Andrey Lehnemann: "Bingo" é um testemunho primoroso sobre um homem entre a graça e a insanidade - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Crítica05/09/2017 | 11h22Atualizada em 05/09/2017 | 11h22

Andrey Lehnemann: "Bingo" é um testemunho primoroso sobre um homem entre a graça e a insanidade

"Bingo era alguém angustiado, na beira do abismo, e que usava o humor para extravasar sua própria psicose", analisa o crítico de cinema do DC

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

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Foto: YouTube / Reprodução

Ao observar a figura do palhaço Bingo na televisão, cada vez mais próxima e cada vez o encarando mais, Augusto Mendes se vê contemplando o vazio existencial presente em sua vida. Confinado dentro de seu apartamento majestoso, o qual comprou com a fortuna gerada pelo palhaço, o personagem nos guia num plano sequência brilhante pelas sombras que agora fazem parte de sua morada, tomada por bebidas e drogas, até chegar ao momento derradeiro em que encara Bingo na sua televisão. Como se erros e decisões precipitadas o tivessem o julgando naquele instante, o homem, não o palhaço, soca a televisão com toda a sua força. Aos poucos, observamos-lhe perdendo a consciência e saímos daquele apartamento, daquela fase de sua vida, com o afastamento inclusive de seu início problemático nas pornochanchadas, representada pelo distante quadro de Abajur do Amor. O plano continua até chegar ao hospital em que agora tenta se recuperar. O momento que Rezende corta a sequência do plano? Quando Lucia, a sua futura esposa, presenteia-o com um desenho feito pelo seu filho, quando o garoto ainda tinha orgulho do pai e do ator que ele era. Com a lembrança da mãe na mente, a famosa Marta Mendes, ele decide que precisa ser uma referência melhor para o filho – para o jovem ter o mesmo orgulho que um dia aquele tinha sentido pela mãe.

Essa cena dura uns cinco minutos, mas é o bastante para mostrar o controle que Daniel Rezende (em seu primeiro filme como diretor, após as montagens de Tropa de Elite e Cidade de Deus) tem de sua narrativa. A pergunta lançada no primeiro ato projeta o resto de toda a narrativa: quem é o homem por trás da máscara? Vladimir Brichta, na mais completa atuação do ano e de sua carreira, responde com clareza: Bingo era alguém angustiado, na beira do abismo e que usava o humor para extravasar sua própria psicose. Um dos exemplos mais precisos em que a linha tênue entre a graça e a loucura é ultrapassada é quando Bingo pisa numa boneca de cabelos loiros, numa clara referência à Xuxa e à Rede Globo, enquanto pede para as crianças cantarem com ele "primeiro lugar". O olhar vingativo e a perda de controle gradual de Brichta na cena é espetacular, além de flertar visualmente com o dedo do meio mostrado pelo camera man na contagem que antecede a provocação. Noutra cena, quando o palhaço coloca Serão Extra para tocar e faz coro às dezenas de crianças no refrão – "eu fui dar mamãe..." –, o palhaço ainda está lá. O homem não tinha tomado seu lugar.

Nesta brincadeira entre ficção e realidade, Daniel Rezende nos instiga pelos bastidores dos espetáculos, constantemente enganando o espectador sobre o que realmente está acontecendo em cena e tencionando a natureza cínica de seu biografado numa tragédia quase shakesperiana. Se a droga acaba sendo perfeitamente análoga ao discurso proferido numa igreja universal por um pastor, a naturalidade com que chegamos até aquele momento impressiona ainda mais por seu desenvolvimento, já que a relação de Augusto com a noite e a droga estava sendo cada vez mais corrosiva em seus relacionamentos com as pessoas que amava.

Ainda uma criança ao usar entorpecentes (e o grito com o amigo durante o refrão de Conga é meu momento favorito, neste aspecto), o adulto se afasta do filho na mesma medida que é amado por tantas outras crianças. Assim, é revelador o momento em que os amigos perguntam pro Gabriel se ele quer falar com o Bingo e o pensamento dele transparece que ele queria era falar com seu pai. Uma das cenas mais impactantes do longa-metragem se torna, por isso, o momento em que ele decide tomar a bebida de seu pai, como se estivesse buscando uma forma de se aproximar novamente.

E onde iniciava o palhaço e acabava o homem? Daniel Rezende se compromete a administrar essa dubiedade junto com Brichta, mostrando personalidades distintas aqui e ali, como o momento em que uma simples frase causa uma tensão palpável ("solte seu cabelo"). Enquanto o palhaço treina para não ter medo de nada, o homem tem de tudo: não ser reconhecido, não ser lembrado, perder o seu palco. Quando ele sai de cena, acompanhado por um plano inclinado, as luzes se apagam uma a uma.

Luzes que o acompanham desde o princípio, na curiosidade de seu filho com o trabalho, observando tudo de trás da cortina. Luz que invade seu camarim em momentos diferentes: num com a bebida, noutro com porta-retratos da família. Luz que divide com o filho para fazer brincadeiras com as mãos. Rezende brinca com a luz que cerca seu biografado a todo momento.

Todavia, é no drama intenso que a narrativa de Bingo ressoa como poucas. Quando observamos o olhar choroso do palhaço antes de cheirar mais uma carreirinha de cocaína ou quando a plateia pula enquanto o palhaço baixa a cabeça, nós percebemos a história de alguém fragmentado. De alguém que, em algum momento, deixou de ser para existir.


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