"Nem a censura entendia o que éramos ou o que dizíamos" - Leia entrevista com os Novos Baianos - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Tinindo e Trincando14/04/2017 | 09h13Atualizada em 14/04/2017 | 09h13

"Nem a censura entendia o que éramos ou o que dizíamos" - Leia entrevista com os Novos Baianos

Mitos da música brasileira, grupo apresenta neste sábado em Florianópolis show da turnê Acabou Chorare, considerado o maior disco da música brasileira de todos os tempos

"Nem a censura entendia o que éramos ou o que dizíamos" - Leia entrevista com os Novos Baianos Mila Maluhy/Divulgação
Reencontro dos Novos Baianos Foto: Mila Maluhy / Divulgação

Os Novos Baianos mudaram a história da música brasileira. Não é exagero de saudosistas. Com a alquimia paz&amor dos anos 70, eles selaram a paz entre cavaquinhos e guitarras elétricas, trouxeram novas poesias e comportamentos e, tinindo e trincando, em apenas 10 anos — de 1969 a 1979 — construíram uma obra musical considerada das mais importantes da MPB.

Passados mais de 35 anos que o grupo acabou, Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão estão em turnê com Acabou Chorare, lançado em 1972, e sucessos de outros discos. Em Florianópolis, o show será sábado no Centrosul.

Em entrevista por e-mail, Paulinho, Baby, Moares e Gavão se revezaram em respostas sobre bastidores, o "porra-louquismo" dos anos 1970 e o legado dos Novos Baianos.
 

Tem uma passagem famosa de Noites Tropicais, do Nelson Motta, sobre a vez em que o João Gilberto apareceu no apartamento-comunidade onde os Novos Baianos moravam. Segundo Motta, esse encontro frutificou — e, claro, um dos frutos seria o Acabou Chorare. Como foi esse episódio, na versão de vocês?

Paulinho Boca de Cantor: nosso encontro com o João Gilberto deu muitos frutos sim. O maior dos frutos com certeza foi voltarmos a pegar o caminho de casa, ou seja, voltarmos a olhar para a música brasileira com outros olhos. Como achávamos que podíamos a qualquer momento ser convidados pela repressão — a ditadura militar — a deixarmos o país, estávamos fazendo um som bem pop rock e algumas incursões por ritmos latinos. O João foi quem nos fez desencaixotar o bumbo, o pandeiro, o cavaquinho, o violão de sete cordas e assim nasceu o regional dos Novos Baianos, o samba dos Novos Baianos. Bem como as fusões do regional com o pop internacional, uma marca forte e original do nosso som. E claro que essa influência gerada pelos encontros com o João Gilberto vieram desaguar no Acabou Chorare. Mas além de toda essa importância musical,  o nosso encontro com o João foi também uma experiência maravilhosa na vida de cada um de nós, foram ensinamentos que marcaram nossas vidas para sempre. Como diz o Moraes Moreira, João é um dos pilares dos Novos Baianos — o outro é o Tom Zé.

 Acabou Chorare foi considerado o maior disco de música brasileira de todos os tempos. Como era o processo de composição de vocês? Todo mundo junto, cada um na sua? Lembram de histórias engraçadas, de bastidores?

Moraes Moreira: a dupla Moraes e Galvão são os autores da maioria das músicas, desde o começo foi assim. Pepeu e Paulinho participavam de uma ou outra composição. O processo de criação era tocar o tempo todo, eu estava sempre com o violão na mão. Galvão chegava com a letra e aí começava o trabalho de criação. Criamos um estilo único. Às vezes, começávamos pela manhã. Logo que a música tomava forma, vinha toda a galera, cada qual com seu instrumento e aí virava festa.

Capa de "Acabou Chorare", disco lançado em 1972 Foto: Reprodução / Reprodução

Os Novos Baianos viraram um mito, inclusive para uma nova geração talvez com menos referenciais contemporâneos. Por que acham que o som dos Novos Baianos atravessa gerações?

Baby: essa geração está em busca de uma música que represente seus sonhos de um mundo melhor, e também a da busca de uma vida onde os valores conquistados pela galera do "paz e amor" não morram . Eles se apaixonam por experiências de vida e por uma música coerente com a vivência de quem canta. Novos Baianos é uma tribo, é essa juventude, é dessa tribo .

Tem uma história sobre as experimentações de vocês em busca de sons diferentes, e que inclusive custou uma TV, que foi desmontada para que Pepeu e Moares fizessem um pedal de guitarras a partir das peças...

