Andrey Lehnemann: o tratamento da mulher no cinema e a discussão de gênero - Primeira Parte - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Cinema13/07/2017 | 16h41Atualizada em 13/07/2017 | 16h41

Andrey Lehnemann: o tratamento da mulher no cinema e a discussão de gênero - Primeira Parte

Colunista analisa a representação feminina através do tempo

Andrey Lehnemann: o tratamento da mulher no cinema e a discussão de gênero - Primeira Parte Imovision/Divulgação
Foto: Imovision / Divulgação
Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

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Em uma das cenas mais icônicas dos anos 90, Neve Campbell e Denise Richards trocam beijos calorosos dentro de uma piscina, enquanto o personagem de Kevin Bacon, Ray Duquette, grava tudo. Ali está a epítome do voyeurismo nos anos em que a objetificação do corpo feminino era mais acentuada não como uma forma de personalidade, mas por caprichos masculinos que apenas as tornavam adereços ou conquistas de seus personagens truculentos. Neste sentido, com a legalidade sexual exposta a partir dos anos 60, com filmes como Pussycat Kill Kill, Gritos en la noche e A Bela da Tarde, houve uma diferença entre o desenvolvimento da libertação sexual e o fetichismo.

Nos anos 80, 90 e na virada do milênio, os thrillers e comédias eróticas não buscavam alimentar grandes discussões sobre sexualidade, mas cultivar um público jovem que iria ao cinema se deleitar com a nudez gratuita, sem que fosse julgado por assistir a algo explícito. A franquia American Pie não amadureceu, neste aspecto, tampouco acompanhou seu público, que, claro, madurou e foi procurar seus interesses nos relacionamentos em franquias como Se Beber Não Case.

Esse princípio do erótico e do papel da mulher no cinema já foi revisitado por inúmeras autoras americanas que criticaram a passividade com que a natureza feminina era encarada na arte. Se o homem tomava a mulher como um objeto de desejo, dentro do conteúdo cinematográfico, autoras feministas argumentavam que longas-metragens que estabeleceram a figura da mulher mais presente em obras clássicas também acentuavam uma fantasia. Fugiam da complexidade humana para se ancorar em estereótipos, muitas vezes masoquistas, sobre o erotismo. May Ann Doane dizia que o cinema observava a mulher como uma espectadora ou como um objeto, sempre a diminuindo, independente de seu papel. Se o olhar erótico era para o público masculino, a indústria assumia o perfil feminino como deserotizado. Hoje mesmo, ainda que filmes como Azul é a Cor Mais Quente, assumam-se como olhares mais humanos sobre relacionamentos bissexuais, o olhar do diretor é tido pela maioria das mulheres que entrevistei como algo fetichizado. Uma cena de sexo lésbico que dura 18 minutos para agradar seu realizador.

A discussão sobre o papel da mulher na indústria chega em diferentes áreas. Até mesmo no cinema pornô, documentários como After Porn Ends e Hot Girls Wanted já evidenciaram como a perspectiva sobre o sexo permanece masculina, sendo a mulher a última a obter prazer nas cenas, geralmente sendo uma figura passiva frente ao dominante masculino. O debate se estende. Na própria crítica cinematográfica, hoje em dia, há associações que respondem a essas inquietações. Segundo Samantha Brasil, uma das idealizadoras do projeto Elviras, o coletivo surgiu pela vontade de mapear a quantidade de mulheres críticas de cinema no Brasil (quem são, onde escrevem, qual faixa etária e região), já que se nota a escassez de mulheres nas funções de crítica dos principais veículos de cinema, nas curadorias, júris e mesas de debate dos principais festivais e mostras de cinema do país. "Ao observar que várias mulheres frequentam cabines de imprensa e cobrem festivais, onde essas mulheres atuam? É o que nos perguntávamos. Por que não são convidadas? Quais entraves o machismo estrutural coloca para a manutenção dessa estrutura excludente? Fizemos nosso lançamento oficial em janeiro no Festival de Tiradentes e, hoje, já estamos com 98 integrantes", assinalou Samantha. A importância para ela e outras mulheres do coletivo é exatamente a rede de fortalecimento que pode ser criada por meio disso. Uma forma de contracultura. "O coletivo é uma forma política de ocupar espaços que naturalmente não nos são dados", completa.

A inspiração do coletivo veio de outra experiência: a DAFB – um coletivo de diretoras de fotografia do Brasil. Kike Krueger, diretora de fotografia catarinense destacou que nunca foi desestimulada, mas que percebe a necessidade de outras mulheres na área, que já são muito poucas. "O DAFB serve de alguma forma para escancarar esse problema e estimular mais mulheres. Espero que isso se reflita aqui no Estado", analisa. Segundo dados do coletivo das Diretoras de Fotografia, o setor do audiovisual é o que menos emprega mulheres no mundo. De acordo com gráficos mostrados no site, o número de longas de ficção fotografados por mulheres no Brasil de 1995 até 2015 é pouco mais do que 0 – algo estarrecedor. O percentual nas equipes de fotografia também assusta, pois 78% dos filmes brasileiros no período não tiveram mulheres na equipe. No mundo, igualmente, podemos levantar uma questão intimidante: desde que o Oscar surgiu, não houve sequer uma mulher indicada em direção de fotografia. Como se não existissem fotógrafas no cinema.

Larissa Demétrio Padron tem um canal no Youtube atualmente, o Fora de Padron, que é atrelado a outro site e começa aos poucos a ganhar uma quantidade significativa de seguidores. Ela indica que o público majoritário do seu canal é 80% masculino e, por isso, alguns comentários soam mais maldosos ou agressivos, quando a análise é algo fora do discurso comum: "Se você pegar críticos do mundo inteiro e considerar os principais veículos, perceberás que a dominação masculina é gigantesca. A proporção é muito injustiça. Em qualquer lugar. Da Abraccine até o Rotten Tomatoes, há problemas no equilíbrio". Larissa sublinha que é importante que se note que mulheres não são feitas para falar apenas sobre filmes com temática feminista, mas sobre qualquer pessoa.

"Somos minoria e, sim, há uma certa deslegitimação de comentários femininos sobre o cinema. Quando integrava um podcast, por exemplo, eu percebia que quando eu falava algo inverídico, eu era muito mais atacada e criticada que meus colegas homens. (...) As mulheres sofrem críticas mais duras e destrutivas. São desestimuladas!", ela avalia.

A análise continua na próxima coluna.

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