Andrey Lehnemann: diretor de "Em Ritmo de Fuga" cria estudo de personagem sobre jovem protagonista - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Coluna de cinema10/08/2017 | 14h00Atualizada em 10/08/2017 | 14h00

Andrey Lehnemann: diretor de "Em Ritmo de Fuga" cria estudo de personagem sobre jovem protagonista

Diretor inglês Edgar Wright brinca com o conceito de certo e errado

Andrey Lehnemann: diretor de "Em Ritmo de Fuga" cria estudo de personagem sobre jovem protagonista Sony/Divulgação
Foto: Sony / Divulgação
Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

A maneira como reproduzimos contextos no cinema é fascinante. Quando precisávamos criar empatia com personagens violentos, por exemplo, tratávamos de humanizá-los o mínimo que fosse para que não precisássemos acompanhar um canalha completo em sua missão nos submundos do crime. Scarface é um exemplo claro e, inclusive, citado em cursos de cinema, pois atribui algum tipo de caráter ao protagonista na primeira cena do filme, quando ele se sente acuado e fala sobre a irmã. O que você vê depois, torna-se uma ilusão narrativa, porque você passa a achar que só você, o espectador, sabe quem é o verdadeiro Tony Montana. Aquele sujeito que gosta da irmã. Ele não é completamente desumano. Há um coração. Esse é o princípio da empatia no cinema. Quando pegávamos os assaltantes sendo caracterizados como mocinhos, a exemplo de Onze Homens e um Segredo, ainda assim tínhamos uma questão imprescindível para que torcêssemos para os anti-heróis: eles roubavam cassinos, que supostamente eram gerenciados por aproveitadores e criminosos, portanto eles só estavam roubando de quem rouba.

Essa é uma das falas do personagem de Jamie Foxx, em Baby Driver (Em Ritmo de Fuga), que atiça a curiosidade para o contexto do filme de Edgar Wright. "Nós viemos pegar o que é nosso. Ele nos roubaram. E agora queremos isso de volta", Bats (Jamie Foxx) expõe. O pensamento de que estamos a bordo de um veículo que transgride leis, foge de autoridades, mas assalta o próprio governo, passa a nos sugerir um novo contexto para nossa empatia, onde o transgressor passa a ter nosso carinho pois também gostaríamos de estar provocando o governo em atos rebeldes e pegando um dinheiro que é desviado para outros fins que não a nossa assistência social. Assim, Wright não só brinca com esse caráter paradoxal, como também se diverte ao introduzir esses personagens no mundo de Baby Driver – Buddy, Darling, Baby, Bats, Doc e Griff.

Mostrando que também é um diretor talentosíssimo, o inglês desenvolve o plano sequência inicial com uma habilidade invejável, ao nos apresentar o nome do personagem pela primeira vez – e perceba, desta forma, como o diretor vai e volta do prédio onde Baby (Ansel Elgort) está, como se estivéssemos na perspectiva de um volante. Mais belo é como Baby é apresentado para nós, pouco a pouco, sem que as nuances sejam explicadas didaticamente. Ao nos apresentar a origem de sua história com carros, por exemplo, avaliamos que o seu perfeccionismo por música e pela técnica provém da morte da mãe ao volante de um carro, enquanto ele escutava música para não ouvir as brigas dos pais. Desde então, Baby fugia. Não ligando para a morte, já que a adrenalina vinha de estar sempre perto dela e, consequentemente, perto da mãe, o protagonista se esconde atrás de dance moves e piruetas para nunca se sentir parado. E os únicos momentos que Baby confraterniza a música com alguém é para dois dos personagens mais importantes do longa: a primeira vez, Buddy (Jon Hamm, fabuloso) pega um dos fones da orelha dele para participar do momento que ele vive; no outro, Baby dá para Debora um de seus fones para ela confraternizar com ele aquele instante.

Assim, quando se torna um coadjuvante da história, um carona, Baby para de fugir. Ele entrega o volante para Debora e se rende. Uma forma de deixar claro que Wright não é um diretor que pretende apenas ser descolado. Ele é alguém que sabe exatamente o que faz.

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