Acidente que matou Jorge Lacerda e Nereu Ramos mudou rumo da política em Santa Catarina - Economia - O Sol Diário
 

A tragédia que abalou o Brasil14/06/2014 | 14h32

Acidente que matou Jorge Lacerda e Nereu Ramos mudou rumo da política em Santa Catarina

A queda do avião que transportava os catarinenses aconteceu no dia 16 de junho de 1958

Acidente que matou Jorge Lacerda e Nereu Ramos mudou rumo da política em Santa Catarina Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Jorge Lacerda (segundo da esquerda para a direita) foi governador do Estado entre 1956 e 1958 Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Segunda-feira, dia 16 de junho de 1958. O voo 412, com um Convair 440, da companhia Cruzeiro do Sul, decolou a noite de Florianópolis com destino ao Rio de Janeiro, com escalas em Curitiba e São Paulo. Nunca chegou ao destino. Caiu em São José dos Pinhais (PR), matando duas das maiores lideranças políticas de Santa Catarina e as de maior prestígio nacional: o senador Nereu Ramos e o governador Jorge Lacerda.

O lageano Nereu Ramos foi o único catarinense a exercer a Presidência da República. E o que garantiu a posse de Juscelino Kubitschek, na grave crise de 1955, provocada pela deposição do presidente Carlos Luz. Deputado constituinte, governador, interventor federal durante o Estado Novo, Nereu constituiu-se durante décadas no político catarinense de maior projeção e prestígio nacional. 

Jorge Lacerda notabilizara-se por destacada atuação como jornalista, depois como deputado e, finalmente, como governador de Santa Catarina. Idealizou e editou durante cinco anos o Letras e Artes, suplemento literário dominical do jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, considerado o mais completo do gênero no século passado.





Agregador, reuniu os grupos literários que viviam em conflito na antiga capital da República. Transformou o suplemento no espaço artístico e cultural mais valorizado da imprensa brasileira entre 1946 e 1950. Conviveu com os maiores escritores, os principais artistas e pensadores consagrados. Tais como: Adonias Filho, Afrânio Coutinho, Alceu de Amoroso Lima, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos, Gilberto Freyre,  José Lins do Rego, Ledo Ivo, Lygia Fagundes Telles, Manuelito de Ornellas, Mário Quintana, Marques Rebelo.

Jorge Lacerda foi o político que mais prestigiou a literatura e o jornalista catarinense que mais contribuiu para o enriquecimento literário e artístico brasileiro em seu tempo.

A carreira política foi fulminante. O prestígio nacional que alcançou com o Letras e Artes, a comunicação fácil, a retórica popular e a extraordinária sensibilidade humana e social o transformaram numa jovem liderança. Foi eleito deputado federal em 1950 pelo Partido de Representação Popular (PRP), integrando aliança liderada pela União Democrática Nacional (UDN). E se reelegeu em 1954, obtendo a maior votação dentro da coligação. Em 1955, apoiado pela UDN derrotou Francisco Benjamim Gallotti, do PSD.

Na Câmara Federal desfraldou bandeiras inéditas e pioneiras, todas de real interesse da população, tais com aproveitamento do carvão catarinense, defesa dos mineiros, proteção do Vale do Itajaí contra inundações. No governo, batalhou pela construção de estradas, pela integração do Oeste, pela promoção do parque industrial, pela instalação da Faculdade de Medicina, pela implantação de uma universidade em Santa Catarina no bairro Trindade, em Florianópolis.

Com o acidente aéreo no Paraná, o Estado perdeu Nereu Ramos, Jorge Lacerda, o deputado federal Leoberto Leal (PSD), o jornalista Sidney Nocetti e  outros 14 passageiros. 

Uma tragédia que mudou também os rumos da política de Santa Catarina e do Brasil.


::: O resgate da memória

Neto de Jorge Lacerda, o administrador Roberto Lacerda Westrupp (foto) vem realizando um comovente e excepcional trabalho de resgate da memória do ex-governador catarinense. Gravou depoimentos inéditos de amigos, colaboradores e correligionários, produziu um documentário por ocasião do cinquentenário da tragédia de São José dos Pinhais, vem digitalizando as históricas coleções do suplemento Letras e Artes, mantém um verdadeiro tesouro de troféus, medalhas, diplomas e tudo o que pertenceu a Jorge Lacerda.  

Novas gravações por ele mesmo realizadas e filmes antigos do período em que Lacerda foi governador obtidos em Blumenau estão sendo trabalhados para produção de um novo documentário de longa metragem.

Entusiasmado pela história do avô, Roberto relata a interlocutores os principais fatos da história catarinense na segunda metade do século passado,  relembra detalhes das eleições, das viagens do então governador ao interior, de episódios revelando sua sensibilidade humana, nas visitas aos morros de Florianópolis e de incontáveis passagens históricas retratando ocorrências de mais de 60 anos.




::: Assembleia programa centenário


Uma comissão especial nomeada pelo deputado Joares Ponticelli (PP), presidente da Assembleia Legislativa em 2013, está montando uma programação alusiva ao centenário de nascimento de Jorge Lacerda, a transcorrer no próximo dia 20 de outubro.

Proposta pelo deputado Edison Andrino (PMDB), a comissão já definiu a realização de uma sessão solene da Assembleia, logo após o segundo turno das eleições estaduais. O museólogo Max Müller começa a trabalhar numa exposição sobre a vida e a obra de Jorge Lacerda. Sessões especiais devem ser promovidas pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e Academia Catarinense de Letras. Um livro contendo depoimentos de personalidades políticas e literárias sobre Jorge Lacerda deverá ser lançado em Santa Catarina.  


::: A viagem

A política de alianças, a dignidade e a lealdade de Jorge Lacerda a Plínio Salgado foram dois fatores determinantes da viagem que decidiu realizar a São Paulo para uma conversa pessoal com o conhecido líder integralista, então presidente do PRP.

Tudo caminhava para a candidatura ao Senado do ex-governador Irineu Bornhausen. Plínio Salgado também era candidato. Enviara dois representantes a Florianópolis.
Para selar o acordo da candidatura Irineu Bornhausen, Lacerda precisava ter uma conversa com Plínio Salgado em São Paulo. Tentou falar com ele por telefone no dia 15 de junho, depois de assistir com a esposa Kyrana, missa dominical na Igreja Santo Antônio, no centro de Florianópolis. Tinha chegado dias antes do Rio de Janeiro.

A inesperada viagem à capital paulista teria caráter reservado. Tanto que Lacerda pediu ao secretário particular Norberto Ungaretti que a passagem fosse emitida em nome de "Pedro Santos".

Chegando ao aeroporto Hercílio Luz foi surpreendido com a presença de Nereu Ramos e Leoberto Leal, que embarcariam no mesmo avião. Começava ali o que o escritor Francisco Pereira intitulou na obra literária O Voo da Morte.

DIÁRIO CATARINENSE

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