Atelier Livre sofre com infraestrutura sucateada e falta de professores e de equipamentos - Diversão & Estilo - O Sol Diário

S.O.S.17/01/2017 | 20h01Atualizada em 18/01/2017 | 18h04

Atelier Livre sofre com infraestrutura sucateada e falta de professores e de equipamentos

Professores e alunos da escola de arte da prefeitura de Porto Alegre fazem mutirões para comprar equipamentos e realizar reparos no prédio

Atelier Livre sofre com infraestrutura sucateada e falta de professores e de equipamentos Camila Domingues/Especial
Sala de escultura do Atelier Livre, instituição fundada em 1961, por grupo de artistas gaúchos  Foto: Camila Domingues / Especial

Em atividade há 56 anos, o Atelier Livre Xico Stockinger está acostumado a conviver com recursos escassos. Professores e alunos da escola de arte da prefeitura de Porto Alegre fazem mutirões para comprar equipamentos e realizar reparos no prédio que, assim, mantém-se dinâmico, com aulas de cerâmica, pintura, gravura, desenho e outras técnicas. Porém, nada disso aconteceria sem pessoas que "comprassem a briga". Por isso, a redução do corpo docente, que não é reposto há 20 anos por concurso, pode significar a desativação da escola.

O Atelier Livre já teve 38 instrutores. Hoje conta com 11, sendo que nem todos estão em atividade e cinco já poderiam se aposentar.

– Em 2016, acompanhamos o fechamento do CDE (Centro de Desenvolvimento da Expressão), uma escolinha de arte. Os professores foram se aposentando, e o local foi minguando até que fechou. Estamos apreensivos – afirma a diretora, a artista Miriam Tolpolar.

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O CDE ainda funciona diariamente, dentro da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), onde oferece duas oficinas para os públicos adulto e infantojuvenil. Mas, na opinião de Miriam, a instituição perdeu sua força ao ser transferida da antiga sede na Avenida Ipiranga para a CCMQ. 

No Atelier Livre, a solução encontrada para atender a demanda de professores é realizar cursos extras, com profissionais contratados a cada semestre. O problema, para a diretora, é que esses profissionais não têm compromisso de longo prazo com a instituição. Além disso, esses cursos eram apenas um diferencial, como explica o professor Wilson Cavalcanti:

– Os cursos extras eram realizados convidando artistas de fora do Atelier com propostas diferenciadas, como, por exemplo, xilogravura em estilo japonês.

Por mais que o Atelier se adapte à escassez de verbas, as atividades são impactadas. Em 2014, os cursos de verão foram interrompidos. Em 2015, a revista As Partes circulou pela última vez. Já o Festival de Arte Cidade de Porto Alegre, que em 30 edições trouxe artistas de renome internacional à Capital, não apresenta o nível de antigamente.

– O festival tinha artistas do mundo todo; agora, eles vêm de favor, porque não há verba. Se convidamos gente de fora, temos que hospedar na casa de alguém, dar carona, pagar a água que o convidado toma na palestra – explica o artista e aluno Jorge Bragança, que frequenta o Atelier desde 1999.

Localizado no Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues (na Avenida Erico Verissimo, esquina com a Ipiranga), o Atelier Livre é um espaço por onde já passaram, na condição de alunos e professores, nomes referenciais da arte gaúcha: Danúbio Gonçalves, Vasco Prado, Xico Stockinger, Karin Lambrecht, Regina Silveira e outros. Sua gestação começou em dezembro de 1960, quando um grupo de jovens artistas participou dos Encontros com Iberê, na antiga Galeria Municipal de Arte. Na exposição de encerramento da oficina, Iberê Camargo, que recém havia dado entrevista polêmica denunciando o marasmo cultural de Porto Alegre, anunciou: "Este movimento foi uma arrancada. É intenção dos jovens expositores prosseguir, associados num ateliê livre". Em 10 de abril de 1961, o ateliê nasceu, com a nomeação de seu primeiro diretor, Xico Stockinger. Logo virou referência de ateliê coletivo apoiado pelo poder público onde se trabalha, troca experiências e aprende sobre arte. Ao longo dos anos, distanciou-se desse modelo e virou uma escola para o grande público. Mas a intenção de tornar a arte acessível e informal manteve-se. Lá, é possível obter uma formação sem passar por testes. Por R$ 200, a cada semestre, qualquer pessoa acima de 16 anos pode frequentar aulas. Bolsas também são oferecidas.

