Annabelle 2: A criação do pote de ouro do produtor James Wan - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Coluna de cinema18/08/2017 | 10h46Atualizada em 18/08/2017 | 10h46

Annabelle 2: A criação do pote de ouro do produtor James Wan

Crítico do Diário Catarinense avalia a obra do produtor das franquias "Invocação do mal", "Annabelle" e outros

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

Foto: warner / d

James Wan é um gênio. O malaio responsável por uma rentabilidade quase que fora do comum no cenário do horror mainstream encontrou um pote de ouro na estrada que seguiu no gênero. Em 2007, quando Oren Peli lançava seu Atividade Paranormal, os caminhos apontavam que Peli seria uma das grandes figuras de Hollywood, o que foi um ledo engano. Ninguém contava que o diretor nascido em Kuching, Sarawak, na Malásia, o mesmo de Jogos Mortais se tornaria o principal nome do cinema apenas alguns anos depois.

O que James Wan fez? Em 2010, ao lançar seu primeiro grande filme, Sobrenatural, o diretor recriava na simplicidade de nossos medos e ironias uma trama extremamente palpável para um filme de horror (lembre-se que os Lamberts simplesmente foram embora da casa, assim que descobriram que ela era mal assombrada), sem esquecer da nostalgia. O próprio Wan taxa o filme praticamente como um reboot de Poltergeist. Foi logo depois de seu sucesso que o diretor lançava sua melhor franquia: Invocação do Mal. As histórias de Ed e Lorraine Warren não eram apenas dramas maduros e delicados, como também fazia com que o próprio espectador do gênero ficasse encantado por um retorno ao auge de companhias inglesas como a Hammer, onde atores e personagens eram repetidos e se tornavam referência no horror. Em Invocação do Mal, Wan assinalou seu primeiro home run: uma boneca com nome Annabelle. A personagem fez tanto sucesso no filme que um filme foi o resultado. Invocação do Mal 2, apresentou-nos outros dois personagens a ganhar filmes solos com produção do malaio: A Freira e The Crooked Man. Agora, Annabelle 2 aponta para novas possibilidades, principalmente na pele de um espantalho.

Num momento em que a Marvel domina o cenário mundial com filmes de super-heróis que seguem um padrão cômico e apresentam uma fórmula com, geralmente, o acréscimo de novos personagens, Wan fez sua própria franquia, neste sentido, unindo todas as suas produções com uma cara Wanesca. Sobrenatural, A Casa dos Mortos, Annabelle, Invocação do Mal, Quando as Luzes se Apagam seguem um padrão que o diretor encontrou na primeira obra a abordar os Warren. Ele denunciava que existiam três tipos de estágio entre o mal e uma família atacada: a infestação, a opressão e, finalmente, a possessão. Essa regra é seguida à risca em todos os filmes. Em Annabelle 2: A Criação, Sandberg vai além, deixando claro esses vínculos entre personagens e filmes anteriores.

Deixando de lado citações claras sobre uma freira no novo filme da franquia, o design de produção e o próprio Sandberg sublinham referências a Invocação do Mal em boa parte do tempo, como a própria casa dos Mullins, com seus apanhadores de sonho nas varandas, uma árvore no quintal e um balanço. As cruzes e as freiras de Invocação do Mal 2 também são observadas, com cenas que podem remeter ao último filme dos Warren. Destaco duas delas: a primeira, Annabelle caminha em direção de uma das meninas, desfocada, relembrando a cena em que Ed se comunica com o espírito da velha casa da Inglaterra; noutra, a música representa algo tanto demoníaco como um fator de união familiar. Igualmente, os diretores escolhem certos lugares como a fonte do mal, o que é sempre curioso: uma poltrona, um quarto, uma boneca. O escolhido para ser o hospedeiro do mal, além disso, segue um padrão: Sobrenatural é uma criança em coma, Invocação do Mal é uma mãe que precisa se adequar a um novo lar, Sobrenatural 2 é um homem perdido em seu inconsciente, Invocação do Mal 2 é uma criança que sente a ausência do pai, Annabelle é uma mãe grávida e, finalmente, Annabelle 2 é uma menina com poliomielite.

Em Annabelle 2, os estágios são bem representados, não se pode deixar de frisar, fazendo com que o espectador comece a duvidar do que realmente irá acontecer àquelas pessoas. Pode-se argumentar que o destino de Janice já estava traçado desde a primeira vez que uma marca foi deixada (lembre-se do primeiro Invocação), mas a opressão com as outras meninas consegue gerar grandes momentos imprevisíveis. Um dos melhores exemplos é quando Carol e Nancy fazem uma cabana de lençóis para contar uma história de terror e esse medo ganha vida. O mal é cínico, na visão de Sandberg. As demonstrações com O Espantalho, o lençol e seu próprio demônio endossa essa ideia.

Quando Sandberg passa a não tentar ser James Wan nos seus enquadramentos, como quando tenta construir planos-sequências ou inversões gratuitamente, ele desenvolve seu próprio terror com habilidade. Ele aproveita espaços escuros como poucos, inclusive durante o dia, e muito melhor do que Quando as Luzes se Apagam. Da mesma forma, a leveza com que levanta e desce sua câmara nos joga numa tensão angustiante. São planos simples, mas que desenvolvem com sabedoria o que pode nos assustar. É aquele princípio: "não quero olhar, pois sei que vai acontecer algo, mas, ao mesmo tempo, preciso saber o que irá acontecer". O diretor acerta também na sugestão da boneca como algo que tudo vê, não como uma entidade que se move. Talvez, o grande segredo de Annabelle despertar tanta repulsa e medo é o fato de que não a vemos se mexer, apenas seu olhar impassível. Algo está para acontecer, mas quando? A mensagem é essa.

Revisitando brincadeiras que fazíamos quando crianças e que podem assustar adultos hoje em dia, criando paralelo com o telefone sem fio de Sobrenatural 2 ou o esconde-esconde de Invocação do Mal, Annabelle 2 traz seu próprio jogo. Claro, um jogo que não necessariamente aprimora o que havíamos visto antes, mas que certamente faz jus. Um jogo de pista e recompensa. Portanto, é com encantamento que assistimos a sua cena final, pois se percebe que um universo de terror foi criado há muito tempo. Estamos nele, agora.

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