"Não fiz mais do que a minha obrigação", diz Titi Müller, que chamou DJ de "machista e babaca"  - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Entrevista27/03/2017 | 15h56Atualizada em 27/03/2017 | 18h17

"Não fiz mais do que a minha obrigação", diz Titi Müller, que chamou DJ de "machista e babaca" 

Apresentadora dos canais Multishow e Bis criticou ao vivo o DJ israelense, que se apresentou no Lollapalooza, em São Paulo

"Não fiz mais do que a minha obrigação", diz Titi Müller, que chamou DJ de "machista e babaca"  Reprodução / Twitter/Twitter
Titi Müller, que apresentou o Lollapalooza nos canais Multishow e Bis, criticou o DJ Borgore antes de seu show no festival Foto: Reprodução / Twitter / Twitter

Além dos shows de Metallica e The Strokes, um dos assuntos relativos ao Lollapalooza 2017 que mais repercutiu após o festival teve a ver com o DJ israelense Borgore, que tocou num espaço alternativo do evento e teve seu show transmitido por sete minutos na TV.

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Isso porque o DJ  foi criticado publicamente por Titi Müller, que apresentava o Lollapalooza nos canais Multishow e Bis. Ele é dono de letras que falam coisas como "na cama, seja como uma vagabunda, mas antes lave a louça". A apresentadora gaúcha, que falou ao vivo sobre as letras "machistas, misóginas e babacas" do artista, concedeu entrevista a ZH na tarde desta segunda-feira, dia seguinte ao show de Borgore – e de seu discurso, que virou símbolo de luta de feministas e alvo de críticas de quem considerou a apresentadora "mimizenta", em suas próprias palavras. Na entrevista, ela reforça a importância de discursos de pessoas públicas em espaços como a TV, diz que letras como as de Borgore são "datadas" e afirma que gostaria de sentar com o DJ para uma entrevista. 

Teu discurso sobre o Borgore acabou repercutindo até mais do que os shows do Lollapalooza. Foi uma fala planejada ou aconteceu espontaneamente? Por que tu resolveste falar aquilo naquele momento?
Nunca sabemos o que vai acontecer ao vivo. Às vezes, não tem tempo de falar nada entre os shows, só de chamar o próximo artista. Estudamos muito cada artista, porque, além de ter que ficar 100% imerso no universo do festival e ter que entrevistar alguns artistas, por vezes temos que ficar horas no ar falando. O Multishow faz uma pesquisa gigante, os apresentadores se ajudam muito, e, durante as nossas pesquisas, foi unânime (a opinião sobre Borgore). Eu não conhecia o trabalho dele e, na medida que fui vendo entrevistas e letras do DJ, quase tive um AVC (risos). Eu não tinha exatamente um texto preparado. A ficha que estava na minha mão era de outro artista, e a ficha de trás tinha algumas letras do Borgore anotadas, que foi sobre do que eu falei um pouco depois. Quando eu comecei a falar, o diretor me avisou que eu tinha de três a cinco minutos, e comecei a introduzir o que lembrava. O Multishow não sabia exatamente o que eu ia falar, até porque foi tudo de improviso, mas sabiam que alguém poderia falar. 

E o discurso acabou repercutindo muito, com alguma polêmica em torno. Internamente, tu recebeste algum tipo de reprimenda por ter externado tua opinião?
O Multishow e o Bis me apoiaram muto. Na van, voltando para casa, meus colegas tiveram uma reação parecida com a que vi na internet: "Maravilhosa! Lacrou! Pisou! Incrível! Nos representou!". Eu falei o que todo mundo falaria, pelo menos todo mundo entre os meus colegas. O Bis decidiu cortar (o show de Borgore acontecia no Palco Perry's e seria transmitido na transição entre um show e outro do Palco AXE, mas, depois da fala de Titi, a transmissão não aconteceu), acho que por uma série de fatores: o palco AXE estava adiantado, poderia cortar antes, mesmo, até para falar um pouco mais sobre o assunto. Estávamos revezando entre os dois palcos, e o foco era o AXE, com entrevistas, apresentadores. Nosso diretor decidiu cortar antes, acho que em apoio, tipo "vamos falar de coisa boa, vamos falar da iogurteira" (risos). Eu peguei de volta e introduzi a Silversun Pickups, então tive que mudar a chave, até porque o festival não é o espaço para assuntos muito pesados. Quando tu tens o espaço, tens que falar, e o Borgore não era só o momento, era algo que precisava ser falado. Durante 10 horas de transmissão, fazemos um monte de brincadeiras. Não imaginei que fosse repercutir tanto, porque só falei o óbvio, não fiz mais do que a minha obrigação. Mas, pela repercussão, percebi que tem que falar o óbvio muitas vezes, para que ele entre na cabeça das pessoas. E a TV é importante para isso.

