Conheça histórias de ex-alunos da Escola Bolshoi que conquistaram sucesso longe dos palcos - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Bolshoi 17 anos15/03/2017 | 09h11

Conheça histórias de ex-alunos da Escola Bolshoi que conquistaram sucesso longe dos palcos

Há 17 anos, a a instituição iniciava as atividades em Joinville com a missão de formar artistas cidadãos

Conheça histórias de ex-alunos da Escola Bolshoi que conquistaram sucesso longe dos palcos  Maykon Lammerhirt/Agencia RBS
Raquel Steglich foi a primeira brasileira a integrar o Balé Bolshoi de Moscou Foto: Maykon Lammerhirt / Agencia RBS
Cláudia Morriesen

claudia.morriesen@an.com.br

Todos os anos, quando novos alunos chegam às salas de aula da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, após passar  por uma intensa e acirrada disputa por vagas na audição, os sonhos são os mesmos: viver da dança, dedicar-se integralmente à arte e, de preferência, compor o elenco de grandes companhias de dança pelo mundo. À medida que as crianças se tornam adultos, no entanto, os planos mudam e, para uma parcela dos jovens que estudam na instituição, outras carreiras se tornam mais interessantes.

Passados 17 anos do primeiro dia de aula da Escola Bolshoi no Brasil, ex-alunos explicam como as lições aprendidas entre aulas de dança, música e história colaboraram no desenvolvimento de suas profissiões e de suas vidas cotidianas, como cidadãos. 

— Uma criança que se dedica à arte ou ao esporte parte na frente das outras porque adquire maturidade, responsabilidade e disciplina. Isso colabora com todas as outras profissões —avalia o diretor-geral do Bolshoi Brasil, Pavel Kazarian.

Dos 287 estudantes formados pela instituição, 76% estão trabalhando na área da dança, seja em companhias nacionais e internacionais ou como professores. Os outros foram buscar o sucesso em outros caminhos, e alguns deles contam suas histórias nestas páginas.

A primeira bailarina no Bolshoi (foto acima)

Quando entram no consultório de dermatologia de Raquel Steglich no Centro de Joinville, os pacientes não podem imaginar que o rosto da médica de 33 anos já apareceu em jornais, revistas e telejornais do Brasil. Apesar da juventude, Raquel viveu emoções e realizações que parecem fazer parte de outra vida: ela foi a primeira brasileira a integrar o Balé Bolshoi de Moscou, no início da década passada, conquista que marcou as primeiras trocas nas relações entre a instituição bicentenária e a escola joinvilense.

Se fazer parte do Bolshoi era o sonho de qualquer bailarina, para Raquel se tornava ainda mais surreal pelo primeiro contato que ela teve com a companhia russa. Aluna de dança clássica desde os três anos, a gaúcha radicada em Joinville vivia intensamente o Festival de Dança quando o Bolshoi veio à cidade pela primeira vez, em 1996. Do alto do cargo de bailarina-flor – a menina responsável por entregar flores aos convidados –, ela esteve lado a lado com ídolos como Galina Stepanenko e Alla Mikhalchenko. O momento foi registrado em fotos, que hoje ganham ainda mais valor: anos depois, ela dividiria as salas de aula e o palco com estas estrelas do balé.

Estas experiências só foram possíveis porque, quando a Escola Bolshoi chegou a Joinville, Raquel foi selecionada para a turma sênior do curso profissionalizante, ao lado de outros jovens que já tinham experiência em dança. Com o grupo, Raquel passou por dois intercâmbios curtos no Teatro Bolshoi de Moscou, até receber o convite para passar um ano na companhia como bailarina do corpo de baile. Quando os 12 meses chegaram ao fim, no entanto, a intuição apontava outros caminhos, e neles não havia ensaios e espetáculos, mas livros e a faculdade de medicina.

—Foi muito difícil tomar essa decisão, mas, ao dançar pela primeira vez no Teatro Bolshoi, soube que não era isso que eu queria para a vida toda. Faria tudo de novo, se tivesse 19 anos novamente, mas viria embora da mesma forma —garante.




Grande parte da vida

O cheiro de breu branco e o som de música clássica estão no dia a dia de Adriana Reis desde que a sede da Escola Bolshoi não passava de duas salas de aula montadas para as primeiras audições, há 17 anos. Integrante da primeira turma sênior, formada por alunos com experiência em dança, ela já tinha 19 anos quando virou aluna da instituição. Para se dedicar ao balé ao mesmo tempo em que já era uma jovem adulta estudando publicidade e propaganda, viveu “maratonas” para conciliar os horários de aulas e deixou de lado oportunidades de trabalho.

