"Último tango em Paris" segue provocando debate 44 anos depois  - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Polêmica06/12/2016 | 13h41Atualizada em 07/12/2016 | 11h44

"Último tango em Paris" segue provocando debate 44 anos depois 

Declaração do diretor Bernardo Bertolucci sobre famosa cena da manteiga é tema de discussões e reações entre quem viu e não viu o filme

"Último tango em Paris" segue provocando debate 44 anos depois  warner/Divulgação
Marlon Brando e Maria Schneider em "Último tango em Paris" Foto: warner / Divulgação

Um dos mais controversos e aclamados filmes da história do cinema, Último tango em Paris (1972) voltou a ser assunto nos últimos dias em razão de declarações que seu diretor, Bernardo Bertolucci, deu em 2013 e que ressurgiram no YouTube em pelo menos dois vídeos – um deles, de maior repercussão, foi divulgado pela ONG espanhola El Mundo de Alycia, pouco antes do Dia Internacional Contra a Violência de Gênero (25 de novembro).

A razão da polêmica está no comentário do cineasta italiano sobre a famosa "cena da manteiga", na qual o personagem de Marlon Brando (1924 – 2004), então com 48 anos, sodomiza a jovem interpretada por Maria Schneider (1952 – 2011), com 19. Bertolucci afirma no depoimento não se arrepender da decisão no set: "Não disse a ela o que estava acontecendo porque queria sua reação como uma garota e não como uma atriz. Sinto-me culpado, mas não me arrependo. Não queria que Maria interpretasse a raiva e a humilhação; queria que sentisse a raiva e humilhação".

Bernardo Bertolucci reage à polêmica sobre cena de "Último tango em Paris"

Amplificada nas redes sociais, a fala de Bertolucci de três anos atrás fez eco em Hollywood. Atrizes como Jessica Chastain, Anna Kendrick e Evan Rachel Wood, entre outras, manifestaram indignação com a postura abusiva do cineasta e também de Brando — foi até iniciada uma campanha para que a Academia de Hollywood condene publicamente o diretor.

Diante da repercussão negativa, Bertolucci declarou na segunda-feira que foi mal interpretado e que Maria sabia, sim, da cena, mas não da manteiga como elemento surpresa. A emenda não surtiu muito efeito. Jogou gasolina na fogueira de um antigo debate, que remete aos primórdios do cinema: a relação de poder entre um diretor tirano e seu elenco, em especial as mulheres. Desde D.W. Griffith, no começo do século 20, muitos clássicos têm a assinatura de realizadores misóginos, racistas e sádicos crentes no vale-tudo em favor da arte.

O cinema também é um produto de seu tempo. Seu DNA traz costumes e convenções da sociedade que espelha. Se a atriz Tippi Hedren teve de suportar o assédio de Alfred Hitchcock porque o machismo e a objetificação da mulher faziam parte da engrenagem do star system de então, as intérpretes de Azul é a cor mais quente botaram a boca no trombone recentemente ao se sentirem violadas pelo diretor do filme, porque esse modelo de relação passou a ser inadmissível. A citação à manteiga de Último tango em Paris, vale lembrar, foi motivo de paródia em Os trapalhões, gracinha que hoje dificilmente iria ao ar em horário nobre na televisão.

Filme é cria do clima libertário da época

Maria Schneider já havia dito que a cena, que dura dois minutos e 30 segundos, não estava prevista no roteiro e que se sentiu coagida a fazê-la. Em entrevista ao jornal britânico Daily Mail em 2007, por ocasião do relançamento de Último tango em Paris nos cinemas, a atriz reforçou que sentiu-se humilhada e estuprada por Brando e Bertolucci: "Marlon disse: 'Não se preocupe, é apenas um filme'. Mesmo que (o sexo) não fosse real, eu estava chorando lágrimas de verdade". A atriz deixou claro que não houve penetração, como versões sensacionalistas do episódio consagraram – o que não arrefece a brutalidade do ato. Ela morreu praguejando Bertolucci como gângster e cafetão.

Mas em diferentes entrevistas que concedeu nos anos 1970, no embalo do sucesso do filme e emendando um outro grande trabalho, Profissão: Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni, ao lado de Jack Nicholson, Maria falava com carinho e respeito de Brando e suas queixas a Bertolucci eram de outra ordem. Duas dessas entrevistas da atriz foram ao The New York Times, em 1973, e ao respeitado crítico americano Roger Ebert, em 1975. Na do NYT, por exemplo, diz que ficou incomodada com a submissão da sua personagem a "pedidos degradantes" e pensou que Bertolucci devia odiar as mulheres. Mas destacava não achar que o filme rebaixava as mulheres, pois é sua personagem quem dá o rumo da relação ao rejeitar o amante e os planos dele de casamento e filhos.