O Atelier Livre já teve 1,8 mil alunos. Atualmente, atende em média 600 por semestre. Há salas ociosas e a demanda supera o número de vagas, disputadas inclusive por alunos do Instituto de Artes da UFRGS que têm ali um espaço para ampliar sua prática. A partir de março, mais de 20 cursos serão oferecidos.

Diante da pior crise já enfrentada pela instituição, alunos criaram o movimento S.O.S. Atelier Livre, com abaixo-assinado na plataforma change.org, que na terça-feira (17 de janeiro) estava com 2,3 mil apoiadores. Ao atingir 2,5 mil, uma carta será entregue ao prefeito Nelson Marchezan Júnior. Em outubro, representantes dos dois candidatos à prefeitura, que então disputavam o segundo turno das eleições, visitaram o local e conheceram as reivindicações. Mas, em 2 de janeiro, Marchezan anunciou a suspensão de concursos por 90 dias, bem como a criação de despesas novas.

O novo secretário da Cultura do município, Luciano Alabarse, reconhece a situação crítica do espaço. Ele garante que o Atelier "será fortalecido" nos próximos anos:

– Estou entrevistando interessados em conversar sobre a coordenação de Artes Plásticas e, em particular, sobre o Atelier. E um evento tradicional como o Festival de Arte não tem por que não ser mantido.

– A ideia do secretário é que toda a verba que ingressar no Atelier retorne ao Atelier – explica Renato Wieniewski, funcionário da secretaria indicado para ser o próximo coordenador financeiro do órgão.

Bancos e cadeiras quebradas são comuns nas salas do Atelier Livre Foto: Camila Domingues / Especial

Professores e alunos fazem mutirões para manter Atelier Livre em atividade

Ao longo de sua história, o Atelier Livre abrigou-se em vários locais, inclusive no Mercado Público, até ganhar seu espaço definitivo no Centro Municipal de Cultura, inaugurado em 1978. A escola ocupou boa parte dos 1,7 mil metros quadrados do edifício, garantindo salas amplas que fariam inveja a muitas instituições. Mas o descaso foi tanto que a estrutura hoje se deteriora a ponto de pôr em perigo seus frequentadores. A parede divisória entre uma sala de desenho e a de pintura perdeu a parte superior e outros painéis ameaçam cair. Uma claraboia no auditório, inicialmente projetada para oferecer luz natural para a prática artística, perdeu a tampa. Antes de receber uma solução paliativa, foi coberta com uma lona que saía do lugar a cada chuva e inundava o ambiente.

A Secretaria Municipal da Cultura possui uma equipe de manutenção que visita o prédio semanalmente para serviços urgentes como troca de lâmpadas, conserto de vazamentos e curtos-circuitos. No entanto, falta verba até para substituir maçanetas. Com sete membros, a equipe atende a todos os prédios culturais da cidade – cerca de 20, entre eles casas antigas como o Arquivo Histórico, a Casa Torelly e a Usina do Gasômetro.

– Tenho R$ 1 mil por mês para fazer compras para todos os prédios. Uma fechadura daquelas do Atelier custa em torno de R$ 150 – explica Wolney Carvalha Prado, chefe da equipe de administração dos prédios culturais.

Segundo o servidor, o Atelier Livre precisa de uma reforma geral nas instalações elétrica e hidráulica. Mas isso está longe de acontecer, nas condições atuais:

– O orçamento é precário. Teria de ser 10 vezes maior para fazer a manutenção preventiva e corretiva para que os prédios possam funcionar com segurança. O ideal também seria termos uma equipe terceirizada com pessoal jovem, pois os servidores da minha equipe têm 60 anos, em média. Fica difícil fazer trabalhos que demandam esforço físico maior.