Baby: essa TV foi um presente que meu pai tinha me dado. Colocamos no telhado da varanda e fizemos uma arquibancada para assistir aos jogos da copa. Eu só vim a saber que Pepeu e Salomão, nosso antigo técnico de som e que fazia tudo o que Pepeu queria na guitarra dele, e morava conosco, desmontaram a TV para fazer uma distorção pra guitarra dele dois anos depois! Kkkk! Um dia eu perguntei sobre a TV, e eles me disseram que tinha caído do telhado e quebrado. E amei! 

O que exatamente significava juntar rock com samba no Brasil dos anos 1970? À época, o nível de caretice era equivalente ao de "porra-louquice"?

Moraes: tínhamos consciência que a música era universal, fazíamos o casamento entre o elétrico e o acústico. Misturávamos linguagens, Jimi Hendrix com Waldir Azevedo, Janis Joplin com Ademilde Fonseca, era uma loucura deliciosa.

Se não fosse o "porra-louquismo", vocês acham que teriam feito e experimentado em música como fizeram?

Moraes: 
dentro de toda a loucura, havia um responsa muito grande, queríamos fazer bem feito, compor, tocar e cantar bem. Esse sempre foi o nosso objetivo. Criar o novo.

Vocês acham que era mais fácil ou mais difícil quebrar paradigmas em relação a hoje?
Galvão:
 nos anos 70, nós chegamos sem respeitar nada do que estava acontecendo politicamente no Brasil. Fui comunista simpatizante como universitário e agrônomo. Porém quando Novos Baianos se apresentaram em minha vida, o que imperava era a arte. É um novo estilo de vida mais para o anarquismo baiano e nem a censura entendia o que éramos ou o que dizíamos. E passávamos batidos, chamávamos atenção pelas roupas e maconha e as músicas estourando nas paradas, juventude se alegrando com a novidade que trazíamos, naturalismos, artesanato, vida em comunidade, esporte, um estilo de vida que praticávamos.

Qual era o propósito dos Novos Baianos, quando o grupo começou?

Galvão: o propósito? Não cabe, fazíamos músicas e vivíamos o que éramos e as pessoas de talento se aproximavam: artistas , cineastas, até índio boliviano — uma espécie de xamã. Uma panela cultural formada naturalmente e com uma força tamanha que permanece viva e novinha em folha, flores e muitos frutos.

E o retorno, pelo que sei, não foi planejado. Mas por que resolveram voltar e seguir em turnê? Por que mesmo vocês pararam?

Paulinho: nós nunca combinamos de começar o grupo, como também nunca combinamos de terminar e acho que é exatamente por isso que nunca terminou. Rss. É só ficarmos um tempinho juntos, que volta toda aquela sintonia. As coisas aconteceram como tinham que acontecer,  tanto quando nos juntamos no final dos anos 60 como quando nos separamos no final da década de 70. Cada um seguiu seu caminho, mas todo dia de nossas vidas, alguém perguntava: "quando vocês vão se juntar de novo pra fazer aquele som". E agora o tempo chegou e o universo conspirou.

Pepeu Gomes, Baby do Brasil e Moraes Moreira Foto: Mila Maluhy / Divulgação

Eu moro em Salvador e fui procurado pelo pessoal da área cultural do governo e do Teatro Castro Alves e me deram a missão de reunir os Novos Baianos para a reabertura da Concha Acústica do Teatro, já que nós temos uma ligação afetiva e histórica com esse espaço cultural importante para a Bahia. Chamei a Baby, que tinha acabado de fazer o Rock in Rio com o Pepeu e estava em contato direto com o Moraes (eles moram no Rio). E passei a missão pra ela de conseguimos nos unir novamente. Para matarmos a saudade dos que viveram aquela época louca e colorida e para matarmos curiosidade das novas gerações que se seguiram e que sempre cobraram nossa volta. E estamos aí, graças a Deus, sempre Novos e Baianos, juntos até quando vocês quiserem e nós também. Espero que por muito tempo.


AGENDE-SE
O quê:
Acabou Chorare - Novos Baianos se encontram
Quando: sábado, às 22h
Onde: Centrosul (Av. Governador Gustavo Richard, 850, Centro, Florianópolis)
Quanto: a partir de R$160 (3º lote), à venda via Blueticket. Sócios do Clube do Assinante e acompanhante têm R$ 30 de desconto na compra do ingresso antecipado
Informações: (48) 3251 4000

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