Último tango em Paris é cria do clima libertário da época em que foi feito, sob as cinzas politizadas do Maio de 1968 e da revolução sexual. Em seu roteiro, Bertolucci contou com a colaboração de uma mulher, a cineasta Agnès Varda. É de outra mulher, a referencial crítica Pauline Kael uma das mais entusiasmadas avaliações do filme: "Bertolucci usou o sexo para manifestar os impulsos dos personagens (...) e a ameaça física de sexualidade emocionalmente carregada é um afastamento de tudo o que plateias passaram a esperar no cinema".

Pauline sintetiza o que é o cerne de Último tango em Paris, proibido pela censura no Brasil e liberado apenas em 1979. Esse denso drama erótico-psicológico enreda na capital francesa os personagens de Brando, viúvo americano deprimido pelo suicídio da mulher, e Maria, jovem que ele conhece procurando um apartamento para alugar. Estabelecem uma convivência sustentada em muito sexo sem compromisso e sem paixão, estimulado pelo impulso – e a cena famosa é uma entre várias. O que pulsa na tela é a catarse emocional dos personagens. Ele representa um americano decrépito. Ela é exemplo de vivacidade e livre-arbítrio, que encontra na figura patriarcal do estrangeiro um novo vértice para o namoro que parece morno com um cineasta.  
Brando também reclamou de Bertolucci

Marlon Brando, que recém havia estrelado o sucesso O poderoso chefão, estava praticamente falido em razão dos desajustes de sua vida pessoal. Aceitou fazer Último tango em Paris como acordo para evitar um processo milionário que lhe movia o produtor italiano do longa, Alberto Grimaldi. A temporada na Europa também dava ao ator a providencial distância dos problemas judiciais e policiais com suas ex-mulheres nos EUA. Adorava Paris, onde viviam muitos amigos, companheiros de memoráveis noitadas nos intervalos das filmagens.     

No set, Brando justificou sua fama de indomável. Sem dar pelota para o roteiro, lançou mão de muito improviso. É num deles que fala de episódios reais de sua juventude, como os traumas relacionados à mãe alcoólatra que um dia foi arrastada nua para a prisão e ao pai ausente que dedicava seu tempo às prostitutas e às brigas nos bares. Também Brando, posteriormente, reclamou que Bertolucci o expôs em demasia – talvez esquecendo a briga que teve com Truman Capote quando o escritor revelou isso em um perfil seu de 1956. Costuma desdenhar Último tango em Paris  dizendo não saber bem sobre o que era o filme: "É uma sessão de terapia do Bertolucci".

Cabe destacar ainda, sobretudo a quem, sem assistir ao filme, engrossa o coro dos indignados, que, na cena da manteiga, a brutalidade cênica do ato ilustra uma fala do ator sobre o que julga ser os valores da família, "instituição sagrada, mundo controlado pela repressão, no qual crianças são torturadas até dizerem a primeira mentira e a liberdade é assassinada pelo egoísmo". Violento e profano, mais do que erótico.

Diretor de atrizes como Maitê Proença (em Tolerância) e Camila Pitanga (em Sal de prata) e professor de cinema, Carlos Gerbase destaca, em entrevista por e-mail, reforçando uma postagem em seu perfil no Facebook:

– Suprimir ensaios de cenas difíceis (do ponto de vista emocional) para obter maior "frescor" na atuação sempre me pareceu um indício de que: (1) a direção não confia no ator/atriz; (2) a direção está sendo desonesta sobre o que estará no filme. Considero o elenco parte importante do núcleo criativo do projeto. Atores e atrizes devem saber o que será feito e contribuir para isso. São marionetes, mas precisam ser conscientes do que fazem e devem confiar em quem comanda os fios. Devem sugerir melhores maneiras de atuar. E devem impor limites para o que aceitam ou não fazer. Se Maria Schneider não sabia a ação que a esperava, foi manipulada de forma antiética. Se Bertolucci e Brando usaram um truque baixo (não revelar o que fariam), estavam errados, mesmo que não tenha acontecido sexo "de verdade". Fazemos cinema para "enganar eles" (os espectadores), e não para enganar colegas de profissão. O bom resultado estético não justifica maltratar quem quer que seja.

Outro filmes marcados pela tensão entre diretor e elenco 

A paixão de Joana d'Arc (1928)

Em seu único trabalho como protagonista no cinema, a atriz de teatro francesa Maria Falconetti (1892-1946) encarnou a jovem mártir queimada viva na fogueira. A obra-prima de Carl Dreyer é iluminada pelo expressivo rosto de Falconetti capturado em vigorosos closes – para muitos críticos, é a maior atuação feminina de todos os tempos. A mitologia em torno do filme indica que, para alcançar o registro dramático pretendido, o diretor dinamarquês submeteu Falconetti a um calvário físico e emocional como o enfrentado pela personagem ao longo de seu julgamento e execução, razão de um colapso nervoso que levou Falconetti a nunca mais atuar em um filme. Biógrafos de Dreyer, no entanto, refutam essa informação.

