Andrey Lehnemann: Maria Ribeiro cria uma das personagens mais ricas do cinema brasileiro neste ano - Diversão & Estilo - O Sol Diário

Crítica07/09/2017 | 15h43Atualizada em 07/09/2017 | 15h53

Andrey Lehnemann: Maria Ribeiro cria uma das personagens mais ricas do cinema brasileiro neste ano

Mãe e filha de "Como Nossos Pais" são partituras diferentes de um mesmo caderno de música

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

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Mãe e filha de "Como Nossos Pais" são partituras diferentes de um mesmo caderno de música Foto: Divulgação / Divulgação

Como nos refletimos diante da sociedade e para nós mesmos? Somos espelhos incorrigíveis de nossos pais? Ficaremos sempre encarando o passado ou meditaremos sobre o futuro? A personagem de Maria Ribeiro, Rosa, está à deriva, nesta ponderação, quando tenta compreender seu espaço e seu relacionamento familiar. O que a une com aquelas pessoas? Num primeiro momento, é apenas um almoço de domingo. A panela da casa é o destaque do quadro, com a família ao fundo, no quintal. Rosa entra depois. Apenas como se fosse uma cerimônia imperativa. 

É a visão dela, e só dela, que importa à Laís, apesar de sua viagem a Brasília sugerir outra coisa. Os sentimentos do público com a mãe compartilham a intensidade da relação entre Rosa e Clarice. Se antes, ela nos afasta; a medida que ela passa a ser mais honesta e presente, nós também a abraçamos. Nós também a sentimos. Sob esta ótica, existem momentos chaves que indicam essa aproximação: perceba, por exemplo, quando mãe e filha conversam sobre quem é o verdadeiro pai, no segundo ato. Os enquadramentos de Laís se mantém individuais, sempre com Maria Ribeiro mais centralizado, como se estivesse na condição de juíza, e a mãe posta contra a parede. O quadro muda de perspectiva quando a mãe fala o nome do pai. Ali, Rosa passa a ficar desestabilizada no quadro, enquanto a mãe aparece centralizada. Outro momento? No piano da casa, quando mãe e filha conversam no mesmo banco, no centro do quadro. O que mudou? Laís quer nos indicar que, agora, elas estão na mesma página, ainda que queiram fugir pontualmente da situação que se encontram (e é brilhante o fato de que isso seja evidenciado num virar de costas ou numa saída de cena, com a voz ou um braço interferindo no quadro.) 

A diretora consegue ressaltar tanto o controle da narrativa que até a cena mais impessoal do longa-metragem soa orgânica dentro da embalagem, pois estamos em Brasília, junto com Rosa, conhecendo uma figura que nunca esteve presente. Lá, tudo parece estudado, os diálogos sem emoção, superficial. Algo que muda quando falamos da realidade de Rosa em sua cidade. "Sou pura fachada", ela diz para Pedro, com um retrovisor entre eles.

Esse retrovisor, essa sensação de medo do que vem de trás, medo do passado, é constante na vida de Rosa, pelo que Laís indica nos detalhes – no banheiro, nas vitrines, no carro, os espelhos brincam com a maneira como Rosa se vê: completa ou incompleta. 

Como todos nós, Rosa busca se autocompreender e afinar o relacionamento com seus semelhantes antes que seja tarde, antes da última nota ser tocada. É com esta transparência que Maria Ribeiro cria uma das personagens mais ricas do cinema brasileiro neste ano. Rosa fala do seu futuro e presente com tanta intensidade quanto o seu passado. 

E, afinal, Laís parece perguntar: viveremos melhores sozinhos e independentes, livres e humanos, com nossos erros e acertos, ou a companhia será indispensável para atingir a felicidade? Ao menos, Rosa encontrou seu caminho. O mesmo de seus pais. 

Legenda descritiva

Após uma jovem com déficit auditivo denunciar o descaso com animações legendadas pela Cinépolis Continente no ano passado, a rede parece estar disposta a se adaptar cada vez mais e melhorar a acessibilidade. Hoje, a rede já está trabalhando com filmes estrangeiros, brasileiros e animações com legendas descritivas no circuito. Como Nossos Pais faz parte da pauta. A primeira sessão da pré-estreia de Polícia Federal – a lei é para todos também contará com o recurso. 

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