Fabrício Cardoso: Senta que lá vem autoajuda" - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Opinião08/05/2017 | 20h25Atualizada em 08/05/2017 | 20h25

Fabrício Cardoso: Senta que lá vem autoajuda"

"Há algo de quentinho e úmido na tristeza, mas é o ar fresco do mundo lá fora que nos mantém verdadeiramente vivos"

Sou um tipo meio repetitivo com ironias, sobretudo aquelas concebidas para camuflar invejas. Ainda procuro entender se por falta de memória, repertório ou ambos. Por exemplo: reitero à exaustão, para desespero da gente de má sorte obrigada a conviver comigo, o desejo de ser um jogador de futebol com mais de 30 anos.

Porque, para estes caras, um milagre cronológico se consuma na alvorada da quarta década de vida. O calendário passa a correr com lentidão. Dali em diante, só fazem aniversário de três em três anos, quiçá quatro. Graças ao fenômeno que desafia as leis da física quântica, meus contemporâneos estão aí, jogando bola com 35 anos, enquanto eu me envergo com o peso de uma existência à beira de meio século. Aposto que você já me ouviu lamuriando sobre isto.

Também desejei, com todo ardor juvenil, o metabolismo de atrizes globais, que, presumo, seja agora um benefício corporativo estendido a subcelebridades de qualquer procedência. Porque todos exibem corpos de habitantes da Grécia antiga comendo de tudo, sem maiores neurastenias com academia e contagem de calorias. Se tamanha procedência divina fosse universalizada, precisaríamos desmatar duas amazônias só para dar conta dos churrascos de domingo mundo afora. Deus é sábio e misericordioso, pois.

Bem, encerro por aqui minhas ironias para camuflar invejas e preguiças. O que vem adiante é sério.

Nutro sincera admiração por quem, diante de uma tristeza insistente, busca alívio, talvez salvação, nos prazeres sutis dos tempos menos sombrios. É admirável que alguém sentindo tudo na ferida viva do coração (tomem o roubo deste verso como uma homenagem ao poeta Belchior, que se foi dia 30 de abril) consiga se permitir agrados comezinhos, como, por exemplo, acordar às 6h da manhã para correr ou preparar uma refeição demorada, só pelo deleite de comer com lentidão.

Os mais azedos dirão que prazeres pequenos-burgueses talvez estejam na gênese dessas tristezas que nos adentram a vida sem pedir licença. Ok, não duvido, acho até sensato. Corremos loucamente atrás de grana para sustentar momentos fugazes de plenitude, como se viver fosse uma sucessão de sofrimento com horário agendado para uma felicidade gourmet ou da moda.

Mas quem cuida de si durante estas escuridões da alma termina por fazer o bem coletivo, sobretudo para quem se importa conosco. Porque não é agradável testemunhar a reclusão progressiva da qual a tristeza se retroalimenta.

Às vezes, talvez sempre, a coragem de romper o ciclo gravitacional das emoções reoxigena tudo. Há algo de quentinho e úmido na tristeza, mas é o ar fresco do mundo lá fora que nos mantém verdadeiramente vivos. Por que abrandei minhas ironias cínicas para falar sério? Porque acordei meio inclinado a passar o dia de sol trancafiado, remoendo as dores da vida adulta, mas reagi. Como não sou jogador de futebol, subcelebridade ou qualquer outra categoria dotada de superpoderes, fui caminhar no parque e escrever para o Santa: duas coisas que me iluminam.

Posso, depois disso, assegurar que estou bem. Não se preocupem.

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