Amigos, escritores e personalidades lamentam morte do gaúcho João Gilberto Noll - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Adeus a Noll29/03/2017 | 09h34Atualizada em 29/03/2017 | 17h52

Amigos, escritores e personalidades lamentam morte do gaúcho João Gilberto Noll

Nomes como Luís Augusto Fischer e Fabrício Carpinejar se manifestaram  

Amigos, escritores e personalidades lamentam morte do gaúcho João Gilberto Noll Adriana Franciosi/Agencia RBS
Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

A morte de João Gilberto Noll, confirmada na manhã desta quarta-feira, causou comoção na comunidade literária brasileira. Escritores, personalidades e amigos do autor se manifestaram sobre a perda de um dos grandes expoentes da literatura brasileira contemporânea – no Twitter, o nome do autor ficou entre os assuntos mais comentados da rede social nesta manhã. Leia as manifestações abaixo.

José Castello, escritor

"Era o nosso maior narrador vivo, eu não tenho nenhuma dúvida. O continente perdeu seus dois maiores narradores vivos em dois meses, a Argentina perdeu o Piglia em janeiro, e o Brasil perdeu o Noll agora.  Ele via a literatura como uma espécie de religião. Não era só oficio, era maneira de se reconectar com as questões mais existenciais da vida e de forma direta, bruta, quase selvagem. A literatura do Noll se caracteriza antes de tudo por uma extrema coragem existencial, ela não está para brincadeira, agarra o mundo e as palavras com as unhas, não cede ao bem escrito, ao elegante, ao bonito, ao consagrado, aos cânones." Leia íntegra do depoimento.

Luís Augusto Fischer, professor e escritor

"O Noll era um monge. O que ele queria, com sua literatura, era encontrar aquele ponto zero, sem gravidade, sem tempo, instalado ali e somente ali na hora da leitura, como se esta fosse não um exercício controlado, mas uma forma de respirar. E nessa busca ele foi de uma coerência e de uma pertinácia admiráveis, atestado de sua entrega como artista – o que é um exemplo bonito, neste tempo em que tudo se vende e tudo se compra."

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Verônica Stigger, escritora

"É um dia triste hoje. Sempre gostei muito dos textos dele. A lembrança mais viva que eu tenho do Noll é dele lendo os próprios textos. Acho que quem já viu o Noll lendo nunca vai esquecer como era, era um evento. Era como se ele interiorizasse aquele texto e, na verdade, exteriorizasse. Era fascinante ouvir a voz que ele criava para os próprios textos, como se não pudesse haver uma outra voz."

Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e professor

"Ele foi um exemplo para todos nós de um escritor profissional num país de tanto amadorismo em tudo. O Noll sempre foi um escritor inteiramente dedicado ao seu ofício, que ele levava com paixão, e com isso ele construiu não apenas uma obra importante dentro do cenário brasileiro contemporâneo, mas um modelo de conduta de profissional das letras que não fazia concessões e que sempre colocou em primeiro lugar seu trabalho literário. É o escritor que mais frequentemente eu cito como exemplo disso e vejo que esse tipo de conduta já começa a ser praticada por novos escritores que por vezes deixam tudo para se dedicar à literatura. Ele foi um precursor aqui entre nós. Ensinou que a literatura exige dedicação completa, absoluta e profissional." 

Luciano Alabarse, secretário de cultura de Porto Alegre e diretor teatral

"Eu conheço a obra integral do Noll. Para mim, era um grande escritor gaúcho. Lembro que conheci o João no lançamento do primeiro livro que li dele, A Fúria do Corpo, que é um dos livros da minha vida. Aquela linguagem barroca, excessiva, escandalosa. Fiquei muito impressionado e procurei ele. A partir daí, nós começamos a ter uma amizade muito produtiva. Depois ele foi secando a sua escrita.

Cheguei a fazer uma montagem baseada no Hotel Atlântico, lembro que ele gostou e assistiu várias vezes. Era uma amizade de trabalho. Fiquei muito abalado com essa notícia porque era um homem moço. É uma grande perda para a literatura do Brasil. Não era só um escritor regional. Tem uma obra consistente, instigante e provocativa. 