— Eu trabalhava em lugares com carga horária flexível para dar conta, mas chegou um momento em que não pude mais e pedi o apoio dos meus pais para passar um ano me dedicando apenas ao Bolshoi —recorda.

Com os diplomas de bailarina de dança clássica e de publicitária, Adriana empreendeu esforços para entrar em uma companhia, mas as dificuldades com a técnica da dança contemporânea a levaram a decidir que era hora de mudar o foco – sem deixar a grande paixão. Foi assim que ela passou a fazer parte da equipe do setor de comunicação da Escola Bolshoi e vive os dois mundos no mesmo lugar.

No trabalho, o conhecimento em dança é aliado à formação acadêmica, com o resultado final dos materiais de divulgação planejados para chegar ao máximo da perfeição, da mesma forma que aprendeu nas aulas de balé. E ela ainda consegue colaborar com o departamento artístico em sugestões e ideias em ensaios fotográficos de jornais e revistas.

— As experiências que vivi aqui e as pessoas que conheci são oportunidades que eu não teria em nenhum outro lugar — afirma ela.  

Disciplina no currículo

Em junho do ano passado, Kerolayne Taborda, 24 anos, recebeu um pedido de casamento. Ela e o noivo, Jonas Salvador, haviam acabado de assistir ao balé Giselle no Teatro do Balé Bolshoi de Moscou, na Rússia, quando ele se ajoelhou e, com dois amigos de infância como testemunhas, propôs o novo passo no relacionamento.

O momento romântico se encaixa muito bem no quadro do quarteto que cresceu junto: Kerolayne e Jonas visitavam Erick Swolkin e Bruna Gaglianone, ex-alunos da Escola Bolshoi que atualmente dançam no Bolshoi russo. Kerolayne e Jonas se formaram ao mesmo tempo que eles, mas optaram por deixar a dança no álbum de recordações.

— Ser bailarina era um sonho de infância, era só no que eu pensava. Mas quando me formei, percebi que teria que ficar participando de audições no Rio e em São Paulo, e isso dificultaria os estudos — conta Kerolayne.

A jovem se formou em direito, enquanto Jonas optou por administração. Dos anos de Bolshoi, permaneceram as noções de disciplina e educação trabalhadas de forma intensiva durante a infância e a adolescência: enquanto estão entre as paredes da escola, mesmo os alunos mais novos são orientados a cumprimentar visitantes, agir de forma polida e respeitar os professores.

— Quando comecei a procurar emprego, ter o Bolshoi no currículo contava muito. Nos dois escritórios onde trabalhei antes de abrir o meu, foi decisivo porque sabiam que a educação que recebi na escola era um diferencial — afirma.

Vida em movimento

Ao chegar à faculdade, Amanda Felski Peres, 26 anos, levou um choque ao perceber as diferenças das conversas e interesses entre os novos colegas com o que estava acostumada. Não aquele normal, que qualquer calouro vive ao virar universitário, mas da forma que somente alguém que, como ela, havia passado oito anos mergulhada no universo artístico e de repente entra em uma sala de aula de engenheria química.

— Até na escola meus amigos eram os mesmos que estudavam comigo no Bolshoi. Minha vida era toda dedicada àquela rotina, com as mesmas pessoas com quem eu ficava mais tempo até do que com a minha família. Um dia acabou e eu fui viver em um mundo totalmente diferente — analisa Amanda.   

Adaptar-se, no entanto, não era problema para ela. Se, aos dez anos, quando entrou na Escola Bolshoi, Amanda ainda nem tinha muita certeza sobre o que aprenderia ali dentro; aos 15 ela já tinha consciência de que a carreira de bailarina não seria seu futuro: uma hérnia de disco limitou seus movimentos e a possibilidade de viver da dança. Mas não a impediu de seguir em frente e concluir o curso técnico de dança clássica. O diploma agora é um mérito que, se não pode ser aliado ao certificado que ela receberá em maio, quando concluirá o mestrado em engenharia de materiais, a auxiliou no início de uma carreira paralela que dá a ela a oportunidade de uma agenda mais flexível enquanto estuda.