Na sala de xilogravura e gravura em metal, prensas caras estão ociosas por falta de manutenção devida ou são usadas com materiais improvisados. O professor Wilson Cavalcanti faz tantos reparos que foi apelidado de "mecânico". Na sala anexa, onde se manipulam ácidos, o exaustor não funciona. As condições do prédio inspiram soluções criativas:

– Acabamos indo para a rua, já que o gás é perigoso. Também tenho feito um ácido caseiro que não é tóxico, à base de vinagre, sal grosso e cobre – conta Cavalcanti.

Nessas duas salas, apenas um entre nove tanques funcionam. Há danos herdados de um incêndio de anos atrás e também de um alagamento – entre o Natal e o Ano-Novo de 2016, um registro arrebentou e inundou todo o andar inferior.

Alguns objetos que parecem novos aos olhos de quem visita o lugar, na verdade, vêm do bolso de alunos e professores.

– No final do ano passado, todos os professores fizeram feiras no Natal. E rifas, também – lembra a assistente-administrativa Rejane Santos da Silva, acrescentando que os ganhos são aplicados em melhorias nas salas de aula.

É graças aos alunos que a sala de litografia, onde estão raras pedras importadas da Alemanha, tem ar-condicionado:

– Vendemos um calendário para comprar um ar-condicionado no ano retrasado – relata Inói Varela, artista que desenvolve trabalho no Atelier.

Do lado de fora, um velho problema: os assaltos

Uma queixa comum dos frequentadores do Atelier Livre é a insegurança. Segundo a Guarda Municipal, o edifício tem patrulhamento fixo, com duas pessoas à noite e uma durante o dia. No entanto, alunos dizem que o estacionamento fica desatendido. É lá que assaltantes costumam agir.

– A segurança é zero. No ano passado, foram pelo menos cinco assaltos, professores tiveram seus carros levados do estacionamento. E também roubaram obras da última exposição (o saguão do edifício abriga mostras continuamente) – denuncia Bragança.

– Vários alunos desistiram do turno da noite por causa dos assaltos realizados sistematicamente na área do estacionamento – concorda Rejane.

O comandante-geral da Guarda Municipal, Luiz Antonio Pithan, afirma que a principal reclamação que recebe é relativa a flanelinhas:

– Temos guarda fixo 24h e, nos eventos de grande porte, temos viatura no local no início e ao final. O maior problema são os flanelinhas que ficam achacando o pessoal. Estamos atuando com mais intensidade nesse sentido.

Além disso, as salas do segundo andar costumam sofrer vandalismo. Em 2016, pedras arremessadas contra a sala de desenho quebraram seis vidros – já substituídos.

O Atelier Livre através do tempo

1960
O Atelier Livre é idealizado em dezembro de 1960, quando um grupo de jovens artistas participa dos Encontros com Iberê, na Galeria Municipal de Arte, no antigo abrigo dos bondes da Praça XV. Na mostra de encerramento da oficina, Iberê Camargo, que recém havia criticado publicamente o marasmo cultural de Porto Alegre, declara: "Este movimento foi uma arrancada. É intenção dos jovens expositores prosseguir, associados num atelier livre".

1961
O projeto é adotado pelo Secretário da Educação da época, Carlos de Britto Velho. Em 10 de abril, o Atelier Livre nasce, com a nomeação de seu primeiro diretor, Xico Stockinger.

1962
O Atelier Livre é transferido para os altos do Mercado Público.

1964
Danúbio Gonçalves assume a direção. Fica até 1979.

1973
A sede muda novamente, para uma casa na Rua Lobo da Costa.

1978
Na esquina das avenidas Erico Verissimo e Ipiranga, é inaugurado o Centro Municipal de Cultura que se torna a sede definitiva do Atelier Livre. Com mais professores, o perfil da instituição também muda, aproximando-se de uma escola.

1986
É criado o Festival de Arte Cidade de Porto Alegre, com a presença do artista Hudinilson Jr., um entre os vários artistas de renome nacional e internacional que o evento traria à capital gaúcha a partir de então.

1996
É realizado o primeiro e único concurso para instrutores do Atelier Livre. Dez das 17 vagas são preenchidas.

2011
O Atelier Livre completa 50 anos com programação especial, exposições no Margs, no Santander Cultural e no Paço Municipal e recebe homenagem no Prêmio Açorianos de Artes Plásticas.

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