Ladrões de bicicleta (1948)

O clássico do neorrealismo italiano assinado por Vittorio De Sica tem como um dos destaques a atuação do menino Enzo Staiola. Na trama, o personagem do garoto ajuda seu pai a procurar a bicicleta roubada, usada para o sustento da família. Lidando com um elenco amador, o cineasta fez uso com Staiola de um expediente pouco ortodoxo. Querendo que ele chorasse em uma cena emblemática, o diretor pediu para esconderem cigarros no bolso do guri, que, acusado de roubo, caiu em prantos enquanto a câmera rodava. Esse episódio é lembrado em uma homenagem que o diretor Ettore Scola presta a De Sica em Nós que nos amávamos tanto (1974).

Os pássaros (1963)

Alfred Hitchcock tinha fama de manter um relacionamento possessivo com suas musas. Uma delas, Tippi Hedren, acusou-o em sua autobiografia de agressão sexual e psicológica. No primeiro filme que fizeram juntos, Os pássaros, Tippi teve o rosto machucado pelas aves que atacavam sua personagem, em razão do realismo buscado pelo cineasta — que também teria se vingado na cena da rejeição que sofria. Tippi, que trabalharia com Hitchcock depois em Marnie, Confissões de uma ladra (1964), relatou que se tornou alvo de uma obsessão sexual do diretor, que em diferentes ocasiões tentou beijá-la e acariciá-la intimamente, além de ameaçado arruinar sua carreira. Segundo a atriz, na Hollywood daquela época, a questão do assédio sexual não tinha a dimensão que alcançaria nas décadas seguintes.

O iluminado (1977)

Stanley Kubrick era conhecido por seu exasperante perfeccionismo. A atriz Shelley Duvall, que vive a mulher do tresloucado Jack Nicholson, já afirmou que teve problemas de saúde em razão do enorme estresse emocional que encarou no set. A cena em que sua personagem segura um taco de beisebol na escadaria do hotel lhe foi particularmente trabalhosa – figurou no Guinness Book com o recorde de 127 tomadas, mas integrantes da equipe garantem que foram entre 35 e 45. Um documentário sobre o filme revela que Kubrick pediu à equipe que evitasse interagir com Shelley, para que ela entrasse no clima de aflição e isolamento de sua histérica personagem.

Dançando no escuro (2000)

O polêmico diretor dinamarquês Lars von Trier ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com esse drama musical estrelado pela cantora islandesa Björk, premiada como melhor atriz. Não foi uma convivência fácil. Em uma das brigas com o cineasta, Björk abandonou o set por três dias. A cantora costumava saudá-lo dizendo: "Senhor Von Trier, eu o desprezo". E afirmou: "Ele precisa de uma mulher para dar alma a seu trabalho. Inveja-as e as odeia por isso, então precisa destruí-las nas filmagens e esconder as evidências". Por sua vez, a estrela Nicole Kidman, atriz de Von Trier em Dogville (2003), achou a encenação proposta pelo diretor tão traumatizante que recusou o convite para atuar na sequência, Manderlay (2005).

Azul é a cor mais quente (2013)

O diretor tunisiano radicado na França Abdellatif Kechiche e as francesas Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux causaram furor em Cannes conquistando a dupla Palma de Ouro — concedida também, em caráter excepcional, às atrizes. No embalo da consagração do drama sobre o caloroso romance entre duas garotas, Adèle e Léa falaram que Kechiche teve no set postura abusiva e fetichista, fazendo-as repetir muitas vezes prolongadas cenas de sexo, exigir que ficassem nuas sem necessidade e se agredissem de verdade em sequências de brigas. Léa afirmou que a experiência foi desgastante e que Kechiche era um gênio, mas um tanto sádico. O diretor ameaçou-a de processo por prejudicar sua imagem.

Siga O Sol Diário no Twitter

  • osoldiario

    osoldiario

    O Sol DiárioMilton Cruz ressalta grupo do Figueirense e diz que já tem uma base para o ano que vem https://t.co/68bq1dF05whá 35 minutosRetweet
  • osoldiario

    osoldiario

    O Sol Diário"SC é um dos Estados com o melhor trabalho de inclusão", diz presidente do comitê paralímpico https://t.co/BLRAoL9CPVhá 1 horaRetweet
O Sol Diário
Busca