinho enquanto escuta a história do dia em que eles foram apresentados a ela e à irmã, Valentina, então com sete anos.

— O pessoal do abrigo havia conversado com elas, explicando que seriam dois pais, feito acompanhamento psicológico, então elas estavam preparadas — conta Roberto.

Norberto e Roberto, juntos desde 2003, já haviam trilhado um longo caminho para chegar até ali. Prontos para formar uma família a partir do amor que sentiam um pelo outro, decidiram fazer a inscrição como pretendes à adoção. Depois de passar pelas primeiras etapas, foram tirados da fila e precisaram buscar um advogado para fazer o pedido de retorno ao cadastro.

— O argumento do promotor era que duas crianças tendo dois pais poderia afetá-las com o preconceito — explica Norberto.

Foi apenas em março do ano passado que o Superior Tribunal Federal (STF) reconheceu pela primeira vez a adoção de um casal homossexual. Antes disso, ela dependia da interpretação do juiz estabelecido para o caso — o que, por muitas vezes, bateu na trave do preconceito do avaliador — já que a Constituição Federal não distingue entre a família formada por sujeitos heteroafetivos e homoafetivos.

Por isso, quando Norberto e Roberto entraram com o pedido de adoção, na década passada, não havia jurisprudência em Santa Catarina. Eles foram pioneiros — provavelmente, os primeiros homens do Estado a adotarem juntos.

Naquele primeiro encontro, quando Isabel abriu a porta, Valentina ainda não tinha tanta certeza sobre a saída do abrigo para uma nova casa. No entanto, as primeiras lembranças são afáveis.

— Eles trouxeram docinhos para a gente, e um ursinho que eu guardo até hoje. Eu nunca tinha ganhado um urso ou uma boneca — recorda a menina, hoje com 13 anos.

Dois meses depois, Norberto, Roberto, Valentina e Isabel tornaram-se uma família. A adaptação não foi diferente daquela vivida em qualquer casa, com filhos adotivos ou não: Norberto lembra de ter montado o quartos das meninas três vezes antes de elas chegaram e de ter lido, ao lado de Roberto, livros sobre a criação de crianças.

— Diziam que filhos adotivos podiam vir com vários problemas, mas não tivemos nenhum que não pudesse acontecer com qualquer criança: estabelecer rotina, com horário para fazer lição e para dormir, por exemplo — avalia ele. 

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