Oficinas de desprincesamento ensinam meninas a crescer livres de estereótipos de gêneros - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Comportamento19/01/2017 | 06h51Atualizada em 19/01/2017 | 11h11

Oficinas de desprincesamento ensinam meninas a crescer livres de estereótipos de gêneros

"Curso para meninas livres" e "Marias vão com as outras", em Florianópolis, dão visão global à meninas entre 6 e 14 anos para que sintam-se à vontade para serem o que escolherem

Oficinas de desprincesamento ensinam meninas a crescer livres de estereótipos de gêneros Leo Munhoz/Agencia RBS
Maitê é uma das inscritas nas oficinas de desprincesamento em Florianópolis Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Em uma estratégia de enfrentamento a modelos como a Escola de Princesas, franquia mineira que pretende formar "princesas modernas do mundo real", surge em Florianópolis os projetos Curso para meninas livresMarias vão com as outras. Enquanto no programa que faz analogia aos contos e fadas as pequenas têm aulas de etiqueta social, maquiagem, culinária e recomendações para o que chama de "passo mais importante da vida de uma mulher": o casamento, o modelo de aprendizagem das oficinas catarinenses preocupa-se em transmitir um universo amplo às meninas para que se sintam livres para serem aquilo que quiserem. 

As iniciativas são inspiradas nas oficinas de desprincesamento da Escola de Desaprendizagem Sociocultural de Iquique, cidade chilena de 166 mil habitantes banhada pelo mar pacífico. Nacionalizada no sistema educacional do Chile, a proposta das aulas para meninas de 6 a 12 anos é construir uma nova identidade das crianças: livre dos estereótipos de gênero, que associam exclusivamente a figura da princesa para as meninas e a do super-herói para os meninos.

Os pedagogos e sociólogos responsáveis pelo modelo pedagógico do desprincesamento Yury Bustamante, Lorena Cataldo e Jendery Jaldín explicam que o preconceito reforçado pela indústria cultural impede o desenvolvimento de todas as potencialidades das pequenas.

— Desprincesar implica em desaprender os estereótipos de gênero na infância, entendendo que meninos e meninas são iguais em direitos, mas que existe um contexto de desigualdade onde vivemos, que se baseia em um preconceito sobre como são as meninas — dizem. 

"Ser menina", "desprincesamento", "estereótipos em jogos" "amor romântico" e "autodefesa" são as seis sessões propostas pela oficina chilena. Em Florianópolis, o conteúdo repassado por mulheres às meninas será semelhante (leia mais abaixo). 

— Queremos mostrar que as meninas podem ser o que elas quiserem. Se quiserem ser princesas, podem ser. Mas vamos mostrar que há um universo muito maior para elas escolherem. E também garantir que elas podem estar juntas fazendo coisas interessantes — diz a  blogueira do Cientista que virou mãe, Lígia Moreira Senas, uma das criadoras do projeto. 

Na reunião de abertura do curso, no último sábado, a pequena Maitê Duarte Rosa, 9 anos, empolgava-se com o anúncio de cada oficina que irá acontecer nos próximos sábados. Acompanhada da mãe, Cristina de Figueiredo Duarte, 36 anos, ela conta que gostou mais daquela que envolve consertos e teatro. 

— Me sinto representada por esse tipo de ensinamento às meninas, porque esse é o estilo de educação que tento passar a ela. Menina também pode consertar as coisas, trocar chuveiro, usar ferramentas. Fui criada assim na minha casa, para estudar, trabalhar e ser uma mulher independente. Crio a Maitê o mais próximo disso para que ela possa fazer o que quiser — conta a mãe Cristina. 

Mães acompanhadas das filhas participaram de reunião de apresentação do Curso para meninas livres no último sábado; Lígia Moreira Senas, uma das criadoras, aparece no centro Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Gênero interdisciplinar

Enquanto o Curso de Desprincesamento é dividido em oficinas, o Marias vão com as outras, que já tem 25 meninas inscritas, é intensivo. O projeto está sendo viabilizado a partir de doações e de financiamento coletivo. Além da iniciativa chilena, a professora Gabriela Silva, 25, uma das criadoras, inspirou-se no Girls Rocky Camp, acampamento diurno de vivências musicais para meninas de São Paulo. Para ela, as ideias dão conta de um olhar mais amplo sobre o ser menina, que não é somente usar vestido cor de rosa. 