João era um cara muito quieto, recatado, tinha uma timidez muito grande, mas que em certo momentos se soltava. Às vezes ele estava absolutamente feliz, falante, mas isso era exceção para ele. Era uma pessoa mais ou menos como a obra. Queria sempre as sínteses. Tinha um olhar agudo sobre a existência, a finitude, a temporariedade da vida. Isso se manifestava na vida dele – simples e recatada. De vez em quando, ele saia desse silencio monástico e a gente se divertia. Um homem com a obra como a dele, viverá." 

Michel Laub, escritor

Noll foi fiel a si mesmo desde que começou a escrever. Seus livros podiam ser barrocos (A Fúria do Corpo), minimalistas (Hotel Atlântico), metafóricos (A Céu Aberto), se passar em Porto Alegre (O Quieto Animal da Esquina) ou Londres (Lorde), mas o que unia seus narradores era a mesma solidão e sensação de insuficiência – social, sexual, existencial. Nos últimos anos ele potencializou isso tudo com performances muito particulares e originais quando lia os textos em público – o que foi uma espécie de "estilo tardio", para usar a expressão de Edward Said para autores que mudam no fim da vida, só que externamente ao texto. Nunca deixarei de reler os livros dele sem imaginar essa voz ao fundo.

Guto Leite, poeta e professor

"Saravá, mestre João Gilberto Noll! Tua vida e tua literatura vão fazer muita falta!"

Regina Zilbermann, professora de literatura

"Ele era um ficcionista, um narrador, e o narrador dele é um um marginal no sentido de que é um homem que está fora das regras, é um homem que não se conforma com uma vida banal, rotineira. A obra do Noll retoma uma característica fundamental da literatura ocidental que é a história de viagem. Ele é um viajante globalizado, ora no Brasil, ora na Europa, ora nos EUA. É desterritorializado. A questão do gênero sexual também foi muito forte para ele, da vivência erótica, com homens, mulheres. E isso é muito inovador na literatura brasileira porque abriu caminho para escritores que vão desenvolver uma temática do homossexualismo, de transgêneros e nesse ponto foi pioneiro. Cada romance do João é um novo romance. Ele não repete o estilo, ele não repete nada, está sempre pesquisando."

Suzana Amaral, cineasta e diretora de Hotel Atlântico, de 2009, filme adaptado do romance homônimo de Noll 

"Tive dois encontros com ele, era um escritor que gostava muito. Eu procuro não ter muito contato com os escritores que vou adaptar, até porque faço do meu jeito, e o contato próximo com eles termina atrapalhando. Com Noll não foi diferente, ele não participou em nenhum momento do roteiro que fiz de Hotel Atlântico. Na segunda vez que nos encontramos foi para mostrar o filme pronto. Levei-o para ver o longa na pré-estreia. Ele ficou lá calado do meu lado, o tempo todo. No final, disse que foi a melhor coisa que fizeram de um livro seu. ê meu melhor filme, gostei muito do que fiz da obra de João Gilberto Noll, que sabia criar belas histórias, uma perda grande."

Fabrício Carpinejar, poeta e escritor

"Não é só a morte de um grande escritor, mas o fim de um idioma pessoal, poético, hipnótico.  Ninguém escrevia como ele, ninguém jamais escreverá parecido com ele. Ele era  o nosso on the road infinito por dentro da linguagem e das paixões. 

E pensar que seus personagens não tinham sobrenome, e agora Noll será o sobrenome de todos eles."

Ministério da Cultura

"É com pesar que o Ministério da Cultura (MinC) recebe a notícia do falecimento do escritor gaúcho João Gilberto Noll, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. (...) O ministro da Cultura, Roberto Freire, manifesta sinceros sentimentos de pesar à família, amigos e admiradores de João Gilberto Noll e de sua significativa trajetória literária." – Leia a notanosite do MinC.


 

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