Andrey Lehnemann: o tratamento da mulher no cinema e a discussão de gênero - Terceira parte - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Cinema27/07/2017 | 13h47Atualizada em 27/07/2017 | 15h01

Andrey Lehnemann: o tratamento da mulher no cinema e a discussão de gênero - Terceira parte

Colunista analisa a representação feminina através do tempo

Andrey Lehnemann: o tratamento da mulher no cinema e a discussão de gênero - Terceira parte Juliana Krueger/Arquivo Pessoal
Foto: Juliana Krueger / Arquivo Pessoal
Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

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A estrutura narrativa trabalhou por anos com a mulher sendo um elemento passivo aos olhos masculinos. No terror, por exemplo, quando a colocava em condições de vingança, o voyeurismo acabava sendo outro: o da provocação curiosa da dor masculina. Sempre o primeiro elemento a ser cortado, como uma espécie de retaliação, era o objeto fálico –como se finalmente o homem estivesse impotente. No noir, a mulher era a femme fatale. A musa quase aristocrática que desorientava os pobres detetives que eram vulneráveis à carne. Esses panoramas criaram um mundo difícil para personagens femininas se tornarem complexas, pois a indústria havia criado a fórmula pré-histórica. Kaplan, em seu livro A Mulher e o Cinema, chama essa construção feminina como ausente, silenciosa e marginal. A autora destaca que isso só começou a mudar lentamente com o cinema experimental, que serviu para livrar personagens de amarras ideológicas.

Cláudia Cárdenas que é uma das referências de Santa Catarina em cinema experimental, com o Duo Strangloscope, com vários trabalhos internacionais, enxerga exatamente esse ponto levantado por Kaplan. Para ela, o feminismo do cinema é intrínseco ao cinema experimental. "O olhar masculino é o comercial, o de Hollywood, aquele de reduplicação das convenções deste sistema patriarcal, reificante das estruturas sociais mais convencionais. Um cinema que pretende vender produtos estará sempre atrelado ao que quer vender um sistema", avalia Cárdenas. A direção que o experimental deu para a carreira da diretora testemunha essa frustração e afastamento do mainstream. Tudo parece interligado, como parte dessa representação: não só o caráter novelesco de certas produções, como também a padronização de comportamento, quando tudo deveria ser mais complexo.

A crítica de cinema Laura Mulvey discorre sobre algo chamado counter cinema (a já citada contracultura), no seu texto mais famoso Visual Pleasure and Narrative Cinema, na qual indica a necessidade de uma nova linguagem, já que a diferenciação de gêneros é feita exclusivamente por olhar/imagem. A jornalista e modelo Clara Obst destaca que, na sua visão, aos poucos, as vozes vão sendo ouvidas e essa dicotomia sendo abolida, mas ainda está longe do esperado. Para ela, o erotismo não é e não pode ser punitivo no cinema. "O erótico e o feminista não são excludentes. Nem tudo envolve romance. Precisa-se entender que mulheres não são estereótipos. Até no que tange pensamentos quanto ao gênero, as mulheres possuem divergências. Todos temos nuances", aponta. 

Nos cursos de cinema, que poderiam traçar o futuro, no entanto, o olhar masculino também predomina. De acordo com uma estudante da área, em Florianópolis, os professores que falavam sobre história de cinema citavam nomes importantes, como Alice Guy, apenas em estudos direcionados. Helena Novo, estudante de cinema da UFSC, também critica essa estrutura mainstream. "É o complexo do bela, recatada e do lar. Os homens envolvidos com o cinema esperam certas coisas das mulheres. Elas são feitas sob encomenda. Para o prazer dos olhos masculinos. Nós queremos ver filmes com mulheres, não com pares românticos."