Ainda que a maior parte dos comentários nas tuas redes sociais tenha sido de apoio, houve também reações contrárias. Isso te preocupa de alguma forma?  
Sinceramente, não vi nada. Só vi o que as minhas amigas printaram e me mandaram, com umas montagens maravilhosas, por sinal. As pessoas me mandando lavar louça do lado de fotos minhas lavando louça no Carnaval (risos). É para dar risada. Acho que vou rir bastante se parar em um desses portais grandes, porque comentarista de portal... Que profissão é essa que eles optaram ter, sem remuneração? I couldn't care less, para não dizer outra coisa.

Esse tipo de discurso contra a discriminação vem sendo cada vez mais comum, principalmente na TV. Na tua opinião, isso ajuda de que forma?
Ah, ajuda a estourar a bolha. O que a gente vê na nossa timeline é o que a gente quer. O meu feed é só Clara Averbuck, Mari Messias (mulheres ligadas a causas feministas), páginas que sigo, opiniões que já tenho, que só reforço. Procuro sair o máximo possível da bolha, trocar ideia com amigo que não concorda com a minha visão política, amigo que usa o termo "feminazi". Sento e converso com todo mundo. Quando isso vai para a TV, não é o teu feed, que tu podes bloquear, parar de seguir, dar unfriend. Tem até aquele link para tu veres quais teus amigos curtiram o Bolsonaro, para deixar de ser amigo. Não acho isso positivo. Na TV, tu não escolhes, quando tu vês, tem uma mulher falando na tua frente sobre coisas que tu não sabes que ela vai falar, sobre artistas que tu talvez não conheças. Estou pensando com a cabeça de quem está zapeando, para e escuta aquilo, alguém falando de machismo. É importante, porque as pessoas não foram atrás disso.

Os holofotes se viraram para ti agora, mas talvez algumas pessoas não saibam que tu trabalhas na TV há quase 10 anos e por muito tempo falou sobre sexo. De lá para cá, muita coisa mudou?
Muito. Em 2008, na MTV, eu era menina. Eu jamais falaria novamente a quantidade de besteira machista e gordofóbica que falava. A gente vai se desconstruindo diariamente, é uma batalha, está tão impregnado no nosso DNA que é um exercício diário. O que eu falava no Podsex (2009) é diferente do que eu falava no MTV Sem Vergonha (2012), que é diferente do que eu falaria agora. Melhorou o discurso e melhoraram também as críticas: antes as críticas eram "cadê os pais e os namorados dessas duas gurias, que não deram uma surra nelas e colocaram para lavar louça, para parar de falar putaria na TV?". No MTV Sem Vergonha era mais nichado, o público era mais gay e mulher, então as críticas tinham mais a ver com a pauta. Na medida em que a gente avança, tem o contrafluxo, todo movimento tem uma contramão muito forte. A gente vê os "bolsominions", a extrema direita, o radicalismo religioso, que estão zero aberto ao diálogo. Acho que vamos lembrar dos últimos anos como um momento muito importante daqui a alguns anos. Como a Clara Averbuck escreveu em um texto: se as pessoas nos acham chatas e "mimizentas", é porque ainda não viram a próxima geração.

Em quase 10 anos de trabalhos na TV, tu já havias passado por outra situação que a deixou desconfortável e não falou nada, diferente do que aconteceu no Lollapalooza?
Estão falando muito que critiquei o Borgore e não critico o funk carioca. Critico todo o tipo de letra machista ou que deprecie a mulher ou que coloque a mulher em um papel subjugado! Uma vez o Péricles estava sendo entrevistado e eu estava pegando perguntas do público. Ele tem uma letra que me irrita muito (Se Eu Largar o Freio, que fala coisas como "A pia tá cheia de louça, o banheiro parece que é de botequim, a roupa toda amarrotada, e você nem parece que gosta de mim"). Tinha uma menina muito fã dele, e eu perguntei "o que tu achas disso?", e ela: "eu sempre pulo essa música no CD". Acabou sendo uma pergunta de nós duas, mas que saiu da boca dela para o Péricles: "Será que ainda tem espaço para esse tipo de letra? Porque é bem machista...". Ele ficou um pouco assim, pensou, falou que a letra não era dele e disse: "pois é, é um jeito que a gente via a mulher...", sempre no passado. Dentro da cabeça dele, naqueles poucos segundos, talvez tenha tido um questionamento. Pode ser pretensioso pensar que uma pergunta que fiz para o Péricles tenha feito ele rever os conceitos, mas acho que é por isso que o debate é importante. Se o Borgore quiser sentar comigo e fazer uma entrevista, me interessa muito entender por que ele faz isso. Muita gente fala que ele é um querido, que isso é um personagem... Quero entender esse personagem. Eu daria conselhos para ele: "Tu és talentoso, tuas batidas são incríveis, mas esse tipo de letra não dá mais! É datado!".

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