— Durante a faculdade, uma amiga me indicou como modelo para um catálogo de roupas de dança. Fiquei um ano fazendo fotos para comerciais e campanhas de dança, até para o Festival de Joinville, e então decidi fazer um book e participar de outros trabalhos — conta.

Para a melhor versão

Conquistar uma vaga na Escola Bolshoi é um grande mérito, ainda que seja apenas o início de uma longa caminhada. Chegar ao fim desta trajetória é ainda mais difícil. Helena Sardinha sabe bem disso: ela não passou na primeira seletiva de que participou, aos nove anos, e passou um ano inteiro da infância se preparando para a audição seguinte.

 Quando passou, foram oito anos vivendo a dor e a delícia de ser uma das privilegiadas de receber aqueles ensinamentos, mas sentir as privações que a rotina de aulas e ensaios todos os dias impõe aos adolescentes e os cuidados com uma dieta restritiva. Ao mesmo tempo, teve a chance de estar em contato com diferentes modalidades artísticas que garantem a bagagem cultural para a carreira que escolheu: fazer cinema.

— A minha geração é muito mimada e o Bolshoi ensina a não ser, ensina a ser determinado — avalia Helena.

No caso dela, a autonomia para ir atrás dos sonhos a levou para outro país: depois de dois anos estudando cinema em Florianópolis, ela resolveu fazer um curso de um ano em Los Angeles. Lá, percebeu que as chances na área de audiovisual são incomparavelmente maiores e decidiu ficar. Agora, ela estuda na New York Film Academy e já tem no currículo a exibição de um curta-metragem no prestigiado Festival de Cannes, na Suíça, no ano passado, além de prêmios em festivais americanos. 

— Acho que está tudo conectado, da minha determinação para entrar no Bolshoi à determinação para a minha carreira. Tenho consciência de que foi a disciplina que o Bolshoi me ensinou que me leva para frente e faz com que eu consiga ser a melhor versão de mim mesma no que eu escolher — afirma a jovem.


Da reverência à continência

Oito anos se passaram desde que o joinvilense Rafael Lemes, 24 anos, se formou no curso técnico de dança contemporânea da Escola Bolshoi, mas ele ainda tem o uniforme como roupa diária e a disciplina como palavra de ordem. No entanto, as atividades são bem diferentes daquelas desenvolvidas durante a infância e a adolescência: agora, ele é sargento no 62º Batalhão de Infantaria de Joinville, e sua rotina compreende a formação de recrutas. O posto é temporário, conquistado após o jovem ingressar no serviço militar e fazer cursos internos.

— Há muitas semelhanças entre os dois, como os valores, a disciplina e o respeito à hierarquia. No Bolshoi, havia a reverência ao professor; aqui, a continência ao superior — avalia.  

Rafael precisou aprender sobre tenacidade desde cedo: ele começou a fazer audições para a Escola Bolshoi aos seis anos, logo que a instituição foi aberta no Brasil e os profissionais visitaram as escolas públicas para divulgar as vagas. A curiosidade o levou à primeira seletiva e, mesmo depois de dois anos recebendo negativas, ele não desistiu.

— Eu gostava de praticar exercícios físicos e quando ouvi o que ensinavam no Bolshoi, quis ter a oportunidade de participar e aprender — recorda.

Entre as lições de balé, piano e teatro, Rafael também contou com aulas de atividades circenses, como acrobacias aéreas, oferecidas pelo professor Roiter Neves. A destreza nos movimentos levou o professor a convidá-lo a integrar a companhia e a escola de circo após a formatura, e hoje ele divide o trabalho no Batalhão com a de professor, mantendo assim uma parcela de atividades artísticas na vida.


Chances para crescer

Entre as principais lembranças de Eduardo  Wodzinky, 26 anos, dos anos em que estudou na Escola Bolshoi, há casas e teatros por onde os alunos da primeira turma passaram em viagens. A paixão pela dança existia e era o motivo para não desistir apesar da rotina cansativa, mas o interesse pela carreira que ele seguiria na vida adulta também estava presente o suficiente para que a arquitetura das vilas na Itália e os projetos de Oscar Niemeyer em Brasília fossem marcantes para o então adolescente.

