Andrey Lehnemann: Selton Mello prova que está entre os melhores diretores de sua geração - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Coluna de cinema17/08/2017 | 14h00Atualizada em 17/08/2017 | 14h00

Andrey Lehnemann: Selton Mello prova que está entre os melhores diretores de sua geração

"O filme da minha vida" é o terceiro longa-metragem de Mello como diretor

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

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Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

O Filme da Minha Vida é um daqueles raros exemplos em que o cinema se mostra íntimo, delicado e caloroso, fazendo parecer que a história a que você assiste é a sua própria. Refletindo sobre o abandono e a vida a partir de um ponto específico, o novo grande filme de Selton Mello conta a história de um jovem professor de francês que, ao mesmo tempo que se sente fragilizado com a ausência do pai, aproxima-se de Paco (Mello), que é um morador da região que é apaixonado pela mãe do garoto e encontra no jovem uma forma de se aproximar.

Não é só na fineza da representação da Serra Gaúcha ou nos costumes do povo que Mello prova a excelência de sua história, mas é na maneira com que faz que o espectador pareça íntimo daquelas pessoas e que conviva com a família de Tony há tempo. O cineasta transparece isso na simplicidade. Há dois grandes exemplos que evidenciam essa sagacidade: o primeiro deles, Paco e Tony estão na cozinha e começam a cantarolar juntos um comercial que passa no rádio. Perceba que Mello não precisa ressaltar que aquele comercial já foi ouvido várias vezes pela família. Eles cantarolando juntos serve para denunciar isso, ao passo que também demonstra que, pela primeira vez, Tony está dando uma chance de Paco fazer parte de sua família, sem o espectro do pai influenciando as decisões naquela casa. A segunda vez que Selton Mello trabalha a natureza próxima de seus personagens é na ida para a fronteira, quando Paco começa a dar lições de adulto para o jovem. O diálogo que diferencia um homem de um porco é, no mínimo, engraçadíssimo.

E mais: na alusão ao amor pelo cinema e pela história, Mello nos relembra o quanto tem o dom de nos guiar por ambientes domésticos leves, mas complexos e depressivos. Feliz Natal explorava os laços familiares de maneira mais categórica, O Palhaço sublinhava uma natureza de isolamento e O Filme da Minha Vida, finalmente, reflete no cinema. Todos os personagens de Selton estão à deriva, nos seus momentos, tentando encontrar seu lugar ao mundo e buscando o que Mello parece compreender como primordial: uma companhia.

Em O Filme da Minha Vida, Tony encontra a personagem de Linzmeyer. Nicolas, o pai, encontra no cinema algo que o faça esquecer sua realidade. As referências aos filmes de Vittorio De Sica e Giuseppe Tornatore só não são maiores que a clássica menção ao início da sétima arte, com o trem chegando e saindo da estação, enquanto Tony discorre sobre o início/fim do cinema.

O capítulo final da história de Tony e sua mãe pode parecer cinematográfico demais, mas por que não? Ao contrário do que o personagem do (carismático) Jonny Massaro parece entender, o meio do filme também faz a diferença.

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