— Primeiro, a gente vai tentar fazer com que elas questionem o papel de meninas na sociedade. Vamos mostrar como as meninas são representadas na história e na literatura, questões mercadológicas de consumo e beleza, segurança, corpo e identidade de gênero. Tudo de forma bastante lúdica, fazendo com que elas percebam a partir de oficinas de contação de histórias, por exemplo. Não de princesas, mas de Clarice Lispector ou Frida Kahlo — defende.

Olga Ziggeli Garcia, professora do curso de especialização Gênero e Diversidade na Escola, desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), defende que questões de gênero e de empoderamento feminino são transversais a todas as disciplinas e deveriam estar presentes também na escola. 
A iniciativa que formou recentemente 148 professores é promovida pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em parceria com o Ministério da Educação e com a extinta Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, do governo federal.

— Quando se conta a história da Branca de Neve, não precisa colocar um namorado do lado dela. São ações sutis que podem orientar sobre gênero e sexualidade. De preferência, o indicado é que esses ensinamentos estejam dentro de um programa de educação continuada — defende Olga. 

Polarizada por grupos religiosos e LGBT, a discussão a respeito da diversidade de gênero e da sexualidade nos planos estadual e municipal de Educação gerou atritos em todo o país, incluindo em Santa Catarina em 2015. 

SERVIÇO

Projeto: Curso para meninas livres
Onde: Espaço Cultural Armazém — Coletivo Elza (Rod. Gilson da Costa Xavier, 942, Geral do Sambaqui, Sambaqui, Florianópolis)
Quando: Aos sábados, a partir de 14 de janeiro até 15 de abril
Quem: 30 meninas em dois turnos _ de 6 a 9 anos (manhã) e 10 a 14 anos (tarde)
Quanto: R$ 6 por oficina, gratuito para até cinco estudantes de escolas públicas por turma
Inscrições: para meninas de 6 a 9 anos / para meninas de 10 a 14 anos
Contato: Página Cientista Que Virou Mãe, Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza e pelo e-mail comunicacao@cientistaqueviroumae.com.br

Projeto: Marias vão com as outras
Onde: Sede da Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) no Parque Ecológico do Córrego Grande, em Florianópolis
Quando: 30 de janeiro a 3 de fevereiro
Quem: 30 meninas, de 10 a 14 anos de idade
Quanto: Gratuito
Inscrições: neste formulário
Contato: Página Marias vão com as outras

DESPRINCESAMENTO CHILENO VERSUS CATARINENSE

No Chile, as oficinas são dirigidas exclusivamente às meninas e oferecidas por mulheres, privilegiando o espaço de intimidade que se dá entre as participantes devido às temáticas abordadas. São seis sessões. Veja abaixo e compare com as iniciativas de desprincesamento catarinense:

Desprincesar em Iquique

Ser menina: Aprofundar o autoconhecimento e revisar diferenças e semelhanças com as ideias de princesas;
Desprincesamento: Mostrar a utilidade de "desprincesar" como ferramenta de poder que impulsiona a mudança;
Estereótipos em brincadeiras: Aborda de maneira crítica o preconceito presente ao escolher brincadeiras, assim como o ideal de beleza aprendido como único e fundamental;
Amor romântico: Refletir sobre a forma de amar que se conhece, convidando a pensar e construir novas formas afastadas de sofrimento.
Autodefesa: Valorizar o amor próprio como motor que impulsiona o autocuidado e aprendizagem de técnicas para defesa de violência constantemente presentes. 

Curso para meninas livres

Brincadeiras de rua;
Meninas também consertam;
As meninas e o teatro;
As meninas, as revistas, os zines;
Toda menina é uma rainha;
As meninas e as fantasias;
Meninas que plantam e conhecem insetos;
Meninas que escrevem;
Meninas e o corpo;
Internet também é lugar de menina;
As meninas e a fotografia;
As meninas e a bike.

Marias vão com as outras

Lugar de Menina Lugar de menina é onde ela quiser: emoções, gênero e relações contemporâneas;
Contação de histórias Antiprincesas;
PANC'S Plantas Alimentícias Não-Convencionais;
Cartografias e identidades;
Meu corpo;
Prática corporal, alongamento;
Oficina de improvisação teatral;
De Dandara a Beyoncé;
AYABÁS e Vivência em dança de matriz africana;
Desafio da beleza - game show;
Bullying, gordofobia e a importância da sororidade;
Direitos humanos;
Experiência Circense;
Respiração, Yoga e meditação.

Fonte: Escola de Desaprendizagem Sociocultural, Curso Para Meninas Livres, Marias Vão Com As Outras

 

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