No ano em que completa dez anos de formatura em dança clássica, o joinvilense recorda com saudades dos amigos e dos corredores da escola. A memória visual o levou a, ao elaborar o trabalho de conclusão do curso de arquitetura e urbanismo, criar um projeto de nova sede para o Bolshoi Brasil. Para isso, utilizou o conhecimento de cada pedacinho vivido nos oito anos em que passou boa parte de seus dias no anexo do Centreventos Cau Hansen.

— É um projeto menos suntuoso do que o de Niemeyer — comenta ele, citando o projeto do famoso arquiteto para a construção de uma sede própria para a escola.
— Até os professores da banca ficaram impressionados ao descobrirem que eu havia estudado no Bolshoi.

Além do conhecimento adquirido para a própria profissão, ter passado pela escola fez com que o jovem tivesse outro diferencial dos outros garotos de sua idade: a valorização da cultura. Ele percebeu isso aos 18 anos quando, recém-chegado em Curitiba, foi sozinho a um espetáculo do Guaíra. Surpresa, uma mulher sentada ao lado o questionou:
— Mas você gosta de balé?
— Pude responder que não só gostava como havia dançado naquele palco — diz. 

O registro das artes

De todos os talentos de Diego Araújo, 28 anos, se reinventar está no topo da lista. Aos 16 anos, ele ainda não tinha nenhum conhecimento em dança. Aos 20, estava se formando em dança contemporânea na Escola Bolshoi. Oito anos depois, tem passagens por companhia e concursos de dança, mas já se dedica à outra arte: a da fotografia.

Atleta de jiu-jítsu, Diego procurou aulas de dança para trabalhar o equilíbrio e os movimentos nas artes marciais. A desenvoltura foi elogiada a ponto de ele sentir-se confiante para tentar uma vaga na Escola Bolshoi.

— As pessoas diziam que eu era louco de tentar, mas passei e entrei na sétima série. Naquele momento, meu sonho era entrar em uma companhia e viver da dança — afirma.
De certa forma, o sonho foi realidade por quase uma década: após dar aulas em escolas de Joinville e Jaraguá e integrar a AMA Companhia de Dança, Diego mudou para São Paulo e começou a administrar a carreira de forma a não ficar muito tempo distante da namorada, Luiza Yuk, também formada pelo Bolshoi. Assim, dançou no Canadá, onde participou da La Mondance e fez participações do Royal City Ballet.

Depois de um período trabalhando nos bastidores da São Paulo Companhia de Dança, a crise econômica fez dele um dos desempregados da área cultural. Mas ele estava preparado para o novo desafio: havia estudado fotografia e, agora, tem uma empresa que produz, principalmente, imagens de espetáculos de dança e teatro.

— Se eu não tivesse estudado no Bolshoi, não teria amadurecido tão rápido. Acho que hoje eu seria outra passoa — analisa Diego.

Lições em prática

Enquanto estudava na Escola Bolshoi, Andressa Mattos Elyas, 25 anos, tinha o consultório de fisioterapia do núcleo de saúde como um dos lugares preferidos entre todas as salas e áreas do prédio de cinco andares que abriga a instituição. Mesmo assim, não parecia óbvio à jovem enquanto ela crescia e decidia sua vocação que seu futuro estava ali dentro. Por isso, após cursar a 5ª série, ela desistiu das aulas em busca de um sentimento de aprendizados novos.

— Conheci a dança contemporânea na 5ª série e isso me instigou. Então, comecei a fazer teatro porque sentia falta dos palcos — afirma.

O contato com o corpo no teatro a fez descobrir que, no fundo, era isso que a deixava fascinada. O curso de fisioterapia foi a escolha perfeita para integrar todas as paixões, mas os caminhos de Andressa ainda passariam pelo Bolshoi mais de uma vez. No primeiro ano da faculdade, ela validou 18 horas extras complementares em estágio assistido na escola e, dois anos depois, voltou para a instituição na função de estagiária “oficial”. 

— O conhecimento que me foi passado na escola foi fundamental na faculdade. Enquanto aprendia sobre o sistema muscular, eu podia testar cada um deles, diferentemente dos meus colegas, que não tinham essa conexão com o corpo — conta Andressa.

Formada e cursando a pós-graduação em osteopatia, ela retornou pela terceira vez à antiga escola, agora como fisioterapeuta. A jovem pretende aproveitar a técnica e a experiência em dança  para ajudar mais no desenvolvimento dos estudantes de dança, utilizando os tratamentos para que eles possam garantir o melhor desempenho em aula.

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