O esquecimento de Alice Guy também nos insere num caminho que chega até as mais novas diretoras. Numa indústria que você não pode errar, caso queira continuar produzindo, as mulheres sofrem ainda mais com esse caráter destrutivo de jovens promessas. Para muitos, Mulher Maravilha teria representado um passo importante não para heroínas no mainstream como também demonstra um futuro para diretoras nos grandes estúdios. Todavia, é importante deixar registrado que essa foi a mesma indústria que demorou 14 anos para dar outra chance para uma cineasta aclamada como Patty Jenkins, em Monster: Desejo Assassino. Outro exemplo? Kimberly Peirce havia lançado seu interessantíssimo Meninos Não Choram, em 1999, o qual deu o Oscar a Hilary Swank. Seu próximo filme em um grande estúdio? Carrie: A Estranha, um remake, 14 anos depois. Sugere uma tendência, certo? Peirce, no entanto, não teve grande receptividade econômica com seu remake de Carrie e não tem tido grandes trabalhos desde então, apenas dirigido episódios para a TV.

É significativo que possamos fazer um apanhado de mulheres com certa popularidade no mainstream, sem que imaginemos um número infinito, o que por si só já representa o problema. Você pode pensar em Jodie Foster, Kathryn Bigelow, Andrea Arnold, Debra Granik, Margarethe von Trotta, Lone Scherfig, Jane Campion, Lynne Ramsay, Mélanie Laurent, Marjane Satrapi, Jennifer Lee, Kelly Reichardt, Julie Taymor, Amy Heckerling, Ava DuVernay, Barbara Kooke, Sofia Coppola, Angelina Jolie, Sarah Polley, Ana Lily Amirpour, Nancy Meyers e Patty Jenkins. Mas quantas você pode imaginar frustrando as expectativas dos grandes estúdios e tendo uma segunda chance? A coadjuvância no mainstream não está restrita aos personagens, os sinais nos mostram. Hoje em dia, se você não possuir um nicho, como o caso de cineastas como a brilhante Laura Poitras, Marina De Van, Julia Ducournau, Katrin Gebbe, Leigh Janiak, Jennifer Kent, Hélène Cattet, Anna Rose Holmer, Karyn Kusama, Dee Rees, Deniz Gamze Erguven, Céline Sciamma e tantas outras, as cineastas ficam à mercê de contexto e da indústria.

Em alguns lugares, já existe esse interesse de inclusão de mulheres nos ensinamentos e eventos focados. Juliana Krueger, que hoje faz doutorado em cinema em Roma, aponta para essas tentativas. "Ainda que na Itália tenha essa forte tradição machista e as mulheres diretoras e produtoras ainda sejam minorias, as pessoas têm falado cada vez mais em uma 'cota rosa' nas produções audiovisuais". Diretora do premiado Deserto Verde, ela falou sobre sua experiência no audiovisual, onde como produtora realizou longas-metragens com uma equipe predominantemente feminina. "O relacionamento fica mais complicado quando existe uma diretora de algo e o assistente é um homem. A sensação é de que sempre existe algo no ar, como se tivéssemos que provar que estamos certas de algo", destaca.

No cinema brasileiro, as referências também frustram em sua numerosidade. Lucia Murat, Julia Murat, Anita Rocha da Silveira, Marina Person, Leandra Leal, Bia Lessa, Ana Rieper, Cristiane Oliveira, Suzana Amaral, Maria Augusta Ramos, Sandra Weneck, Gisela Câmara, Sandra Kogut, Laís Bodanzky, Tata Amaral, Anna Muylaert, Juliana Rojas, Caroline Jabor e Petra Costa são algumas das melhores cineastas trabalhando no cenário brasileiro atual, mas sobrevivem no panorama independente. Raras são as exceções. Em Santa Catarina, Gabi Bresola, Juliana Krueger, Marcia Paraíso e Cíntia Domit Bittar representam o frescor da produção audiovisual catarinense.

Embora listas que demonstram o fato de haver poucas obras dirigidas por mulheres no mercado sejam eficientes, a cobrança precisa ser mais expansiva. Além de chamar a atenção ao problema, é de interesse público que a mudança seja presenciada no cerne da indústria. Se aos poucos as mulheres começaram a aparecer com algum destaque na direção, o que dizer das fotógrafas, maquiadoras, figurinistas? Quantas trabalharam no último filme que você viu? Faça o teste.

A pluralidade sempre oferece riquezas, jamais oferece caráter de exceção.

Primeira parte
Segunda parte

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